A Junta de Freguesia da Fundada apresentou uma proposta à Câmara Municipal de Vila de Rei para a cedência da antiga escola primária, com vista à construção de quatro fogos de habitação a custos controlados. Na reunião de Câmara de sexta-feira passada, dia 2 de janeiro, o presidente da Autarquia, Paulo César Luís, deu conta da pretensão da Junta da Fundada.
“Sendo o Município proprietário do terreno onde se encontra a escola da Fundada” e havendo “necessidade de habitação para arrendamento” pois, como adianta a Junta de Freguesia, “havendo mais habitação, haverá a possibilidade de mais pessoas a viver na Fundada”, a Junta liderada por Manuel da Silva Mendes apresentou “duas opções para tentar resolver” a questão.
Assim, propôs a Junta, a cedência do terreno onde se encontra a escola e a cedência do edifício por 40 anos. O edifício conta com duas salas, uma delas vazia e a outra, a que levantou maiores questões, tem instalado o Museu Escola. Uma réplica exata de uma sala de aula tal como era na altura. Contudo, refere a Junta, “este Museu tem muito pouca procura”, tendo sido visitado duas vezes 2024 e outras tantas em 2025.
É então intenção deslocar o Museu para uma sala no 1.º andar da Junta de Freguesia.
Quanto ao edifício da escola, a Junta “compromete-se a construir o 1.º andar”, ficando assim com a possibilidade de construção de quatro habitações: dois T2 no rés-do-chão e outros dois T2 no 1.º andar. “Nós construíamos os apartamentos e ficávamos com as receitas”, conclui a proposta apresentada.
O presidente da Câmara Municipal de Vila de Rei quis depois ouvir a opinião dos vereadores e Miguel Silva disse ser “a favor da proposta, porque acaba por trazer valor àquilo que é a freguesia da Fundada”. Contudo, disse, “a única questão que eu tenho é relativamente à deslocação do museu atual para o edifício da Junta. Eu acho que aquele museu faz sentido é no seu todo, tanto do interior como do exterior. E a minha questão era tentar perceber se nós temos infraestruturas, antigas escolas primárias ainda sob a nossa gestão”, com vista a uma possível deslocação do Museu.
O presidente esclareceu que ”sob a nossa gestão não temos nenhuma”. Existem escolas primárias que mantêm a traça original, “mas que têm o uso diferenciado daquele a que foi dada quando a se construiu. Mas todas as escolas estão em uso, ou de uma associação, ou de um grupo de cidadãos que fazem dela a Casa de Oração, ou já foram transformadas no seu interior”.
Portanto, quanto a replicar o Museu Escola, o presidente disse que “nós poderemos, e tem que ser negociado com a Junta de Freguesia, verificar se é possível replicar numa das atuais associações que usufruem da escola. Sendo que, de caras, a da Seada tem um estado de conservação da antiga escola de uma forma bastante vincada. Mas usam o espaço e é o sítio onde os associados confraternizam e onde realizam as suas atividades. E a partir do momento em que nós colocarmos todo o espólio numa sala de qualquer escola primária, fica para aquele uso. E ficando exclusivo para aquele uso, corremos o risco de ficar sem outro uso. Nomeadamente como Casa de Oração ou como centro de convívio ou como apoio à população”. E Paulo César Luís relembrou que “foi exatamente por não ter uso, que a Junta de Freguesia está a propor realizar e promover habitação naquele espaço. Porque, de facto, tem muito pouca adesão”, referindo-se ao Museu.

Já o vereador Diogo Domingos, natural da Fundada, referiu-se à adaptação das pessoas, devido às lembranças que têm da escola mas também não se opôs à proposta.
“Não me oponho e até acho que faça sentido, tendo em conta os poucos espaços que há para rendas controladas”, disse. Contudo, afirmou que “se calhar, a única coisa que se vai opor é os sentimentos das pessoas mais antigas que utilizaram aquilo como escola. A minha família esteve lá toda. Mas acho que tempos novos correm e temos que nos adaptar às novas realidades. E não podemos estar só a pedir habitação na sede do concelho, mas também temos que, nas outras aldeias, ter habitação mais controlada para atrair novas pessoas ou as pessoas que estão cá e querem sair de casa dos pais. Do meu lado, não acho que haja problema nenhum, até acho que é uma iniciativa muito positiva”.
Miguel Silva voltou a falar dos números de visitação do Museu mas lembrou que, mais importante, são as memórias e vivências do povo. “ Nós temos ali um museu que se calhar até acaba por ser único, não sei se é único ou não, mas não deve haver assim tantos museus quanto isso. Porque é uma réplica de uma escola primária antiga. Estamos a falar mesmo de uma réplica. E há aqui uma solução para o museu”. Para o vereador, “cultura não é apenas números” e “poderia fazer sentido perceber também porque foram tão poucos os números. Se foi pela dinamização não ter sido a melhor, também não tenho esse conhecimento...”. Miguel Silva gostava era de “perceber se havia uma outra alternativa” mas “não me vou opor, como é óbvio, à proposta”. Não havendo alternativa, “temos que aceitar o que há”. Acrescentou também que “podemos perder ali um pouco... Se antes já era pouco dinamizado ou pouco utilizado, (...) acho que menos vai ser. Temos que refletir um bocadinho e perceber se faz sentido manter aquilo ou não. Ou encontrar outra solução, claro”.
Paulo César Luís disse perceber “a dor de perdermos algo que está associado à nossa identidade e à nossa cultura, e a quem nós somos enquanto povo coletivo”, mas voltou a referir que todas as escolas do Estado Novo estão cedidas ou já foram vendidas e “estão ao serviço da comunidade”. E falou da sua própria experiência “porque também o senti quando a escola do Milreu foi cedida para a construção de um lar. Senti que parte de mim desapareceu. O o que é certo é que a importância do lar de Milreu é sobejamente mais importante do que aquilo que era o uso que se estava a dar àquela escola, que era nenhum”.
“Devemos procurar uma solução alternativa para expor o material que nós temos naquela junta de freguesia, seja para replicar aquela sala, seja encontrar a melhor forma de manter vivo aquele património que é de todos, que é da nossa memória, que é da nossa formação”, garantiu o autarca.
Mas agora, há que olhar para as prioridades e “este pedido da Junta de Freguesia vem nesse sentido. A Fundada possui um imóvel, cujo impacto para a freguesia é muito reduzido, e a Junta pretende atribuir-lhe mais valor, ou seja, que a infraestrutura fique ao serviço da comunidade, potenciando a cedência de habitação a custos controlados, numa obra que o senhor presidente da Junta já me disse que já tem a verba destinada para a realização das obras. É um processo que já estava a ser consolidado por eles”.
No final, o presidente da Câmara apresentou uma proposta onde se aprovou “a cedência por um período de 40 anos do usufruto do imóvel, permitindo à Junta a construção de habitações a custos controlados”. Por outro lado, “trabalharmos com a Junta de Freguesia para replicar aquilo que está dentro da escola, num outro espaço, e manter viva a memória de quem estudou naqueles termos”.
Paulo César Luís disse mesmo que o núcleo museológico poderá vir a ser melhorado no futuro, num novo espaço. “Aquilo que está lá é uma sala pura e dura daquilo que era o ensino naqueles termos, mas temos que procurar divulgar aquilo que eram as antigas escolas primárias, até porque nós temos registo fotográfico delas todas, e acho que podemos fazer quase que um museu, ou uma sala expositiva onde se faça essa alegoria a todas as escolas que estiveram ao serviço da nossa comunidade”.
A proposta foi aprovada por unanimidade. A Junta de Freguesia de Fundada vai ver cedida a antiga escola primária por um período de 40 anos e irá transformar o edifício escolar em quatro fogos para habitação a custos controlados.
