Uma em cada seis crianças e jovens no mundo não tem acesso à escola, segundo um relatório da Unesco divulgado hoje que aponta para 273 milhões excluídos da educação.
Estes são números do Relatório de Monitorização da Educação Global sobre Acesso e Equidade apresentado hoje em Paris por Manos Antoninis, responsável pelo estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Segundo Manos Antoninis, aos 273 milhões de crianças e jovens sem acesso à educação, devem-se somar outros 13 milhões que vivem nos 10 países mais afetados por conflitos.
O relatório mostra que os países não irão alcançar o acesso universal à educação até 2030, mas tal “não significa que os países falharam”, defendeu o diretor da Unesco.
A opinião foi corroborada por Andreas Schleicher, Diretor de Educação e Competências da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que alegou terem sido definidas “metas demasiado ambiciosas”.
“A educação global não falhou”, disse Andreas Schleicher, citando os dados que mostram que há muito mais alunos nas escolas desde 2000: São hoje mais 204 milhões no ensino básico e mais 121 milhões no ensino secundário.
Em 2024, havia 1,4 mil milhões de estudantes matriculados nas escolas do ensino básico e secundário, ou seja, mais 327 milhões do que em 2000: As crianças no pré-escolar são hoje mais 45%, no ensino obrigatório são mais 30% e no ensino superior mais 161%.
Nos últimos 25 anos, triplicaram os países onde passou a ser obrigatório estudar até ao 12.º ano e também aumentou a percentagem dos que terminam os estudos, que “são agora mais 30%”, disse Manos Antoninis.
Os dois especialistas lembraram que existem muitas histórias de sucesso, resultado dos modelos implementados pelos Governos que se preocupam cada vez mais com os mais desfavorecidos.
O número de países que investem no apoio às populações desfavorecidas aumentou significativamente nas últimas décadas, sendo exemplo disso a duplicação dos programas de alimentação escolar.
“No entanto, menos de um em cada 10 países tem um forte foco na equidade”, lê-se no documento que é o primeiro de uma série de três estudos que serão divulgados até 2028.
Apesar das melhorias, os investigadores perceberam que desde 2015 as taxas de exclusão escolar começaram a abrandar em todas as regiões: “Após uma queda de 33% entre 2000 e 2015, o número de pessoas fora da escola aumentou pelo sétimo ano consecutivo, crescendo 3% desde 2015 e atingindo 273 milhões em 2024”.
Mas há países que reduziram as taxas de exclusão escolar em, pelo menos, 80% desde 2000, como foi o caso de Madagáscar e Togo entre as crianças, Marrocos e Vietname entre os adolescentes e a Geórgia e a Turquia entre os jovens, contou Manos Antoninis.
A taxa de conclusão escolar estagnou e os investigadores admitem que possa ser impossível chegar aos 100%: “Ao ritmo atual de expansão, o mundo só atingiria 95% de conclusão do ensino secundário superior em 2105”, refere o estudo.
Há cada vez menos chumbos, mas ainda há muitas crianças que começam tarde a escola e repetem muitos anos, em especial nos países mais pobres.
“A história não nos vai julgar pelo número dos que atingiram o topo mas sim pelos que ficaram para trás”, reconheceu Andreas Schleicher.
O relatório hoje apresentado é o primeiro de uma série de três. Os investigadores abordaram agora o progresso da educação em termos de acesso e equidade, no próximo ano será sobre aprendizagem e qualidade e, em 2028, o último relatório irá focar-se na relevância da educação.
A série “Contagem Decrescente para 2030” prepara o debate para a agenda pós-2030 e segundo o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, “muito já foi alcançado, mas ainda há muito para fazer. O relógio continua a contar”.
A refugiada afegã Marzieh Hamidi também participou na cerimónia de apresentação do estudo dando o seu exemplo pessoal contou como a sua “vida mudou através da educação”.
“A educação não era uma garantia, mas uma luta pela qual tinha que lutar diariamente”, disse a atleta olímpica: “A educação deu-me esperança, confiança e a capacidade de imaginar um futuro maior”.
“Mas hoje, o futuro de milhões de meninas afegãs está a ser-lhes roubado. Desde 2021, o regime talibã impediu as mulheres de terem acesso à educação, sendo o único país no mundo onde as raparigas não podem estudar depois dos 12 anos”, sublinhou a também ativista pelos direitos das mulheres.
Lusa