Dois meses após a tempestade Kristin, o concelho de Ferreira do Zêzere continua longe da normalização, com prejuízos que podem chegar aos 150 milhões de euros e atrasos nos apoios a condicionarem a recuperação, segundo o presidente da câmara.
“A presença do Estado no território tem sido constante, mas as respostas concretas aos danos ainda não se materializaram. É urgente disponibilizar soluções financeiras e instrumentos práticos que permitam recuperar infraestruturas, apoiar famílias e empresas e garantir a normalização do concelho”, disse à agência Lusa Bruno Gomes, presidente daquele município do distrito de Santarém.
Segundo dados da Câmara Municipal, o impacto direto já ultrapassa os 29 milhões de euros (ME), incluindo cerca de 3,5 ME em infraestruturas municipais, 19,6 ME no setor empresarial e 2,1 ME em IPSS e associações, a que acrescem cerca de 4 ME solicitados por privados e freguesias.
“Estes valores representam apenas uma parte da realidade. Se incluirmos habitações, património municipal e o setor florestal, estimamos que os prejuízos globais possam ascender a cerca de 150 milhões de euros”, indicou o autarca.
No âmbito dos apoios, foram submetidas 715 candidaturas à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDRLVT), das quais cerca de 72% já foram analisadas. Nos apoios até 5.000 euros, a taxa de análise ultrapassa 97%, mas apenas à volta de um terço foi pago, totalizando cerca de 150 mil euros, enquanto nos processos de maior valor ainda não há pagamentos registados.
“É prioritário agilizar os pagamentos às famílias e garantir apoios a fundo perdido para micro e pequenas empresas, que continuam com a sua capacidade produtiva afetada”, defendeu Bruno Gomes.
Apesar da estabilização das situações mais críticas nos primeiros dias após a tempestade, o concelho enfrenta ainda constrangimentos relevantes, nomeadamente ao nível das comunicações, com mais de mil pessoas sem acesso a internet fixa e instabilidade na rede móvel, bem como condicionamentos em vias e equipamentos públicos encerrados.
“Estamos ainda longe da normalização total. As intervenções de maior dimensão, como taludes, vias e coberturas, dependem de apoios e de processos exigentes, o que condiciona a sua execução”, explicou.
A tempestade teve um impacto transversal no território, com danos em habitações, rede viária, tecido empresarial e equipamentos públicos, incluindo o Cine-Teatro, Piscina Municipal, Centro Cultural e escolas, tendo sido realizadas mais de 2.500 intervenções no terreno.
“Cerca de 85% da população foi afetada, sendo que ao nível da energia e telecomunicações a afetação foi praticamente total”, referiu o presidente da câmara.
Os setores mais atingidos foram a indústria e a agricultura, com impactos prolongados, mantendo-se ainda empresas e explorações agrícolas sem condições para retomar a atividade.
“Existem empresas e explorações que ainda não recuperaram a sua capacidade produtiva por falta de condições infraestruturais, o que continua a penalizar a economia local”, alertou.
Ao nível social, o município registou impactos significativos, com agravamento de fragilidades e efeitos psicológicos nas populações, tendo sido mobilizadas equipas técnicas, voluntários e apoio intermunicipal para resposta de proximidade.
“A resposta da comunidade foi notável, com empresas e voluntários a ajudarem no terreno, incluindo apoio gratuito de empresas de construção que contribuíram para resolver situações urgentes”, destacou.
O autarca sublinhou ainda a capacidade de resposta do concelho, apontando como principais fatores de sucesso a articulação entre entidades, o investimento na proteção civil e a proximidade às populações.
“Conseguimos estabilizar rapidamente situação graças à cooperação entre serviços, agentes locais e comunidade, o que demonstra a importância do investimento contínuo na proteção civil”, afirmou.
Para o futuro, Bruno Gomes defende o reforço da resiliência das infraestruturas críticas, nomeadamente nas áreas da energia e comunicações, e maior preparação para fenómenos extremos.
“É fundamental reforçar a robustez das redes críticas e continuar a preparar o território, as instituições e a população para eventos desta natureza”, considerou.
A reposição das principais vias deverá ocorrer nos próximos três meses, mas a recuperação integral do concelho deverá prolongar-se ao longo de 2026, dependendo da concretização dos apoios e das intervenções planeadas, declarou.
Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que fizeram também várias centenas de feridos, desalojados e deslocados. Mais de metade das mortes foram registadas em trabalhos de recuperação.
Os temporais, que atingiram o território continental durante cerca de três semanas, provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com prejuízos de milhares de milhões de euros.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afetadas.
Lusa