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Abrantes: Jogar ABT nasce com o objetivo de criar uma ludoteca regional (c/áudio)

3/10/2026 às 09:45

A Associação Jogar ABT foi constituída a 27 de agosto por cidadãos dos concelhos de Abrantes e Sardoal. A nova coletividade pretende criar uma ludoteca, organizar encontros semanais abertos ao público e promover os jogos de tabuleiro e os jogos narrativos, conhecidos como RPG, junto de pessoas de diferentes idades.

Texto: Jerónimo Belo Jorge

Fotos: Media On | Marina Gonçalves

A formalização da associação surge na sequência de mais de três décadas de encontros entre jogadores em Abrantes, Alferrarede, Casais de Revelhos, Rossio ao Sul do Tejo e Tramagal.

Ao longo dos anos, o grupo passou por diferentes espaços públicos e particulares. Entre as iniciativas realizadas esteve a TrincaCon, um encontro de jogos de tabuleiro promovido durante vários anos em Abrantes, associado às sessões que decorriam na Trincanela.

Quando deixaram de existir condições para manter os encontros em locais públicos, os jogadores passaram a reunir-se sobretudo em casas particulares. Uma delas é a cave da casa do presidente, uma espécie de “Covil”, onde se encontra uma coleção de aproximadamente 500 jogos.

Em entrevista à Antena Livre e Jornal de Abrantes, o presidente da Jogar ABT, Hugo Pereira, explicou que a criação da associação era uma ambição antiga, mas que só agora foi possível reunir as pessoas necessárias para avançar.

«Não basta haver pessoas que gostem de jogos de tabuleiro. É necessário que, dentro desse conjunto, existam pessoas interessadas em criar uma associação», afirmou.

Festival das Juventudes confirmou existência de público

O impulso decisivo surgiu com a participação do grupo nas duas últimas edições do Festival das Juventudes, a convite da Câmara Municipal de Abrantes.

A Jogar ABT, ainda antes de estar formalmente constituída, dinamizou uma tenda com jogos de tabuleiro, registando uma adesão significativa de jovens e famílias.

«Apareceram avós com netos, irmãos, pais e filhos. Muitas pessoas perguntavam onde estávamos e onde poderiam voltar a jogar», contou Hugo Pereira.

Na altura, os elementos do grupo explicavam que os encontros decorriam apenas em casas particulares, embora já existisse vontade de criar uma estrutura aberta à comunidade.

A resposta obtida no Festival das Juventudes confirmou, segundo os fundadores, a existência de uma massa crítica de jogadores e de pessoas interessadas em conhecer esta atividade.

«Surgiu agora a oportunidade de constituir a associação e de procurar dar resposta àquilo que as próprias pessoas nos estavam a pedir», acrescentou o presidente.

Associação procura espaço para instalar ludoteca

O principal objetivo da Jogar ABT é criar uma ludoteca que possa abrir ao público alguns dias por semana e acolher encontros regulares.

A intenção é disponibilizar um espaço onde qualquer pessoa possa experimentar os jogos existentes, mesmo sem experiência anterior.

«Queremos um espaço público e acessível onde pessoas de diferentes idades, meios e nacionalidades possam sentar-se à volta de uma mesa e desfrutar de um jogo», explicou Hugo Pereira.

A associação já manteve conversas informais com autarquias e juntas de freguesia para avaliar possíveis soluções. De acordo com o dirigente, existiu abertura, embora o processo esteja ainda numa fase inicial.

Enquanto não encontra instalações permanentes, a Jogar ABT pretende utilizar espaços cedidos temporariamente para organizar atividades, apresentar os jogos e permitir o contacto da população com este universo.

A associação está também a preparar uma candidatura ao programa FINAbrantes, procurando apoio para adquirir jogos e equipamentos e desenvolver as primeiras ações públicas.

Uma paixão iniciada na infância

A ligação de Hugo Pereira aos jogos começou ainda durante a infância, em partidas realizadas com os pais e com o avô, que lhe ensinou xadrez e gamão.

Na escola, continuou a jogar nas bibliotecas e, mais tarde, começou a participar com amigos em jogos narrativos ou RPG. O interesse cresceu com a evolução dos chamados jogos de tabuleiro modernos.

O presidente da Jogar ABT considera que títulos como “Catan” contribuíram para transformar o setor, através de regras mais equilibradas, durações previsíveis e diferentes estratégias para alcançar a vitória.

Ao contrário de alguns jogos mais antigos, as propostas modernas permitem que os participantes tomem decisões distintas e encontrem vários caminhos para atingir o objetivo.

«Quando existe apenas uma estratégia para ganhar e todos têm de fazer exatamente a mesma coisa, o jogo perde o interesse», observou.

Os jogos modernos recorrem ainda a tabuleiros e componentes modulares, permitindo criar partidas diferentes de cada vez que são utilizados.

Cerca de 500 jogos reunidos no “Covil”

A coleção particular de Hugo Pereira inclui cerca de 500 jogos nacionais e estrangeiros, de diferentes épocas, temáticas e níveis de dificuldade.

Há jogos sobre café, cidades, música, exploração espacial, economia, parques naturais ou investigação criminal. Existem também títulos de autores e editoras portuguesas, incluindo um jogo dedicado ao fado.

«Tenho quase a certeza de que existe um jogo para cada pessoa, um jogo com o qual cada um se consegue identificar», defendeu.

A variedade abrange propostas que podem ser aprendidas em poucos minutos e terminadas num quarto de hora, mas também experiências mais complexas, capazes de se prolongar durante várias horas.

Para quem está a começar, Hugo Pereira recomenda jogos simples e cooperativos, como “Bandido”. Nesse título, os participantes colocam cartas em conjunto para fechar os túneis escavados por uma personagem que tenta fugir da prisão.

No extremo oposto está “Nemesis”, o primeiro jogo adquirido para a futura coleção da associação. A ação decorre numa nave espacial onde cada jogador tem objetivos próprios, enquanto a tripulação enfrenta criaturas e tenta sobreviver.

Uma partida pode prolongar-se por cerca de seis horas e produzir uma narrativa diferente sempre que o jogo é utilizado.

«Há jogos que dão sempre histórias. No dia seguinte ainda estamos a contar aquilo que aconteceu durante a partida», relatou Hugo Pereira.

Jogar para conviver, não apenas para ganhar

A Jogar ABT pretende promover sobretudo a componente lúdica e social, afastando-se de uma lógica exclusivamente competitiva.

Embora os participantes procurem vencer, o objetivo principal é conviver e desfrutar da experiência.

«Jogamos para nos divertirmos. Toda a gente gosta de ganhar, mas também é preciso saber ganhar e saber perder», sublinhou o dirigente.

Os jogos podem ser competitivos, cooperativos ou semicooperativos. Em alguns, todos trabalham para atingir um objetivo comum; noutros, existe confronto direto ou a possibilidade de um dos participantes assumir secretamente o papel de traidor.

Independentemente do modelo, a atividade obriga os jogadores a sentarem-se à mesma mesa, conversarem, observarem a linguagem corporal e tomarem decisões.

«Existe diálogo, contacto visual e interação. Não estamos isolados no telemóvel ou no computador», salientou.

Jogos ajudam a pensar e a tomar decisões

Para os fundadores da associação, os jogos de tabuleiro podem proporcionar benefícios cognitivos e sociais, desenvolvendo o raciocínio, a imaginação, a cooperação e a capacidade de tomar decisões.

Os participantes são confrontados com regras, recursos limitados e diferentes possibilidades de ação, tendo depois de lidar com as consequências das suas escolhas.

«Às vezes tomamos decisões certas e outras vezes decisões erradas. Nos jogos temos de aceitar as consequências e isso também nos prepara para a vida», considerou Hugo Pereira.

Alguns títulos introduzem ainda conceitos relacionados com economia, probabilidades, negociação ou gestão de recursos.

O dirigente distingue estas propostas dos jogos de azar, aos quais a palavra “jogo” ainda é frequentemente associada em Portugal.

Jovens são um dos públicos prioritários

A nova associação pretende captar crianças e jovens e apresentar-lhes uma alternativa ao tempo excessivo passado diante dos ecrãs.

No Festival das Juventudes, muitos jovens procuraram espontaneamente a tenda, experimentaram os jogos e permaneceram nas atividades.

O grupo privilegiou títulos de curta duração e com regras simples, mantendo também alguns jogos mais complexos montados em vitrinas, para mostrar a diversidade de cenários, componentes e miniaturas.

Hugo Pereira considera que os jogos de tabuleiro modernos podem despertar a curiosidade das novas gerações, sobretudo quando existe acompanhamento para escolher uma proposta adequada à idade e à experiência de cada participante.

«Um jogo mais complexo não é necessariamente melhor. Existem jogos leves e médios muito bem construídos, capazes de oferecer decisões interessantes sem se tornarem cansativos», explicou.

Hugo Pereira, presidente Jogar ABT

Com a criação da Jogar ABT, os fundadores querem agora transformar encontros informais numa programação regular, criar condições para receber novos jogadores e afirmar Abrantes como um polo regional dos jogos de tabuleiro e dos jogos narrativos.

 

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