ESPECIAL COVID-19

CRÓNICA: «Nuno Júdice, eu, e o plátano», por Luís Barbosa!

2020-09-10
Luis Barbosa
Luis Barbosa

SALPICOS DE CULTURA...

 

"Nuno Júdice, eu, e o plátano"

Gosto de ler Nuno Júdice. A sua escrita surpreende-me pela naturalidade das imagens que cria. Sente-as, e por isso quando o leio também eu me sintomais perto da natureza e mais integrado no universo.

Tive a feliz oportunidade de partilhar com ele um evento fora do país. Nessa atividade pediu-se a Nuno Júdice que lesse poesia que permitisse a quem estava presente sentir um pouco do Portugal distante. Foi ele que escolheu os textos e autores com que resolveu responder ao pedido.A expectativa que antecipadamente criei foi a de ver até que ponto a singeleza da sua forma de dizer poesia iria, sim, ou não, ser transportada para a oralidade com que, obrigatoriamente, outros autores iriam ser tratados. O caso é que nunca tinha ouvido Nuno Júdice declamar, e a experiência que tenho de outros momentos é que, uma coisa é ler poemas que alguém escreve, outra, é ouvir esse mesmo autor dizer a poesia que escreveu. Declamar não é de facto ler um texto, e das duas uma, ou quem declama transmite emocionalmente o sentir que está escrito, ou a declamação transforma-se num desesperante momento.

Com este nosso autor aconteceu, justamente, o contrário. Por ele foram escolhidos autores todos portugueses, e como se tratava de enfatizar a importância do contributo de investigadores e cientistas portugueses na conquista do conhecimento científico, os temas que escolheu valorizaram muito a forma como muitas vezes não damos o valor devido a quem lá fora enaltece o nome do país que representa.No fim ouve sorrisos, palmas e abraços, e eu fiquei com a ideia que ler poesia pode e deve ser um ato perfeitamente natural, desde que se sinta o que cada palavra, poeticamente escrita,simboliza. No fundo, guardei a deia de que afinal a coisa é simples, ou se sente o que se está a declamar, ou por muito boa que seja a dicção do leitor os sentimentos não passam.

Então passei a comprar mais livros do Nuno Júdice e um dos que adquiri foi “Linhas de água”. É uma obra interessante, tanto no seu conteúdo como no formato. Com título e textostraduzidos em francês, a obra é pequena.Tem apenas setenta e sete páginas. De capa, lombada e contracapa feitas num papel de textura espessa e branca.Possui na capa um desenho a riscados azuis e um nome por baixo, onde se lê Fata Morgado. No seu interior verifica-se que o livro foi publicado em 2000, com o concurso do Instituto Camões, e que a tradução foi sempre da autoria de Jean-Pierre Léger.

O que se pode perguntar é porque razão me lembrei de me socorrer deste autor para fazer o texto que agora escrevo? Vou explicar. Vivo na aldeia, e numa casa onde se plantaram árvores diversas. Uma delas foi um plátano. Contudo, facto é que a pobre árvore tem tido quem não goste muito dela. A razão parece ser só uma.É que, em diversos momentos do ano, tal como a natureza manda, deixa cair muitas folhas que, por serem grandes e em bom número, lá vão cobrindo um ou outro caminho. Facto é que mesmo havendo sempre a preocupação de não incomodar seja quem for, o que noto é que o olhado sobre esta árvore não é o melhor.

Ora, nesta obra de Nuno Júdice o que o autor faz é,quanto a mim, um autêntico hino à natureza. Todos os versos escritos em francês, e traduzidos para português, falam do seu convívio com o mundo natural, e de forma verdadeiramente sublime, deixa transparecer o que sente quando os seus sentidos se cruzam com esse mundo.

O plátano é uma das árvores privilegiadas neste seu contar de experiências sentidas, e do mesmo deixa, em poesia, o seguinte sentir:

Os ramos do plátano crescem

Como os tentáculos do polvo, deitando

A sua tinta de folhas verdes para o azul frio

do céu primaveril. No entanto, não conheço

quem se sente à sombra dos plátanos,

com receio de um abraço que termine no último

estertor da vida. Há troncos que atraem

o viajante, como abrigos em que o seu cansaço

se poderá dissipar, como o fumo que desaparece

com o vento matinal. O plátano tem a pressão

do metal, a cor prateada de um lago sob

o céu cinzento de inverno, os nós bruscos

que nenhuma imaginação corta com o gesto súbito

da espada. Navego, com os plátanos,

numa floresta oceânica; e dobro os cabos

das suas copas irregulares, com uma ânsia de raiz

em busca das águas profundas.

Bem, certamente que se percebe que não foi por acaso que escolhi esta poesia de Nuno Júdice sobre o plátano. É que, pese embora o “meu plátano” tenha quem gostaria de o ver cortado pela raiz, o facto é que, ao contrário dos que não gostam da sua sombra, eu sou dos que me sinto bem quando ao seu abrigo me sento. Não tenho medo da árvore. Ao contrário, quando a abraço, sinto-me mais ligado ao universo e até penso que as suas raízes me ajudam a enraizar mais fundo as minhas no mundo que me rodeia.

Despeço-me com amizade,

Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)

 

 

 

 

 

2020-09-10