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Mouriscas: Manuel Serrano festejou 105.º aniversário. A vida num século de mudanças (c/áudio)

8/07/2026 às 19:50
Manuel Serrano com a neta

Manuel Serrano, conhecido em Mouriscas por "Manel do Aurélio (nome do seu pai)", foi homenageado pela Associação Cultural e de Apoio à Terceira Idade de Mouriscas (ACATIM), neste 8 de julho, data em que assinalou a passagem dos seus 105 anos de vida.

A cerimónia contou com a presença de familiares, diretores da instituição e da vereadora responsável pela Ação Social no Município de Abrantes. Como acontece nos aniversários da instituição foram lidas as biografias dos aniversariantes: Manuel Serrano (105) e Brigida Esteves (87). Manuela Maia Alves, dirigente da ACATIM, recordou a vida daquele que é um dos mais antigos habitantes de Mouriscas e testemunha privilegiada das profundas transformações vividas pela comunidade.

Nascido a 8 de julho de 1921, no lugar de Outeiro dos Penedos, perto do Surdo, Manuel Serrano é filho de Aurélio Serrano, conhecido por Aurélio Palhinhas, e de Capitolina Lopes. Teve cinco irmãos. Embora em criança sonhasse ser pedreiro, acabou por seguir a tradição familiar e tornou-se sapateiro, iniciando a aprendizagem aos 14 anos com o tio, Eustáquio Serrano, no Casal Pita. Mais tarde aperfeiçoou a profissão com Joaquim Alves, conhecido por Joaquim Venâncio, concluindo a formação aos 16 anos.

Depois de casar com a prima Zulmira Cadete, tecedeira da freguesia, com quem teve um filho, e agora uma neta, estabeleceu a sua própria sapataria. Ainda tentou a emigração para Angola, onde exerceu o ofício durante cerca de um ano, regressando depois a Mouriscas, onde construiu grande parte da sua vida profissional.

Numa época em que o calçado era feito por medida, Manuel Serrano marcou gerações de mourisquenses. Cada par de sapatos começava pelo desenho do contorno do pé do cliente e por um conjunto de medições que permitiam fabricar um calçado personalizado. Era habitual estrear sapatos novos em ocasiões especiais, como casamentos, exames escolares ou festas, e até os sapatos das noivas eram frequentemente forrados com o tecido sobrante do vestido. Mas não só. Manuela Maia Alves recordou as pastas feitas em couro para quem entrava na escola primária.

O texto biográfico teve como base um escrito de João Maia Alves, em 2012, no seu blogue “Mouriscas, Terras e Gentes.” É este autor local que explica que ao longo da carreira, ensinou a profissão a outros aprendizes, trabalhou com vários sapateiros e, por vezes, deslocava-se a casa dos clientes para executar reparações ou fabricar calçado com a sua motorizada, uma ‘florett’ .

Imagem ilustrativa DR

Com o declínio da sapataria artesanal, quando começou a produção industrial de calçado, no final da década de 1960, adaptou-se aos novos tempos e passou a trabalhar na fábrica local de seiras e capachos.

A vida de Manuel Serrano, com mais de um século, cruza-se com alguns dos momentos mais marcantes da história de Portugal e da própria freguesia de Mouriscas. Tinha apenas cinco anos quando o golpe militar de 28 de maio de 1926 deu início à Ditadura Militar, que evoluiria para o Estado Novo, consolidado com a Constituição de 1933. Viveu os anos da Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), períodos que marcaram profundamente o quotidiano das populações.

Enquanto crescia, Mouriscas afirmava-se pela forte atividade das oficinas de espartaria, dedicadas ao fabrico de seiras e capachos, pelos telheiros com fabrico de telhas mouriscas e tijolo burro e pelo desenvolvimento da indústria pirotécnica artesanal, a partir da década de 1930, coexistindo com uma intensa emigração sazonal para as ceifas no Alentejo.

Recorte de anúncio em cartaz das festas de verão de 1964

Entre as mudanças que testemunhou destacam-se a fundação, em 2 de janeiro de 1946, do Grupo Desportivo e Recreativo “Os Esparteiros”, cujo nome está intimamente ligado à indústria da espartaria, a inauguração da Barragem de Castelo do Bode, em 1951, que impulsionou a produção de energia e a economia da região, bem como a chegada da eletricidade à freguesia, por volta de 1960, substituindo a iluminação feita através de candeias de azeite, candeeiros de petróleo e petromaxes.

Na década de 1970 assistiu ainda à expansão da rede pública de abastecimento de água, que veio substituir gradualmente poços, minas, fontes e chafarizes, à inauguração da nova Igreja Matriz de São Sebastião, em 1971, e ao início da construção da Barragem do Negrelinho, em 1977, cujo sistema de abastecimento de água entrou em funcionamento a 6 de junho de 1993.

A homenagem promovida pela ACATIM destacou não apenas a extraordinária longevidade de Manuel Serrano, mas também o valor da sua memória enquanto testemunha viva da evolução de Mouriscas ao longo de mais de um século. É uma forma que a instituição tem de assinalar os aniversários dos utentes. É lida uma pequena biografia, canta-se os parabéns e parte-se o bolo. E é um momento de confraternização entre os utentes do lar e centro de dia com os familiares dos aniversariantes.

A vereadora Raquel Olhicas esteve presente para se associar a esta festa de um dos cidadãos do concelho com mais idade, senão mesmo o mais velho na atualidade. Mas esse é um facto que não pudemos confirmar.

A ACATIM tem três respostas sociais: ERPI (lar) com 30 utentes, centro de dia com 15 e 24 em apoio domiciliário. Conta atualmente com 32 funcionários.

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