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OPINIÃO: «A Cultura desocultada», por Luís Barbosa

2021-03-07

SALPICOS DE CULTURA....

 

«A Cultura desocultada»...

De forma despreocupada fui dando volta a alguns papéis que já há muito paravam por algumas gavetas. A intenção era corriqueira, deitar fora uns quantos jornais e revistas que o passar do tempo fez tornarem-se coisas obsoletas. Claro que sempre que este exercício ocorre acontece que dou, por vezes, com artigos de jornais, ou de revistas, que me deixam interesse particular. Desta vez topei com um suplemento de jornal que muito me agradou voltar a desfolhar.

Trata-se da revista Fugas, que contendo vários artigos longos contém um que muito me fez reviver os tempos académicos que fui vivendo em Évora. O título do artigo é “Portugal, Património Mundial”, e o subtítulo versa “As mil e uma histórias de Évora”. É um artigo de coletânea pertencente à série “Portugal, Património Mundial” que o jornal Público organizou e publicou durante algum tempo. A data do escrito é de 29 de fevereiro de 2020, e o belíssimo texto que foi elaborado por Mara Gonçalves está suportado por excelentes fotografias da autoria de Rui Gaudêncio. Pode perguntar-se porque razão fiquei preso a este artigo. A resposta parece-me simples. É que tendo vivido e trabalhado durante catorze anos na cidade de Évora tive oportunidade de conviver com muitas das particulares peripécias sociais, culturais e históricas que no artigo são contadas.

Trabalhei num palacete que no artigo vem referenciado como tendo pertencido à inquisição e que, depois do 25 de Abril, passou a ser ocupado pela Universidade. Facto é que também por ter dado aulas em quinze locais diferentes, fui habitante de muitas das casas “nobres” de cujas particularidades se dão conta no artigo. Não tendo sido nem nado, nem criado, naquela cidade, e sendo então habitante de Lisboa, acabei por ter encontrado espaço, na vida académica, justamente como docente da academia alentejana. Por isso, tenho bem presente como durante alguns anos me fez confusão a quantidade de histórias que ouvia sobre a autenticidade da própria cidade. De facto, enquanto eu próprio não pus os pés ao caminho para ir sabendo a verdade das coisas, muitas formas diferentes fui ouvindo sobre a verdadeira identidade da cidade.

Claro que não posso deixar de referir que as minhas angústias quase sempre se esbatiam no momento em que para dar aulas entrava em salas ornadas de excecionais coleções de azulejaria onde, durante o período em que lá fui docente, nunca vi que alguém fizesse o mais pequeno dano. Isto porque para nós professores, e para os alunos com quem privávamos, a beleza e a dignidade das salas, das pinturas e dos seus azulejos eram símbolos culturais a que não se podia fazer o menor mal.

No artigo trata-se da velha questão de se saber se o templo, que é tido como ícone da cidade, foi ou não feito em honra de Diana, deusa da caça, e que hoje se sabe ter sido edificado para enaltecer o culto religiosos e imperial romano, mas também se referem pormenores muito particulares da cidade dizendo que, passo a citar: “Passear por Évora é saltar constantemente entre séculos. Só no Largo do Conde de Vila Flor encontramos os períodos mais marcantes retratados a pedra, como se de uma montra histórica se tratasse. Ao centro, o templo romano, “o grande emblema da cidade”. Em redor, vestígios do antigo castelo nas torres que flanqueiam o Palácio de Cadaval; o Convento dos Lóios (hoje pousada), o Palácio da Inquisição (hoje Centro de Artes e Cultura) e o Paço Arquiepiscopal (hoje Museu de Évora), erguidos no século XVI; a Biblioteca Pública, do século XIX, e, atrás, as torres da Sé Catedral, “testemunho da cidade medieval, “uma das mais bonitas e emblemáticas do território português”, “com um acervo artístico e patrimonial formidável”.

Bem, espero que não me levem a mal ter trazido a este texto recordações muito particulares que experimentei enquanto fui docente da Universidade de Évora. Mas uma particularidade mais tenho de referir, é que tendo feito o meu percurso académico percorrendo dia a dia todos os sítios acima referidos, lembro-me bem como os meus colegas do Departamento de História lutaram para que, ao invés de se entender esta cidade como coisa menor, se aceitasse que ela é, talvez, uma das muitas cidades que esconde profundas caraterísticas de três culturas, a islâmica e a romana, muito escondidas, e a renascentista, que embora presente é, talvez, pouco referenciada. Contudo, digo eu, a Évora de hoje, pese embora todos os constrangimentos, é bem diferente da que foi por mim vivida. É que uma geração de gente nova tem vindo a desocultar as culturas aqui referidas, não para as esconder de novo, mas para fazer delas os verdadeiros símbolos que dão valor à cidade.

Despeço-me com amizade,
Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)

2021-03-07