ESPECIAL COVID-19

OPINIÃO «O ontem, o hoje e o amanhã», por Luís Barbosa

2021-03-01

SALPICOS DE CULTURA...

O ontem, o hoje e o amanhã

Hoje, dia 21.02.2021, sentei-me mais uma vez na mesma mesa onde habitualmente tomo o pequeno almoço. A meu lado, a Antonieta, minha mulher, fez-me, como também é hábito, companhia. Também como é regular aproveitámos o momento para ir dando conta das notícias que a televisão ia pondo no ar. Não foi com elevado prazer que fomos assistindo ao desenrolar das mesmas, porquê? Porque, para além de tomarmos conta dos números que permitem caraterizar a forma como a pandemia vai fazendo o seu percurso, rápido começámos a assistir a imagens de violência de confrontos diversos, realizados em várias partes do mundo, entre opositores políticos e guardas policiais.

É normal que nestas alturas baixemos o som da televisão e nos refugiemos num diálogo mais intimo, em que o som do recurso ao afeto ganha espaço sobre a vozearia das imagens televisivas. Foi o que mais uma vez aconteceu, e a conversa sobre as coisas da governação da casa ganhou espaço.

Tendo em conta que já tinha determinado escrever este texto, lembrei-me também que a problemática dos afetos já tinha sido por mim tratada em obra que escrevi e que foi editada em 2002, em Lisboa, pelo Instituto Piaget, titulada “Ensaio sobre o Desenvolvimento Humano”. Não interessa referir tudo o que então deixei expresso no livro publicado. Contudo, quero trazer à superfície da espuma do tempo, não apenas algumas ideias que sendo tão antigas quanto a humanidade, contrariam os modos de estar que vou vendo tão disseminados pelos média. Quero falar de afetos, e dizer que em 2002, justamente na televisão, alguém parecia antever a necessidade que hoje sinto de voltarmos ao tema.

Falo em primeira instância de Alçada Batista, escritor que muito convidado pela televisão e pelas rádios, parecendo ter com ele a intuição que se adivinhavam tempos muito conturbados, dizia alto e em bom som, que na sociedade dos humanos, era de todo necessário introduzir a “civilização dos afetos”. A expressão é dele, mas não era só ele que se movimentava nesse sentido. Também Vinícius de Moraes escrevia nos seus poemas e cantava nas canções a chamada “Linguagem do Amor” e Roberto Carlos entoava alto a convicção que era de todo necessário “Salvar as baleias”. Eu, por mim, fui dizendo que pensava que ao tempo se valorizavam cada vez mais as estratégias que faziam dos interesses pessoais as autênticas molas-reais da economia, das finanças e, por arrastamento, da política.

Repare-se bem que as preocupações anteriores foram expressas em 2002, ou seja, há quase vinte anos atrás, mas tenha-se também em consideração que as ideias eram expressas com a esperança que o futuro introduzisse meios sociais capazes de trazer a problemática do afeto ao cimo das preocupações humanas. A pergunta que se pode fazer, é se de facto tal fenómeno aconteceu? Ou se ao contrário, ao homem do nosso tempo não vai, efetivamente, faltando vontade e intenção de fundar as suas relações no Amor tão propalado tanto por Alçada Batista, ou Vinícius, que já nos deixaram, ou ainda tão eximiamente cantado por Roberto Calos que continua, nos nossos dias, a deixar tanta gente embevecida com as suas canções.

Despeço-me com amizade,

Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)

2021-03-01