Portugal em 2066. Um país onde há mais drones do que pássaros, a água é racionada, os automóveis circulam sem condutor e a tecnologia domina o quotidiano.
É este o cenário imaginado pelo jornalista e escritor Rodrigo Guedes de Carvalho no seu mais recente romance, “O Meu Primeiro Apocalipse”, apresentado na Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes, no sábado, 17 de outubro.

Uma história passada daqui a 40 anos, mas construída a partir de preocupações muito atuais, como a dependência das redes sociais, a desinformação, a inteligência artificial, o extremismo político e a perda do pensamento crítico.
A apresentação esteve a cargo de Patrícia Venâncio, que destacou a sensibilidade da escrita do autor e a forma como o romance nos confronta com o mundo que estamos a construir para as próximas gerações.

O romance acompanha Laura Ganjavi, uma jornalista e escritora de 66 anos, filha de pai iraniano e mãe portuguesa, que é desafiada a escrever um livro numa sociedade onde a literatura perdeu importância e a influência mediática parece valer mais do que o conhecimento.
Rodrigo Guedes de Carvalho explicou que escolheu 2066 por ser um futuro suficientemente distante para permitir imaginar transformações, mas ainda próximo da realidade que conhecemos.
O escritor acredita que muitas das mudanças descritas no romance são apenas um prolongamento de comportamentos que já fazem parte do nosso quotidiano.

Durante a conversa, o jornalista e escritor fez também uma reflexão sobre o poder das redes sociais e a crescente procura de atenção, que considera estar a transformar a comunicação, as relações humanas e até a vida política.
Na sua perspetiva, as plataformas digitais favorecem conteúdos que provocam reações emocionais, muitas vezes através do conflito e do ódio, contribuindo para uma sociedade cada vez mais polarizada.
Uma realidade que serviu também de inspiração para a construção do universo de O Meu Primeiro Apocalipse.

A inteligência artificial foi outro dos temas que marcou a apresentação em Abrantes.
Rodrigo Guedes de Carvalho manifestou preocupação com a possibilidade de manipulação da informação através das novas tecnologias, mas também com a utilização da inteligência artificial em profissões onde considera que a criatividade e a capacidade de pensar devem continuar a ser essencialmente humanas.
O escritor deu como exemplo a literatura e o jornalismo, questionando o recurso a ferramentas automáticas para substituir o trabalho intelectual de quem escolheu estas profissões.

Entre o humor, a crítica social e a imaginação, “O Meu Primeiro” Apocalipse apresenta um retrato possível de Portugal em 2066.
Rodrigo Guedes de Carvalho sublinhou, contudo, que não pretende fazer previsões nem apresentar um ensaio sobre o futuro, mas antes utilizar a liberdade da ficção para questionar o presente.
A apresentação na Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes, proporcionou assim uma conversa que ultrapassou a literatura e abordou alguns dos principais desafios da sociedade contemporânea.
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