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Proteção Civil: Depois da emergência estamos na recuperação. Mas é preciso olhar já para o verão - David Lobato (c/áudio)

18/02/2026 às 09:37

Os caudais do rio Tejo estão a descer, e em grande parte do seu curso o rio já regressou ao seu leito natural. Duas semanas de cheias deixaram as margens com um rasto de destruição e as águas que inundaram campos agrícolas vão demorar a escoar. É sempre assim quando o rio ultrapassada o seu corredor.

A Lezíria ganhou os sedimentos que fertilizam as terras, mas a campanha, principalmente de produtos hortícolas pode estar em causa, porque vai demorar até que as máquinas possam entrar nos campos para os preparar para as culturas.

Nas zonas urbanas, onde o Tejo entrou em zonas ribeirinhas, contabilizam-se os estragos, em passadiços, cais, miradouros e demais estruturas ligadas ao turismo e acesso aos rios.

O cais de Tancos “foi” com a “Tejada”, assim como a praia fluvial de Constância, nas margens do Zêzere, ou o Sasha River, em Rossio ao Sul do Tejo, ou ainda o Alamal, em Gavião.

Baixam as águas, fica a lama e quilos, e quilos de terra para limpar das calçadas, antes de bombeiros ou outras equipas passarem as ruas a agulheta, por forma a colocar a vida na normalidade habitual.

Por estes dias os Municípios, e muitos cidadãos, vão mostrando, nas redes sociais estes trabalhos do regresso à normalidade, até porque muitas destas gentes estão habituados a estes dias. Não havia era há muitos anos uma cheia tão grande como a de 2026.


Foto Município Constância | 16-02-2026

Se no dia 24 de janeiro a Proteção Civil acionou o alerta amarelo para o Plano de Cheias da Bacia do Tejo, para prevenção e monitorização do rio, foi também nessa altura que começaram a fazer passar a mensagem para as zonas mais ribeirinhas. Era preciso começar a retirar animais, bens, alfaias das zonas que habitualmente sofrem as inundações. Havia indicações da meteorologia que a primeira quinzena de fevereiro iria ter muita precipitação.

Mas antes, no dia 28 de janeiro, veio uma depressão Kristin, com ventos fortíssimos que deixou um rasto de destruição nos distritos de Leiria, Coimbra, norte de Santarém e Castelo Branco. O rio nunca deixou de ser monitorizado. A Kristin fazia parte do comboio de depressões que traziam um rio atmosférico. E as previsões bateram certo, tanto da meteorologia como da Agência Portuguesa do Ambiente. Recorde-se que o presidente da APA, Pimenta Machado, nos primeiros dias de fevereiro apontou logo a necessidade de gestão das bacias hidrográficas com as chamadas cheias controladas. E apontou igualmente quais os rios onde iria haver complicações. Passou o Leonardo, a Marta, o Nils (causou enormes prejuízos no sul de França) e a Oriana, esta mais fraca.

A 5 de fevereiro, ainda de madrugada a Proteção Civil deparou-se com uma subida exponencial dos caudais do Tejo e passou o alerta do Plano de Cheias da Bacia do Tejo diretamente para vermelho. A previsão apontava para caudais já muito elevados, da ordem dos 8.000 m³/s em Abrantes ou 9.000 m³/s em Almourol, onde já se junta o Zêzere e o Nabão.

Hoje, passados os dois picos de cheia, pode afirmar-se que o planeamento correu bem. O pico de cheia na Estação Hidrométrica do Almourol foi de 9.057 m3/s, registado na madrugada do dia 6 de fevereiro. Uma semana depois o novo pico ficou abaixo deste valor, mas a altura das águas chegou a níveis quase idênticos a dia 5 e 6. Porquê? Porque esta segunda cheia apanhou todos os campos já cobertos de água, pelo que toda contou para altura, para fazer o curso do rio.

David Lobato, comandante da Proteção Civil do Médio Tejo, destacou destes episódios de cheia, nesta sub-região “que a população cada vez mais começa a ter uma cultura de segurança, de comportamentos, de evitar comportamentos de risco. Ainda temos os tais teimosos que, pelo conhecimento, porque sabem que ali podem passar, porque acham que ali naquela zona a coisa até vai correr bem, e alguns teimosos que ainda fazem aqui alguns atravessamentos que não correram mal, efetivamente não correram mal. Nós tivemos duas ou três situações em Abrantes só que também foram prontamente resolvidas.”

E são situações de cidadãos que conhecem as estradas e arriscam, muitas vezes porque pensam que podem mesmo passar.

Foto João Tavares | 12-02-2026

O comandante da Proteção Civil do Médio Tejo destaca que as pessoas começam a ter a noção que efetivamente “a proteção civil começa em cada um de nós, e se nós tivermos comportamentos de segurança, comportamentos preventivos, e a nossa ação for sempre em prol da vida humana e do cidadão, as coisas vão certamente, e começamos a, pensam as coisas a correr bem.”

Há, nestas comunidades ribeirinhas um conhecimento do rio e do comportamento das cheias, quando as há. Mas David Lobato alerta para uma realidade diferente. A cada cheia o rio muda. E depois deste mês será diferente.

“Não tenho nenhuma dúvida que este ano a margem do rio vai ficar novamente diferente, vai ficar mais aberta, portanto vai ficar nas zonas mais baixas que foram atravessadas e que foram galgadas, vai ficar mais permeável e possivelmente para o ano ou para o outro ano, quando estivermos novamente cheias, o comportamento vai ser diferente,” destacal, realçando que estas mudanças podem acrescentar perigos no futuro.

E nas situações que houve, em Abrantes, de pessoas que ficaram presas na água, não foi por falta de avisos ou de sinalização: “vão arriscar e o arriscar às vezes dá problema.”

Quando questionado se a Kristin veio mudar um pouco a ideia de que os portugueses desvalorizam os avisos, David Lobato pensa que sim. “O nível de destruição, quem lá está e quem lá passar vai verificar in loco, que é uma situação nunca vista. E acho que isso também nos despertou e vai despertar cada vez mais para os avisos e alertas."

David Lobato acrescenta mesmo que isto [tempestades e depressões mais violentas] passará a ser um novo normal. “Nós estávamos habituados aqui a cada 20 anos, ou de 30 em 30 anos, uma situação. Tivemos o Leslie, a Elsa, a Ofélia, agora tivemos a Kristin. Portanto, temos aqui, nos últimos 10 anos, muitas situações que a natureza é pródiga e não avisa quando é que vem. Quando nós temos a capacidade de prever e de antecipar é bom que as pessoas aceitem os avisos, que percebam que não estamos a avisar porque estamos a ser os profetas da desgraça, mas, porque efetivamente existe a necessidade das pessoas se prepararem. Se não acontecer é para ótimo, mas estávamos preparados para isso.”

Quando as águas dos rios começarem a descer há uma nova fase, de “avaliação daquilo que são riscos, e daqueles riscos, neste caso, daquilo que são destruições de vias de comunicação, de outras estruturas que ficaram destruídas, e vamos ter que as avaliar.”

Foto Município Abrantes

E depois acrescenta que há um outro perigo em todo o Médio Tejo, fruto da precipitação intensa, sendo os movimentos de massas ou as derrocadas. “Ainda estamos com muito deslizamento de terra, por toda a região. Alcanena, estamos ali com várias situações. Abrantes. O norte da região com Ourém, Ferreira do Zêzere e Tomar, também com muitas situações.”

Depois da emergência vem a fase da recuperação, da avaliação, e depois “voltamos novamente à mitigação e ao planeamento daquilo que será uma próxima. Porque não tenhamos dúvidas que vai acontecer uma próxima. Portanto, temos que nos tornar resilientes, porque resistentes já somos e fomos bastante. Mas temos que nos tornar resilientes para aquilo que poderá vir amanhã, depois da manhã, para o ano, daqui a dois anos, e isso fará toda a diferença.”

David Lobato, comandante Proteção Civil Médio Tejo

Mas se a Lezíria tem um problema com o escoamento das águas para poder ser possível praticar a agricultura, no Médio Tejo a questão é outra, mas que tem de começar a ser trabalhada. São os caminhos rurais, na floresta, onde há milhares de árvores caídas. Sardoal, Mação, Tomar, Abrantes, Ourém, Ferreira do Zêzere. Os caminhos florestais que estarão comprometidos e vão ficar comprometidos durante algum tempo. Portanto, “temos que ter aqui também devida atenção para que quem tiver caminhos e quem passar por esses caminhos e se tiver árvores a obstruir, avisar aos serviços municipais, porque estamos a falar de um território muito grande, muito grande, que até ao verão vamos ter que tentar limpar.” É que o verão traz com ele o calor e os incêndios florestais. E, nesta altura, grande parte da rede viária florestal está completamente obstruída depois da Kristin.

Foto Município Vila de Rei | 30-01-2026

Até agora os Municípios desobstruem as estradas de acesso a aldeias e populações e ainda não entrarem na rede florestal. Mas David Lobato salienta que é fundamental e tem de se começar a trabalhar, até como forma de prevenção do verão. Com a água deste inverno, assim que vier o tempo mais as plantam vão disparar no crescimento. Principalmente as matérias mais finas. “Temos que começar a avaliar estradas, avaliar faixas de contenção, avaliar faixas de gestão de combustível, e isto também será um problema no futuro próximo.”

David Lobato deixa a mensagem também a todos os proprietários para fazerem o seu trabalho e tentem limpar o possível. É que quem não passa por estas zonas mais destruídas pela Kristin não tem a noção de como ficou a floresta e a rede de caminhos florestais. E daqui a dias temos aí o verão.

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