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Investigação: A corrida contrarrelógio

31/08/2025 às 12:50

Na sociedade contemporânea, somos bombardeados por estímulos a cada segundo. O zumbido constante das notificações, o ”scrolling” infinito nas redes sociais e a expectativa de respostas imediatas transformaram a nossa forma de viver. Neste cenário, a urgência de tudo ser rápido e sem esforço tornou-se uma norma. Mas a que custo?

Um estudo revela que pessoas de várias cidades em redor do mundo andam 10% mais rápido do que há vinte anos. Este fenómeno é particularmente visível em centros empresariais como Singapura, Tóquio ou Nova Iorque. Contudo, essa pressa constante não se limita apenas ao modo como nos movemos, ela permeia todos os aspetos da nossa vida. A cultura da gratificação instantânea é notada, por exemplo, na coleção “One-Minute Bedtime Stories”, que visa atender à necessidade dos pais em contar histórias rápidas e objetivas. Esta ideia de que “cada segundo conta” molda a nossa percepção sobre a vida.

A tecnologia, embora traga inegáveis benefícios, contribui para a nossa impaciência. Se um elevador demora mais de 15 segundos a chegar, muitos já se sentem angustiados. A internet, com as suas promessas de velocidade, também nos condiciona a exigir respostas imediatas. A comunicação escrita tornou-se cada vez mais curta, com plataformas como o Twitter (agora “X”) a limitarem o número de caracteres, reforçando a ideia de que a brevidade é sinónimo de eficiência. No entanto, esta rapidez pode prejudicar a profundidade das nossas interações. Além disso, a pressão para sermos produtivos em todos os instantes gera um ciclo vicioso. O conceito de “burnout” ou esgotamento profissional, bastante discutido na atualidade, é um resultado direto dessa cultura de fazer mais em menos tempo. A psicóloga Christina Maslach, uma das principais investigadoras sobre o tema, alerta que a falta de equilíbrio entre a vida profissional e pessoal pode levar a sérios problemas de saúde mental. A multitarefa, frequentemente glorificada como uma habilidade essencial, pode ser um dos principais vilões desse processo. Pesquisas da Universidade de Stanford mostram que, ao tentarmos realizar várias tarefas de uma só vez, diminuímos a nossa eficiência em até 40%. A fragmentação da nossa atenção não só nos torna menos produtivos, como também nos priva da capacidade de nos concentrarmos no que realmente importa.

No nosso tempo livre, a pressa também se faz sentir. Embora os nossos carros sejam mais rápidos, o trânsito nas cidades, como em Nova Iorque ou Paris, faz com que muitas vezes gastemos mais tempo nas estradas do que em lazer. Assim, estamos sempre apressados, mesmo quando não há necessidade. Essa busca incessante por velocidade pode levar a um estado de constante stress e ansiedade.

A era dos estímulos rápidos traz desafios significativos, mas também oportunidades para refletirmos sobre o que realmente queremos. Ao valorizarmos o esforço e a paciência, podemos transformar a pressão da modernidade numa força para o crescimento pessoal. Afinal, como disse o filósofo Sêneca, “A pressa é a inimiga da perfeição.”

Que possamos aprender a apreciar o tempo, e a beleza do caminho que percorremos. 

Anna Kosmider Leal

Antropóloga

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