A associação ambientalista Zero contestou hoje a aposta de Portugal em ser destino de centros de dados internacionais sem salvaguardar a “transição climática” ou “o desenvolvimento equilibrado do território”.
Em causa está uma resolução do Conselho de Ministros de abril deste ano que, segundo a associação, prevê um grande reforço de produção elétrica que não consegue ser suportado pela estrutura existente, incluindo a “multiplicação por 40 da capacidade de armazenamento em baterias prevista no Plano Nacional de Energia e Clima”, e um “consumo de água correspondente ao de toda a área metropolitana de Lisboa”.
O diploma vem “colocar Portugal na rota da expansão europeia de ‘data centers’, mas não assegura com a robustez necessária, que estas infraestruturas contribuam efetivamente para a transição climática, a eficiência no uso de recursos e o desenvolvimento equilibrado do território”, afirma a Zero em comunicado.
Para os ambientalistas, o “elevado consumo de eletricidade exige seleção com base em critérios ambientais, nos contributos para soberania digital e na utilidade social dos projetos” para o país.
“Ao privilegiar mecanismos de simplificação administrativa e atração de investimento, a resolução deixa em aberto questões fundamentais sobre o uso sustentável de energia, água e território, num momento em que a transição energética exige respostas mais estruturadas e equitativas à procura já existente”.
Segundo a Zero, a nível mundial os centros de dados “representam atualmente cerca de 1,5% do consumo mundial de eletricidade”, mas em Portugal “as projeções apontam para um cenário em que os ‘data centers’ e outras cargas emergentes poderão representar até 15% a 20% do consumo elétrico nacional na próxima década”, com “uma pressão sem precedentes sobre o sistema energético”.
Para a Zero, os centros de dados “não podem comprometer a transição energética do país" e devem ser integrados no que designa “estratégia industrial verde”.
“A questão central não é se Portugal deve acolher ‘data centers’, mas sim para que servem, em que condições operam e como se integram no território e na economia”, referem os ambientalistas, admitindo que estas estruturas desempenham “um papel positivo na transição ecológica, nomeadamente ao suportar soluções digitais que aumentam a eficiência no uso de recursos”.
No entanto, “sem uma orientação estratégica, irão gerar um efeito ‘ricochete’, intensificando padrões de consumo energético e material associados a atividades de baixo valor social”, mas também “elevado impacto ambiental, enquanto geram pressão adicional sobre o território”, alerta a associação.
"A resolução aprovada recentemente falha ao não estabelecer critérios vinculativos quanto à adicionalidade de energia renovável, ao uso de água não potável, à eficiência energética mínima, à reutilização de calor residual ou à contribuição para a flexibilidade do sistema elétrico”, acrescenta.
A Zero considera que o trabalho dos centros de dados deve reverter para a própria sociedade portuguesa e “não apenas para a exportação de capacidade computacional ou para modelos económicos de baixa utilidade pública” e propõe “a integração dos ‘data centers’ em condomínios industriais sustentáveis, onde exista simbiose com outras atividades: aproveitamento de calor residual, produção local de energia renovável com armazenamento, utilização de água do mar ou reciclada e articulação com cadeias de valor industriais e científicas”.
Lusa