A Barragem do Castelo de Bode vai para obras de manutenção, mas apenas em junho de 2027 e não este verão, como estava previsto.
A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a EDP, que detém a concessão para a produção de eletricidade, tinham a intervenção prevista já para este ano. Mas a situação, mesmo não anunciada publicamente, começou a causar desconforto entre autarcas e operadores turísticos. Ainda para mais, depois de um janeiro que deixou um rasto de destruição em muitos municípios que têm na albufeira a sua oferta turística de verão. Ora, com os problemas pós- tempestade Kristin e uma eventual descida das águas da Barragem para a cota 105 cria constrangimentos nas operações de verão.
O que é que significa a cota 105? A cota de cheia está situação nos 121 metros. Baixar a Albufeira para a cota 105 será baixar 16 metros. Ou seja, em percentagem, é colocar a Albufeira nos 56% da sua capacidade. Seria colocar a Albufeira em níveis semelhantes aos de 2022 ou de 2001, os anos de seca mais intensa em Portugal.
Recorde-se que em 2022, a 16 de fevereiro, Castelo de Bode tinha um volume de água de 58,3%, e na altura o Ministério do Ambiente e Ação Climática condicionou os períodos de produção de eletricidade por parte da EDP.
Ainda de acordo com a informação avançada pela EDP à SIC a duração da intervenção aponta para quatro meses, “exigem que a zona de intervenção esteja a seco, realizadas no período de verão, quando as afluências à albufeira são mais deduzidas e mais facilmente geríreis.”
À SIC o presidente da APA, José Pimenta Machado, confirmou a intervenção e o adiamento para o verão de 2026, para não haver um verão com constrangimentos na atividade económica e turística quando toda a região ainda não recuperou dos prejuízos da tempestade Kristin.
José Pimenta Machado, APA
De acordo com a informação disponibilizada pela EDP ao mesmo canal de televisão “os trabalhos vão decorrer a montante das comportas e incluem a substituição do sistema de estanquidade, tratamento anticorrosivo e recuperação de componentes estruturais.”
A EDP informou ainda que a intervenção não aportará riscos para a estrutura ou populações, não irá interferir com o caudal ecológico ou com a capacidade de turbinar para a produção de eletricidade.
Jorge Rodrigues, presidente da Associação de Empresários de Turismo do Castelo de Bode (AETCB), diz que as indicações que têm é que é uma intervenção necessária pelo tem de haver adaptações. O dirigente diz ainda que há muita água e que espera é que não existam mais restrições para a circulação de embarcações.
Por outro lado, esta intervenção pode ser vista como uma oportunidade para melhorar acessos à albufeira, nomeadamente para melhorar rampas de acesso a meios náuticos.

Em 2022 foram feitas várias ações de limpeza aproveitando o nível do plano de água
Jorge Rodrigues adianta ainda uma outra possibilidade que passa por criar campanhas de limpeza das zonas que vão ficar a seco. E, ainda no campo das oportunidades, poderão existir outros atrativos, como as zonas habitacionais que foram inundadas e que raramente ficam a descoberto. O dirigente da associação representativa dos empresários da Albufeira do Castelo de Bode destaca a realização de uma conversa sobre o Castelo de Bode, dia 7 de maio, em Vila de Rei. Pode ser um local para traçar linhas de abordagem a esta realidade que vai ocorrer de junho a outubro do próximo ano.
A AETCB representa 32 empresários que operam nos oito concelhos da albufeira que contam com 10 ofertas de turismo na região.
Jorge Rodrigues, Associação Empresários Castelo de Bode
Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara de Abrantes e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, explicou que foi preciso encontrar uma estratégia que minimizasse os efeitos de uma intervenção técnica que vai ter de acontecer. O autarca indicou que, se fosse para avançar este ano não haveria condições para preparar o verão. Assim, a ser feita apenas entre junho e outubro de 2027 existirão mais condições para preparar e planear o verão, ao fim e ao cabo, ter tempo para mudar a estratégia de receção de turistas e utilizadores deste lago.
“Temos de estar preparados e ter de ter soluções para o trabalhos dos meios aéreos de combate aos incêndios florestais, se for necessário”, explicou Manuel Jorge Valamatos. E como Abrantes tem o abastecimento público de água a ser feito a partir do Castelo de Bode, o autarca salienta que desse ponto de vista tem tudo salvaguardado.
O presidente da Comunidade Intermunicipal acompanha a opinião de que este período “seco” será “uma excelente oportunidade, por via de solicitações das autarquias, para serem autorizadas várias obras de acesso ao plano de água.”
Manuel Jorge Valamatos, presidente CM Abrantes e CIM Médio Tejo
Tiago Carrão, presidente da Câmara de Tomar, em declarações à SIC, disse que a intervenção deveria ser na época baixa, mas se tiver mesmo de ser no verão este adiamento vem dar alguma margem aos operadores turísticos.
Tiago Carrão, presidente CM de Tomar
Também Vila de Rei é um dos concelhos que, com cotas muito baixas como as que estão previstas, tem complicações nas suas praias fluviais e zonas de lazer, nomeadamente na Zaboeira e, principalmente, em Fernandaires.
Paulo César Luís disse ter referido numa reunião na APA que haver uma informação apenas três meses antes da intervenção é muito curto, até porque Vila de Rei tem captação própria na albufeira que, face à cota prevista, pode ter de ter uma alteração para garantir o abastecimento ao concelho sem sobressaltos.

Em 2022, a "seca" de março colocou a descoberto várias estruturas que ficaram submersas quando a Barragem encheu
O autarca refere que imperou o bom senso em adiar a intervenção para 2027 até porque, se estava prevista e planeada, deveria ter havido uma informação mais atempada aos municípios e aos operadores turísticos.
Com a intervenção em 2027, o Município pode preparar-se e até, por exemplo, avançar com operações de limpeza dos terrenos que vão ficar secos, tal como se verificou em 2022.
Paulo César, presidente CM de Vila de Rei
Mas não é apenas na área do turismo e lazer, ou nas infraestruturas de acesso à água.
Se no abastecimento público de água pode não haver problemas de maior, nem na captação da EPAL, situada junto ao paredão, ou nas captações próprias de Abrantes e Vila de Rei, que estão localizadas em cotas muito mais baixas, na Proteção Civil podem existir também alguns constrangimentos.
Em 2022 já aconteceu e tem a ver com as linhas de ‘scooping’ para os aviões anfíbios de combate a incêndios florestais. Com esta cota, as linhas de voo para enchimento são menos. E, em caso de necessidade de haver acesso aos aviões de combate a incêndios, cria também limitações à circulação de embarcações particulares ou de recreio, quando seja necessário criar condições para os Canadair ou Fire-Boss poderem atuar.