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Sardoal: A Semana Santa “é altura de procurar um sentido para as coisas”

2/04/2026 às 09:26

É a sua primeira Semana Santa enquanto presidente da Câmara Municipal de Sardoal. Pedro Rosa fala-nos desta época mas também da realidade do concelho que agora tem a responsabilidade de gerir.

Por Patrícia Seixas

 

Tem muitos anos de organização mas esta é a primeira como presidente e com a responsabilidade de dar a cara pela Semana Santa...

Acho que a expressão é mesmo essa, é realmente uma grande responsabilidade. Ao longo destes anos sempre fiz parte da parte mais operacional da Semana Santa, quer na organização dos eventos, quer no acompanhamento. Mas esta parte do decidir, do juntar, do agregar, do distribuir tarefas e funções é sempre um desafio, porque tudo tem que correr bem, e é importante que o Município responda à altura daquilo que os crentes também esperam. A Semana Santa sempre existiu e estas celebrações estão intimamente ligadas, aliás é o ponto alto da religião católica, mas o que se espera é que nós possamos estar à altura disso e contribuirmos também de forma positiva a engrandecer este evento. É óbvio que aconteceria sempre, quer o município estivesse envolvido ou não. Mas estamos a trabalhar e esperamos que o tempo nos ajude e que a Primavera siga o seu ciclo normal, para que possa trazer muitas flores e muita diversidade para que a Semana Santa fique mais engalanada.

 

A Igreja Matriz está em obras. Vai haver alguma alteração ao programa?

Forçosamente, terá que existir. Atualmente, para efeitos de culto, está a ser usada a Igreja da Misericórdia, mas a Igreja da Misericórdia é muito pequena para aquilo que são as necessidades. Teremos que nos socorrer de planos B e tentar que isso não desvirtue aquilo que é a essência das procissões e aquilo que é o percurso normal das procissões. Vai obrigar a alguma boa vontade de todos em encontrar uma solução.

 

Um plano B poderá passar por missa campal, se estiver bom tempo?

É engraçado porque esse assunto foi abordado... mas penso que não. A solução passará mesmo por utilizar a Igreja da Misericórdia. Tudo o resto que diz respeito à participação nas procissões poderá ser preparado noutro local e, depois das cerimónias terminarem, haver a junção quer da Filarmónica, quer das Irmandades. Portanto, é para isso que se está a tentar encontrar um plano B.

 

Numa vila com tantas igrejas e tantas capelas, mau seria que não encontrassem...

Os espaços não deixam de existir e é uma coisa que nos apraz muito é este património edificado, que é também uma das nossas marcas identitárias. Termos tantas igrejas e tantas capelas em tão curto espaço.

 

O calendário religioso é fixo, mas que traz este ano a Câmara para a época da Páscoa no Sardoal?

Diria que a novidade talvez possa ser o Mercado da Páscoa, onde vamos juntar novamente os nossos artesãos que estão no Cá da Terra. Vamos convidá-los a associarem-se a estas festividades e poderem trazer um pouco daquilo que é o seu trabalho e a sua mais-valia neste sentido. Em termos de programa complementar, continuaremos com exposições, sempre exposições ligadas à arte sacra. (Ver pág. 17)

Continuaremos, obviamente, com os workshops, com os passeios pedestres ligados a esta temática. A escola continua a ser um parceiro muito importante naquilo que é este caminho do que pretendemos transmitir aos mais novos, com o Projeto Capela. Vamos fazer essa exposição dos projetos dos nossos alunos e também até um workshop, que também já é habitual, para executar o 2.º ou o 3.º lugar, dependendo da sua adequabilidade à construção de um tapete.

 

A encenação da Paixão de Cristo tem sido intermitente nestes últimos anos. Está assegurada para esta edição?

O Grupo Experimental Teatro Amador de Sardoal, o GETAS, fez um pequeno interregno na Paixão de Cristo. Não foi algo intencional, foi porque, na altura, estava a ser preparada uma nova peça que também seria uma uma peça-teatro na modalidade de peregrinação, que também estava prevista e depois não aconteceu. Mas, este ano, a Associação tem novos corpos dirigentes e, portanto, decidiu-se voltar à Paixão de Cristo. E aquilo que se espera é voltarmos a ter este teatro de rua... Com a enchente que costuma trazer. É sempre um desafio porque, sendo este um grupo de teatro amador, não tem artistas residentes, não tem artistas contratados, as pessoas fazem-no de forma voluntária. A própria cena da Paixão de Cristo envolve muitos figurantes. Não são apenas aqueles que são as figuras principais, mas todos os figurantes que se tentam trazer, por forma a criar este ambiente medieval e da multidão.

 

A população tende a virar-se para o divino em alturas de maiores dificuldades. Crê que esta Semana Santa vai ser vivida com mais intensidade, com tudo o que o país passou nos últimos tempos?

Eu tenho alguma dificuldade em achar que isso possa acontecer, porque isto mexe um bocadinho com aquilo que é a forma como as pessoas vivem a religião e a fé. Eu, sendo católico, estes momentos são sempre momentos para reflexão. E acho que a Semana Santa é sobretudo isso. Não só de pedirmos mais qualquer coisa mas de tentarmos ir à procura de uma resposta, de um sentido para as coisas. Porque nós temos sempre a facilidade, não sei se é defeito do português, mas de encontrarmos sempre o lado positivo. E entendemos sempre que...

 

Podia ser pior?

Exatamente. Dizemos sempre o mesmo: podia ser pior. Aliás, aqui no Sardoal dizemos isso sempre que eu me encontro com populares nos cafés ou nos eventos. A conversa do dia é a tempestade Kristin. E realmente todos dizem o mesmo: «olhando para os outros, isto correu muito bem. Nós estamos aqui no cantinho do céu». Não é de todo verdade, porque também tivemos prejuízos. E a partir do momento em que há alguém, algum dos nossos sardoalenses que sentiu, não só na pele, mas também naquilo que é a sua propriedade, este prejuízo, nós temos que ficar preocupados e temos que achar que também fomos muito afetados. Temos muitos prejuízos.

 

No concelho já está tudo operacional ou ainda há dificuldades que vão levar o seu tempo a serem ultrapassadas?

No que diz respeito a esta vontade de potenciar o turismo, de ligar este turismo e esta procura ao turismo religioso, eu acredito que há um aspeto que nós ainda não vamos conseguir ter resolvido e que tem a ver com a Nacional 2. Nós, desde o momento em que aderimos a este projeto da Nacional 2, sempre defendemos que este percurso deve ser feito pela sua rota original. E a sua rota original obriga a que a ligação entre Vila de Rei e Sardoal seja feita pelo Penedo Furado, com direção à aldeia do Brescovo, e a estrada veio quase toda abaixo. Temos ali um prejuízo que eu ainda não consigo quantificar. Já tínhamos mais ou menos quantificado o prejuízo que temos em Andreus, mas em Andreus é possível passar numa das vias, a estrada não se está totalmente obstruída. O mesmo já não acontece com Brescovo, em que metade da estrada, caiu. Portanto, está mesmo interdita ao trânsito. E esta estrada, temo que nos vá levar aqui algum tempo a resolver. Mas vai ter que ser resolvida, nem que tenhamos que repensar aquilo que é a nossa estratégia de ação para este próximo ano, e quem sabe até o próximo, porque estamos a falar de uma obra que vai custar muito dinheiro. Se para a obra de Andreus tínhamos alvitrado inicialmente na ordem dos 750 mil euros, eu que não sou técnico, olho para aquela obra e vejo ali muito mais trabalho. Portanto, vamos ver. Mas estamos cá para resolver esses assuntos, e eu às vezes costumo dizer que nós sabemos gerir, sobretudo nos momentos de crise. Portanto, os outros… é a normalidade. Mas eu acho que vamos conseguir resolver isso a breve trecho.

 

As intempéries do início deste ano deixaram um rasto de destruição. Sardoal não teve cheias, mas uma das zonas mais afetadas foi a área de lazer da Lapa, como também é normal, sendo um curso de água. Pondo agora estas prioridades em perspetiva, Lapa e Rosa Mana poderão vir a estar nos planos da autarquia com uma mudança de rumo nestes espaços, ou vai continuar a ser difícil?

Quando o Município decide fazer uma intervenção desse tipo, numa zona que é propícia às cheias, tem que o fazer com essa premissa… Sabendo que isto algum dia pode acontecer. As pessoas mais antigas sempre diziam que a água segue sempre o seu caminho e, portanto, não há forma de o evitar. Nós não temos o dom de quem está acima de nós, de poder desviar as águas. Mas a intenção é voltarmos a requalificar aquela zona de lazer, obviamente, e vamos fazer um esforço e trabalhar no sentido deste verão ela poder estar disponível e poder ser utilizada. Relativamente à Rosa Mana, também teve alguns prejuízos, mas também há outro projeto que queremos levar a cabo durante este mandato, que tem a ver com a construção de uma praia fluvial. Não vamos perder esse foco. Podemos ter que alterar algumas coisas pelo caminho e também priorizar em termos de tempo de implementação, mas que temos que devolver estes equipamentos às pessoas, disso não tenho dúvida.

 

A capacidade hoteleira tem aumentado no concelho. Já é suficiente, principalmente nesta época em que Sardoal recebe tantos visitantes?

É com agrado que eu vejo que a ocupação hoteleira do Sardoal, neste momento, já não é apenas algo sazonal. Sendo a Semana Santa o topo, as nossas unidades hoteleiras, sobretudo o alojamento local, têm estado com muitas reservas. E isso é bom. É sinal que as pessoas também procuram o Sardoal por outras razões. O Parque de Autocaravanas também está, muitas vezes, completamente cheio. E isso deixa-nos agradados porque sabemos que o Sardoal já é um destino para este tipo de turismo, mais este turismo de natureza e já não é apenas uma coisa sazonal. Mas na Semana Santa, espero que estejam todos ocupados e sobrelotados. É bom sinal para toda a gente que os nossos restaurantes estejam cheios porque é para isso que se trabalha. Porque o turismo, acima de tudo, é uma atividade económica e o que pretendemos com isto tudo é gerar retorno económico para estes agentes locais. Se é suficiente, talvez comece a ser pouco suficiente e, nesse sentido, também ainda temos o foco de conseguir instalar aqui esta unidade hoteleira na Casa Grande.

 

Como é que está esse processo?

Neste momento, a Casa Grande está inserida no programa Revive. Temos participado em feiras de turismo, na MIPIN, em Cannes, também estivemos recentemente na FITUR, em Madrid, e estabelecemos alguns contactos em que eu tenho expectativas. Temos levado este equipamento a esses eventos e vamos tentar encontrar alguns investidores.

 

Ainda há esperança, portanto...

Há, há. O estado de degradação do edifício está a piorar de ano para ano e, portanto, tenho que tomar decisões rapidamente sobre isso. Neste momento o foco é este, mas não coloco de parte de, um dia mais tarde, ter que pensar de outra maneira. E, se calhar, ter que intervir. Para já, aquilo que também pretendemos é fazer uma operação de cosmética e tentarmos dar-lhe outro ar. Porque também é a nossa imagem que está naquele edifício.

 

A Loja do Cidadão comemorou o mês passado 10 anos de portas abertas em Sardoal. Foram feitos mais de 155 mil atendimentos. Esta foi uma aposta de Executivos que integrou... foi uma aposta que garantiu que os serviços permaneciam no concelho.

Sim, foi uma nova centralidade que se criou aqui no Sardoal. Garantiu-se a permanência destes serviços e, para além disso, conseguiu criar-se ali um espaço com uma dinâmica muito interessante. Porque deixámos de ter a necessidade de ter vários espaços em vários locais da vila e ficou tudo congregado na mesma loja. E acho que esse foi o aspeto mais positivo. Eu lembro-me, e ando nisto já há algum tempo, do cutelo em cima das nossas cabeças, intensificado em altura de processos eleitorais, das acusações de que os serviços vão sair, vão abandonar... O que se decidiu em Sardoal foi que, mesmo que os serviços saíssem, que não fosse por falta de proatividade nossa. Que não fosse pelo facto do município não ter criado as condições necessárias. Na altura, o presidente Miguel Borges aceitou o desafio do Governo, quando muitos outros municípios aqui à nossa volta diziam que não, e o Sardoal e o presidente Miguel disseram presente. Houve também um conjunto de circunstâncias que levaram a que o espaço estivesse a pedir para ser instalado ali. Estava ali, à mão de semear. E fez-se o investimento. 155 mil atendimentos não é coisa pouca para um município com 3.800 habitantes. Felizmente, também sabemos que não serve apenas o concelho de Sardoal mas que foi uma mais-valia para os concelhos limítrofes.

 

Temos uma novidade para este ano... o Sardoal vai retomar a Feira do Fumeiro.

É verdade... Esta Feira do Fumeiro é uma retoma de algo que já vínhamos pensando há algum tempo. Em boa altura a TAGUS, que também foi parceira estratégica nesta iniciativa nos outros certames, voltou a estar disponível para colaborar aqui connosco e, portanto, vamos novamente trazer a Feira do Fumeiro para o Sardoal. Este ano com um mote diferente, pois na altura tinha incluído o queijo. Neste certame não vai ter o queijo, vai ter sim o vinho, porque a nossa intenção é também criar aqui uma janela e uma porta aberta àquilo que são os nossos produtores locais. Eu acho que o Sardoal já está a fazer a diferença também na qualidade do vinho que produz, e estas três quintas que temos - Vale do Armo, Quinta do Coro e Agrowine - são três quintas que transportam uma imagem muito boa do Sardoal, daquilo que se faz aqui e do bom que se faz no nosso território. Porque temos boas condições, não só climatéricas, mas também de solos e humanas, porque quem trabalha a terra tem que ter o seu valor, e quem trabalha estas questões do vinho também tem o seu valor. Temos, portanto, condições para ter vinhos de excelência e para levarmos estas marcas, que têm sempre o Sardoal atrás, muito além. Daí este ano o nosso foco também ser o vinho. E também o pão, claro, como marca identitária do nosso território.

 

Ainda há muito fumeiro no concelho?

Eu diria que o fumeiro é mais característico, ou pode-se encontrar mais na zona norte, até por força da influência da Beira Baixa. Dou-lhe um exemplo, ao nível dos maranhos. Sabemos que é um produto típico da zona da Sertã, de Vila de Rei, mas também temos pessoas no Sardoal, principalmente na zona norte, em que o maranho ainda faz parte das suas ementas. No Sardoal, aqui mais para o centro do concelho, não tanto. Mas o fumeiro ainda continua. Há algumas famílias que ainda querem manter esta tradição e que ainda fazem questão de se socorrer desta forma de economia, de poderem ter os seus produtos. Sabemos que, na maior parte das vezes, não são para comercialização. São para consumo próprio. Mas acho que devemos continuar também a promover este fumeiro.

 

Até porque também pode ser um incentivo?

Sim, também. Já tivemos uma empresa que, entretanto, já não está no Sardoal, mas algumas das empresas que estão instaladas aqui ao lado também têm explorações agrícolas no Sardoal. Então, é algo a que estamos sempre mais ou menos ligados.

 

 

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