Os projetos de instalação de centros de dados no concelho de Abrantes voltaram ao debate político na Assembleia Municipal, com a CDU a levantar dúvidas sobre os benefícios fiscais, os impactos ambientais e a capacidade dos promotores, enquanto o PS defendeu que o concelho não deve afastar oportunidades de investimento, desde que sejam cumpridas as exigências ambientais e conhecidos os respetivos impactos.
Ana Paula Cruz, eleita pela CDU, centrou a intervenção no projeto inicialmente apresentado pela EDC One para os terrenos junto à antiga Central do Pego. A eleita questionou a experiência, capacidade financeira e conhecimento técnico da empresa promotora e recordou os benefícios fiscais associados ao investimento.
O projeto recebeu, em setembro de 2025, o estatuto de Projeto Empresarial de Importância Municipal, tendo sido aprovado um pacote de isenções de IMI, IMT e Derrama que poderá atingir 16,2 milhões de euros. Parte destes benefícios só se concretizará caso o investimento avance e cumpra as condições contratualizadas. Jornal de Abrantes
Ana Paula Cruz apontou ainda potenciais consequências ambientais associadas aos centros de dados, nomeadamente ao nível dos consumos de eletricidade e água, ruído e pressão sobre o rio Tejo. São preocupações que também têm sido levantadas por organizações ambientalistas, embora os consumos efetivos dos projetos de Abrantes ainda dependam das soluções tecnológicas e dos processos de licenciamento. A Quercus tem defendido uma avaliação dos impactos cumulativos dos dois projetos previstos para o concelho. Quercus
A eleita da CDU quis, por isso, saber quando foi a Assembleia Municipal informada das vantagens e inconvenientes dos investimentos e dos compromissos assumidos pelo município. Questionou também se já são conhecidas as empresas ou consórcios com capacidade financeira e tecnológica para concretizar os projetos e qual a situação relativamente à classificação como projetos PIN.
Ana Paula Cruz, eleita CDU
Do lado do PS, Tiago Ricardo defendeu que Abrantes não deve «ficar à margem desta transformação», considerando possível compatibilizar investimento e transição energética com a proteção ambiental.
O eleito socialista salientou, no entanto, que os estudos de impacto ambiental ainda não são conhecidos e defendeu informação pública sobre os resultados dos eventuais investimentos. Entre os indicadores apontados estão o emprego efetivamente criado, contratação de empresas locais, formação, retorno para o município e parâmetros ambientais.
Tiago Ricardo sustentou que os territórios do interior não podem rejeitar oportunidades de investimento e, simultaneamente, lamentar problemas relacionados com emprego e perda de população, defendendo «prudência» e análise antes da concretização dos projetos.
Tiago Ricardo, eleito PS
Na resposta, o presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, reconheceu que ainda existem elementos por conhecer, nomeadamente quanto às necessidades de água dos projetos.
O autarca rejeitou, por isso, que nesta fase possam ser dados como adquiridos determinados valores de consumo e remeteu a avaliação dos impactos para os procedimentos ambientais a realizar pelas entidades competentes.
Valamatos defendeu ainda que as tecnologias atuais permitem soluções de circuito fechado nos sistemas de refrigeração e pediu que sejam aguardados os estudos e os processos de licenciamento antes de serem retiradas conclusões sobre os impactos concretos.
O presidente da Câmara voltou também a justificar os incentivos municipais com os pressupostos económicos associados aos investimentos e apontou para a criação de cerca de 600 postos de trabalho no conjunto dos dois projetos atualmente considerados pelo município.
O autarca colocou os centros de dados numa estratégia mais ampla de atração de indústria tecnológica para Abrantes, destacando como vantagens do território a disponibilidade de terrenos industriais, energia, recursos hídricos e conhecimento técnico.
Manuel Jorge Valamatos, presidente CM Abrantes
Atualmente estão em diferentes fases dois grandes projetos de centros de dados no concelho. O investimento inicialmente promovido pela EDC One prevê sete mil milhões de euros e recebeu benefícios fiscais municipais que podem atingir 16,2 milhões. O segundo, associado à Hyperion, recebeu parecer municipal favorável em sede de Pedido de Informação Prévia, não correspondendo essa decisão à aprovação definitiva do empreendimento.
A situação relativa ao estatuto PIN tem sido um dos pontos de discussão. Na visita da ministra do Ambiente a Abrantes, em meados de setembro, ficou a saber-se que ambos os projetos têm estatuto PIN e ambos têm ligação à rede elétrica aprovada.