A previsão era de um verão complicado no que aos incêndios diz respeito. Para além da enorme mancha florestal, o Médio Tejo tinha ainda que enfrentar os danos deixados pela depressão Kristin. Apesar do cenário não se afigurar favorável, o que é certo é que a sub-região do Médio Tejo pode falar de um ano “excelente”, agora que terminou a fase de maior número e prontidão de meios.
A apresentação dos resultados teve lugar na manhã desta sexta-feira, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Torres Novas. E o que foi apresentado, só poderia ter sido melhor se tivesse havido “zero ignições, zero em área ardida…, o que é impossível numa região com quase 150 mil hectares de área ardível”, disse David Lobato, comandante Sub-Regional da Proteção Civil do Médio Tejo.
A confirmar esta informação, o facto de, até às 00:00 de dia 15 de outubro, se terem verificado no Médio Tejo 282 ocorrências, o que levou a 400 hectares (ha) de área ardida.
Comparativamente, nos valores do ano de 2026, com o histórico dos últimos cinco anos (2021 –2025), até ao dia 15 de outubro, houve um aumento de mais 76 ocorrências de incêndios rurais e menos 78% de área ardida, relativamente à média anual do período. Já em comparação com 2025, a área ardida foi maior, em mais de 280 hectares.
E a média deste ano só ficou “estragada” devido ao único incêndio que superou os 90 minutos definidos para a resolução de incêndios em Ataque Inicial. Tratou-se do incêndio que deflagrou pelas 15:11 do dia 22 de agosto, em Mouriscas, no concelho de Abrantes. Só esse incêndio contou com 300 ha de área ardida. Contudo, feitas as contas, a Sub-Região do Médio Tejo tem uma taxa de resolução de incêndios em Ataque Inicial de 99,63%. Significa isto que, na posição a nível nacional, o Médio Tejo ficou em primeiro lugar. “Número um. Somos a única sub-região em que só passou um incêndio, foi este incêndio de Mouriscas, temos 99,63% de sucesso no ataque inicial. Apesar da falta de recursos humanos que tanto se falou aqui, os números têm uma expressão positiva”, confirmou o comandante.
Para David Lobato, estes números significam “muita responsabilidade. Responsabilidade para os anos que vêm agora a seguir, porque nós só tivemos um incêndio que nos saiu dos 90 minutos, (…) mas foi um incêndio que arrancou com muita, muita potência. Viram os meios que nós colocámos na primeira hora, estamos a falar de quase 400 operacionais e 130 meios numa primeira fase, portanto, numa hora de incêndio, e ainda assim só conseguimos entrar em resolução quase às zero horas. E, portanto, é uma responsabilidade, mas para já é um orgulho, efetivamente, não é ter um, porque o ótimo era termos zero, mas temos um, e depois fizemos aqui o comparativo com toda a região e com todo o nacional, e estamos bastante acima”.
Se Abrantes teve o maior incêndio deste verão no Médio Tejo, o concelho de Mação ficou em segundo lugar, com o incêndio de dia 5 de agosto, em São José das Matas, que consumiu 32 ha de área. E estes foram os dois únicos incêndios com mais de 10 ha de área ardida.
Quanto às causas, se o de Mouriscas se confirmou ter origem intencional, o de São José das Matas acabou por ter a conclusão de origem desconhecida, facto que deixou o comandante dos Bombeiros Voluntários de Mação, Pedro Jana, algo “indignado”, visto se ter apurado a causa logo no local, apesar da GNR não ter tido a mesma apreciação.

No total do Médio Tejo, das 282 ocorrências, Ourém voltou a estar em primeiro da lista com 65, seguido de perto por Abrantes com 63. Depois, o concelho de Tomar com 56, Torres Novas (30), Ferreira do Zêzere (21), Alcanena e Mação (13), Constância e Vila Nova da Barquinha (8), Sardoal (4) e Entroncamento (1). No que diz respeito às causas dos incêndios, nenhum foi apontado como tendo causas naturais para o seu início. Por outro lado, das 206 ocorrências investigadas pelas autoridades, 12% são de origem desconhecida, 30% de causa intencional e 53% tiveram origem em comportamentos negligentes. Houve ainda 1% que ficou a dever-se a dois reacendimentos.
Ora, perante estes dados, David Lobato afirmou que “apesar de este ano a Polícia Judiciária, a Guarda Nacional Republicana, todas as autoridades policiais terem feito um excelente trabalho, com o grupo de ignições da região centro, - houve aqui um trabalho também primordial – mas, ainda assim, temos uma taxa muito elevada de causas intencionais. Com Ourém e Abrantes a destacarem-se, efetivamente”.
Contudo, relembrou o comandante, “Ourém melhorou muito. Houve quatro ou cinco detenções. Nós temos estado em conversações permanentes com a Polícia Judiciária e com a GNR, sabemos que existem algumas pessoas identificadas, eles estão a fazer o seu trabalho, mas vamos esperar. Isto não é como nós queremos, é como nos vão deixando fazer. Mas, efetivamente, destacar isto, houve aqui um trabalho efetivo, acho que vai continuar, não tenho dúvidas, também com muita proximidade com os municípios e com muita proximidade por parte dos municípios para apoiar estas autoridades neste aspeto, que é um problema, efetivamente, é um problema”.
Outro dos pontos positivos, foi o facto de não ter havido vítimas mortais nem feridos graves neste período. Houve seis feridos leves a registar e quatro assistidos. Destes, sete eram agentes da Proteção Civil.
As carrinhas equipadas com kits de primeira intervenção foram referidas como sendo uma mais-valia, devido à proximidade e rapidez com que conseguem chegar aos locais e ficou o pedido para que os municípios possam olhar para esta questão, tendo como exemplo o município de Abrantes.
No final, o único objetivo que não foi atingido foi a redução do número de ignições. Como balanço final, “efetivamente, foi um ano bom para aquilo que foram as condições meteorológicas”. Com 282 ocorrências e apenas 400 hectares de área ardida, o comandante referiu que “alguma coisa fizemos bem”.
David Lobato deixou ainda a informação de que o Dispositivo não terminou, vai ser prolongado, pelo menos, até dia 21 de outubro, devido às temperaturas que ainda se fazem sentir. O comandante deixou alguns pedidos em jeito de conselhos: “neste período, pelo menos mais 4 ou 5 dias de temperaturas muito acima da média para aquilo que é época, nós continuamos a ter na sub-região quase todos os nossos municípios no nível máximo de risco de perigo de incêndio. Portanto, pedia que as pessoas, efetivamente, aguardassem mais um pouco. Eu sei que há queimas que têm que ser feitas, eu sei que estamos a falar de começar as podas, começar este trabalho da azeitona e de serem depois feitas queimadas… se houver destroçadores, por favor, que o façam com o destroçador, se for queimas, deixem o risco de incêndio baixar para o seu nível reduzido, e então façam as queimas. Mas, acima de tudo, façam o registo, não façam queimas sem informar”.

David Lobato, comandante Sub-Regional do Médio Tejo
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