Dois meses depois da passagem da tempestade Kristin, o presidente da Câmara de Tomar faz um balanço “globalmente positivo” da resposta, mas alerta para milhões de euros em prejuízos, apoios por analisar e problemas em telecomunicações e infraestruturas.
“Dois meses depois da tempestade Kristin, o balanço é globalmente positivo, embora ainda haja trabalho pela frente. Numa primeira fase, entre o final de janeiro e meados de fevereiro, conseguimos dar resposta a todas as situações de emergência identificadas”, afirmou à Lusa o presidente do município de Tomar, Tiago Carrão.
Nessa altura, lembrou, foi criada uma unidade local de missão em articulação com bombeiros e proteção civil e foi implementado o regulamento “Recuperar Tomar”, pioneiro no país, destinado a apoiar diretamente os munícipes afetados.
O concelho de Tomar, no distrito de Santarém, registou cerca de 2.000 ocorrências causadas pela tempestade Kristin, em 28 de janeiro, atingindo principalmente habitações, infraestruturas e equipamentos municipais, bem como empresas industriais.
Entre os prejuízos estimados, a autarquia contabilizou sete milhões de euros em infraestruturas e equipamentos, cinco milhões em habitações e cerca de 3,8 milhões na indústria, perfazendo um total de aproximadamente 17 milhões de euros.
Segundo o presidente da Câmara de Tomar, a reposição de energia elétrica já abrange a maior parte do concelho, mas persistem dificuldades nas telecomunicações, condicionamentos em vias e atrasos em infraestruturas essenciais.
“Ainda há algumas situações pontuais que continuam críticas para as pessoas afetadas, sobretudo no acesso à Internet e serviços básicos”, sublinhou Tiago Carrão.
Em relação aos apoios, o município criou o programa “Recuperar Tomar” e articulou medidas com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) Centro e o Governo.
Das 940 candidaturas submetidas para recuperação de habitações próprias permanentes, 183 já foram analisadas e submetidas para aprovação, enquanto 157 estão em análise e cerca de 600 estão por avaliar.
“Temos plena consciência de que este é um processo complexo e exigente. Estamos a afetar técnicos suficientes para assegurar uma análise justa e cuidada de cada candidatura”, explicou o autarca.
Além do apoio financeiro, a resposta social foi reforçada com acompanhamento direto no terreno, apoio psicológico e encaminhamento para soluções de alojamento, em especial para idosos e pessoas com necessidades permanentes.
A participação da comunidade foi “igualmente decisiva”, acrescentou Tiago Carrão, com redes de vizinhança, voluntários, empresas locais e associações, como a Just a Change e a Tomar Iniciativas, a contribuir para a reconstrução de habitações e apoio à população.
“O sucesso desta resposta deveu-se, acima de tudo, ao contributo de todos os que ajudaram a resolver as centenas de situações e pedidos que surgiram durante este processo. Um dos maiores sucessos foi o papel determinante das juntas de freguesia, cuja proximidade e capacidade de intervenção rápida se revelou essencial”, destacou o autarca.
Sobre a preparação para a ocorrência de fenómenos extremos no futuro, Tiago Carrão alertou que, embora haja maior sensibilização e coordenação, o território não está ainda totalmente preparado.
“É fundamental reforçar a prevenção, a adaptação e a coordenação institucional, tornando Tomar mais resiliente face a fenómenos extremos cada vez mais frequentes e exigentes”, defendeu.
A previsão da Câmara é que a reconstrução completa das infraestruturas fundamentais possa levar cerca de dois anos, dada a dimensão dos danos e a complexidade das intervenções necessárias.
Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que fizeram também várias centenas de feridos, desalojados e deslocados. Mais de metade das mortes foram registadas em trabalhos de recuperação.
Os temporais, que atingiram o território continental durante cerca de três semanas, provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com prejuízos de milhares de milhões de euros.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afetadas.
Lusa