Foram sete dias sem grandes espaços para o telemóvel, com regras e horários para cumprir, atividade física, noites mal dormidas, palestras, exercícios no terreno e muitos problemas para resolver. Mas, sobretudo, foram sete dias em que 28 jovens, provenientes de diferentes pontos do país, tiveram de aprender a confiar uns nos outros e a trabalhar como uma equipa.
Foi assim a 16.ª edição do Curso de Liderança do Rotary Club de Abrantes, desenvolvido em parceria com o Regimento de Apoio Militar de Emergência (RAME), entre 1 e 7 de setembro, no Quartel de São Lourenço, em Abrantes.
Mais do que ensinar conceitos sobre liderança, o objetivo passou por colocar os participantes perante situações em que tivessem efetivamente de liderar, tomar decisões, comunicar e encontrar soluções em conjunto.
O capitão Nuno Barreira, diretor do curso pelo RAME, explicou à Antena Livre que o primeiro desafio foi precisamente transformar 28 desconhecidos num grupo.
“Eles vêm de diversos pontos do país. Numa primeira fase procuramos que se conheçam, que estabeleçam uma ligação entre eles. Após isso, vamos criando dinâmicas de grupo no sentido de expor cada um deles a situações de liderança”, explicou.
E as dificuldades foram sendo introduzidas de propósito. “Vão ser postos à prova, vão passar por diversas dificuldades. Vamos criar nós também algumas dificuldades para que sintam na pele o que é ser um líder”, acrescentou.
Do túnel à jangada, liderança testada no terreno
A semana combinou palestras e formação com uma forte componente prática. Os jovens tiveram contacto com princípios de liderança, comunicação, vida militar e suporte básico de vida, mas foi no terreno que muitos desses conhecimentos tiveram de ser transformados em decisões.
Entre os desafios esteve uma prova num túnel, na qual tinham de transportar pequenas quantidades de água até conseguirem encher recipientes, e a construção de um abrigo utilizando troncos e outros materiais disponíveis no local.
Houve orientação pelo quartel e zona envolvente, transporte de um “ferido” numa pista de obstáculos, provas físicas, transporte de companheiros e de cargas e exercícios de tomada de decisão.
Num dos desafios, denominado “bunker”, os participantes tinham de escolher apenas cinco pessoas, entre várias com características diferentes, obrigando-os a avaliar quais as capacidades mais importantes para a sobrevivência e funcionamento de um grupo.
Um dos exercícios que melhor simbolizou o espírito do curso aconteceu na piscina. Divididos inicialmente em grupos, os jovens tinham de construir uma jangada e atravessar a piscina. Mas os materiais disponíveis obrigavam as duas equipas a colaborar.
A solução passava, portanto, por deixar a competição de lado e trabalhar para um objetivo comum.
“Quando uma estratégia falha, há apenas duas opções: desistir ou continuarmos juntos. Nós nunca desistimos. Escolhemos sempre continuar juntos”, resumiram os formandos Leonor Andrade e Alexandre Crispim na cerimónia de encerramento.
Para os jovens, ficou uma das principais conclusões da semana: “Liderança não é só estar à frente dos outros, é conseguir levar os outros.”
Regras, disciplina e menos telemóvel
A experiência incluiu também algumas regras próprias da organização militar. Cumprimento rigoroso de horários, atividade física e disciplina fizeram parte do quotidiano dos participantes.
Capitão Nuno Barreira, diretor curso pelo RAME (primeiro a contar da direita)
E houve ainda uma tentativa deliberada de os afastar dos telemóveis.
Nuno Barreira explica que a ideia era recuperar algo tão simples quanto a comunicação presencial.
“Sem o telemóvel, eles realmente comunicam muito mais uns com os outros. São obrigados a comunicar e isso também os faz aproximar”, referiu.
Para o responsável, o resultado foi visível: “Vimos pessoas diferentes, pessoas que não se conheciam, a chegar cá e hoje vemos um grupo coeso, que está pronto a abraçar os mais diversos desafios.”
“As expectativas foram totalmente superadas”
É precisamente essa transformação que Leonor Andrade, uma das 28 participantes, leva de Abrantes.
Natural de Aveiro, chegou ao RAME sem conhecer qualquer outro formando e com algumas expectativas sobre aquilo que iria encontrar. No final, admitiu à Antena Livre que a realidade foi bastante mais intensa.
“As expectativas que eu tinha foram totalmente superadas”, afirmou.
Leonor destacou que o curso foi muito além da liderança. Houve dias preenchidos por formação desde a manhã até à noite, incluindo aprendizagem de suporte básico de vida, que considera uma competência particularmente importante.
Mas foi o companheirismo que mais a marcou.
“Vim para aqui sem conhecer ninguém, sem saber o que me esperava nem as pessoas que estariam comigo. Mas desde o primeiro dia houve uma conexão que é difícil de explicar. Somos extremamente unidos”, contou.
Quando alguns participantes tiveram problemas físicos, acrescentou, “toda a gente estava preocupada” e disponível para ajudar.
“Fiz aqui amizades que provavelmente vão durar muito mais tempo do que outras que já têm anos. Estas foram feitas em sete dias”, afirmou.
Uma semana para mudar a resposta à pergunta “o que é ser líder?”
O presidente do Rotary Club de Abrantes, André Real, encontrou uma forma de avaliar simbolicamente o efeito da experiência.
No primeiro dia perguntou aos participantes: “O que é, afinal, ser líder?”. Pediu-lhes que escrevessem coletivamente uma resposta. Sete dias depois, repetiu exatamente a mesma pergunta.
Se inicialmente os jovens já associavam liderança à capacidade de ouvir, decidir, motivar e ser resiliente, no final acrescentaram conceitos como conhecer as capacidades dos elementos da equipa, delegar, admitir erros, proteger os outros, dar espaço às suas opiniões e ter coragem para tomar decisões difíceis.
André Real, presidente Rotary Clube de Abrantes
Para André Real, a diferença entre as duas respostas mostrou o caminho percorrido.
“O verdadeiro impacto deste curso não se mede pelo que aconteceu nestes sete dias, mede-se pelo que vocês fizerem com ele a partir de amanhã”, afirmou.
Uma experiência que pode ajudar a decidir o futuro
No caso de Leonor Andrade, o curso reforçou uma decisão que já estava tomada. A jovem pretende seguir a carreira militar e admite que a semana passada no RAME aumentou ainda mais essa vontade.
“Estou muito mais motivada. Se pudesse, ficava já aqui”, confessou à Antena Livre.
Leonor Andrade, formanda
Além dos valores e da experiência de liderança, levou consigo alguns conhecimentos básicos da vida militar, desde procedimentos e formação até às saudações.
A 16.ª edição terminou a 7 de setembro, mas, para os organizadores, é precisamente depois do curso que começa a parte mais importante: perceber de que forma os 28 jovens vão aplicar na escola, no trabalho e na sociedade os princípios de liderança, responsabilidade, resiliência e espírito de equipa que foram chamados a experimentar em Abrantes.
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