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Mação: Ortiga homenageou Ti Fontes, o último construtor dos «picaretos» do Tejo (c/áudio)

30/06/2026 às 10:37

A memória de Manuel Pires Fontes, conhecido por todos como Ti Fontes, o último construtor dos tradicionais barcos "picaretos" do rio Tejo, foi homenageada esta sexta-feira, dia 26 de junho, na Ortiga, numa cerimónia promovida pelo Município de Mação que incluiu o lançamento do Caderno Cultural n.º 71 da Confraria Ibérica do Tejo, intitulado “O Construtor de Barcos Picaretos”.

A iniciativa reuniu familiares, autarcas, investigadores, representantes da Confraria Ibérica do Tejo e muitos habitantes da freguesia, num momento marcado pela emoção e pelo reconhecimento de uma figura que dedicou a vida à construção das embarcações tradicionais que durante décadas serviram as comunidades ribeirinhas do Tejo.

Na abertura da sessão, o diretor do Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo, Luiz Oosterbeek, destacou a importância de homenagear personalidades que ajudaram a construir a identidade cultural do país.

"Há quem pense que a construção cultural de um país é feita apenas por quem tem um diploma. Não é. Também é feita por aqueles que, com o seu trabalho, constroem o país", afirmou, agradecendo ao Município de Mação por continuar a promover homenagens a figuras marcantes do concelho. Aproveitou ainda para lançar um desafio à população da Ortiga, incentivando-a a utilizar regularmente o espaço museológico como um local de encontro da comunidade.

"Construiu muito mais do que barcos"

O presidente da Câmara Municipal de Mação, José Fernando Martins, considerou que Ti Fontes "deixou uma marca na comunidade ortiguense e na história do concelho", recordando o seu profundo amor pela terra, pelo Tejo e pelo ofício que exerceu durante toda a vida.

 

Na intervenção, o autarca explicou que a homenagem nasceu de uma reunião realizada há alguns meses com a Confraria Ibérica do Tejo, durante a preparação do Cruzeiro Ibérico do Tejo, altura em que surgiu a ideia de realizar uma exposição dedicada ao rio e de eternizar a memória de Ti Fontes através de uma publicação.

José Fernando Martins leu ainda o prefácio que escreveu para o livro, onde descreve o homenageado como "um homem que se confunde com a própria identidade da Ortiga".

"Construiu mais de três centenas de barcos, mas construiu muito mais do que isso. Construiu identidade, património e história", afirmou, acrescentando que cada embarcação saída das mãos de Ti Fontes transportava "técnica, mestria, dedicação e humanidade".

 

O presidente da Câmara defendeu que recordar homens como Ti Fontes é "um ato de resistência cultural", sublinhando a importância de preservar os saberes tradicionais ligados ao Tejo para as gerações futuras.

Emoção da família

Num dos momentos mais emotivos da cerimónia, Cidalina Fontes, filha do homenageado, agradeceu à Confraria Ibérica do Tejo, ao Município de Mação e a todos os presentes pela homenagem prestada ao pai.

"Quero agradecer ao senhor João Serrano por ter feito este livro, à Câmara Municipal de Mação e a todos vós pela vossa presença. Muito obrigada de coração", afirmou, visivelmente emocionada.

Preservar as memórias das comunidades

João Serrano, da Confraria Ibérica do Tejo, explicou que este é o 71.º Caderno Cultural editado pela instituição e integra um projeto iniciado há onze anos que pretende preservar a memória de pessoas anónimas cujo trabalho ajudou a construir a identidade das comunidades ribeirinhas.

Segundo o investigador, existem já cerca de três dezenas de novos títulos em preparação, todos dedicados a homens e mulheres que marcaram a história local.

"O objetivo é trazer às comunidades as memórias e as vivências daqueles que, pelo seu trabalho, dedicação e honestidade, construíram aquilo que hoje somos", referiu.

 

Sobre o livro dedicado a Ti Fontes, explicou que foi construído a partir de várias entrevistas realizadas ao antigo mestre calafate e enriquecido com fotografias do álbum de família, cedidas por Cidalina Fontes.

Uma referência da cultura ribeirinha

Também João Filipe, natural da Ortiga, recordou Ti Fontes como um verdadeiro mestre da construção naval tradicional e lembrou a sua participação, em 2014, numa sessão da Sociedade de Geografia de Lisboa dedicada à memória dos fragateiros, onde partilhou conhecimentos técnicos sobre os barcos picaretos perante especialistas da área.

 

Na cerimónia participou igualmente o almirante José Bastos Saldanha, profundo conhecedor da cultura do Tejo, enquanto Luiz Oosterbeek encerrou a sessão defendendo que a preservação da identidade do Vale do Tejo depende do envolvimento das populações e da valorização das suas memórias.

O investigador considerou que figuras como Ti Fontes representam a resistência de uma cultura profundamente ligada ao rio e defendeu que apenas uma mobilização coletiva poderá garantir o reconhecimento e a proteção deste património.

  

A homenagem terminou com o lançamento oficial do livro O Construtor de Barcos Picaretos, uma obra que perpetua a memória do último mestre construtor destas embarcações tradicionais e que constitui um importante contributo para a preservação da história e da identidade ribeirinha da Ortiga e do Vale do Tejo.

 

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