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Vida: Relatório da ONU declara início da «era da falência global da água»

20/01/2026 às 19:14
Imagem de Arek Socha por Pixabay

Um relatório das Nações Unidas declarou hoje o início de uma “era de falência global da água”, pedindo aos líderes mundiais “honestidade, coragem e vontade política” para definir uma nova agenda adequada à realidade.

O relatório “Falência Hídrica Global: Viver para Além dos Nossos Meios Hidrológicos na Era Pós-Crise” defende que os termos “stress hídrico” e “crise hídrica” já não refletem a realidade atual em muitos locais, onde “danos irreversíveis levaram bacias hidrográficas a um ponto de não recuperação”.

Segundo um comunicado da ONU de divulgação do relatório, o documento defende que seja reconhecida formalmente a “falência hídrica global” e apela à redefinição de uma nova agenda global da água.

“Este relatório revela uma verdade incómoda: muitas regiões estão a viver para além dos seus meios hidrológicos e muitos sistemas hídricos críticos já estão falidos”, afirma o autor principal, Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), citado no comunicado.

“Muitas sociedades não só ultrapassaram os limites do seu ‘rendimento’ anual de água renovável proveniente de rios, solos e neve, como também esgotaram as ‘reservas’ de longo prazo em aquíferos, glaciares, zonas húmidas e outros reservatórios naturais”, refere o estudo, divulgado antes de uma reunião de alto nível no início da próxima semana em Dakar, no Senegal, para preparar a Conferência da ONU sobre a Água de 2026, marcada para dezembro.

Madani admite que nem todas as bacias hidrográficas e países estão em situação de falência hídrica, mas considera que “o cenário de risco global está fundamentalmente alterado” porque foram ultrapassados limites em “sistemas críticos suficientes em todo o mundo” e estes “estão interligados através do comércio, da migração, dos efeitos climáticos e das dependências geopolíticas”.

O estudo apresenta dados estatísticos que mostram uma crise em progresso, causada sobretudo pela ação humana.

As águas superficiais e os pântanos estão a diminuir em grande escala, sendo que mais de metade dos grandes lagos do mundo perderam água desde o início da década de 1990 e nas últimas cinco décadas perderam-se “aproximadamente 410 milhões de hectares de zonas húmidas naturais, quase a área terrestre da União Europeia”.

Cerca de 70% dos principais aquíferos do mundo mostram um declínio a longo prazo e desde 1970 perdeu-se mais de 30% da massa glaciar, "continuando a diminuir a porção de água segura para consumo, rega e ecossistemas”.

O relatório calcula em mil milhões o número de pessoas que vivem com insegurança hídrica crónica, enquanto quase 4.000 milhões enfrentam grave escassez de água durante pelo menos um mês por ano e “quase três quartos da população mundial vive em países classificados como inseguros ou criticamente inseguros em termos de água”.

Kaveh Madani assinala que as fontes de água estão “cada vez mais pequenas, poluídas ou a desaparecer” ao mesmo tempo que “milhões de agricultores tentam produzir mais alimentos”, acrescentando que “sem uma rápida transição para uma agricultura inteligente em relação à água, a falência hídrica irá alastrar rapidamente”.

Segundo o relatório, cerca de 3.000 milhões de pessoas e mais de metade da produção global de alimentos estão concentradas em áreas onde o armazenamento total de água já está a diminuir ou é instável.

Neste contexto, “os governos precisam urgentemente de mudar da gestão de crises para a gestão de falências” e utilizar estratégias para evitar mais danos irreversíveis, bem como “transformar os setores que consomem muita água, incluindo a agricultura e a indústria, através de alterações nas culturas, reformas na irrigação e sistemas urbanos mais eficientes”.

Considerando que esta é uma questão que transcende as fronteiras políticas tradicionais, Madani defende que a água pode servir de ponte no mundo fragmentado em que vivemos “para criar confiança e unidade entre e dentro dos países” e ajudar a acelerar a cooperação entre os Estados-Membros da ONU.

O relatório sustenta que investir na água é também investir na mitigação das alterações climáticas, da perda de biodiversidade e da desertificação, sublinhando que a sua escassez não é apenas um problema hidrológico.

Trata-se de “uma questão de justiça com profundas implicações sociais e políticas que exigem atenção aos mais altos níveis de governo e cooperação multilateral”.

Assinalando que "os encargos recaem desproporcionalmente sobre os pequenos agricultores, os povos indígenas, os residentes urbanos com baixos rendimentos, as mulheres e os jovens”, o documento aponta que “a forma como as sociedades lidam com a falência hídrica vai moldar a coesão social, a estabilidade política e a paz”.

O subsecretário-geral da ONU e reitor da UNU, Tshilidzi Marwala, afirma, também citado no comunicado, que “a escassez de água está a tornar-se um fator de fragilidade, de deslocação e de conflito”, considerando que “geri-la de forma justa – garantindo que as comunidades vulneráveis são protegidas e que as perdas inevitáveis são partilhadas equitativamente – é fundamental para manter a paz, a estabilidade e a coesão social”.

Segundo Madani, “o relatório não é uma declaração de desespero”, apesar dos alertas, sendo sim “um apelo à honestidade, ao realismo e à transformação”.

“Declarar falência não significa desistir – significa recomeçar. Ao reconhecermos a realidade da falência hídrica, podemos finalmente tomar as decisões difíceis que protegerão as pessoas, as economias e os ecossistemas. Quanto mais adiarmos, maior será o défice”, acrescenta.

Lusa

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