O Exército português testou hoje, pela primeira vez e "com sucesso", um drone de ataque e anunciou a criação de unidades especializadas em drones e sistemas antidrone, com reforço de formação e recrutamento numa aposta no combate moderno.
“Estamos a preparar o futuro [...] fizemos os testes dos ‘drones de ataque’, com sucesso, e é uma capacidade em que o Exército está a investir. ” Uma frase do Estado-Maior do Exército (CEME), general Eduardo Mendes Ferrão, feita no Campo Militar de Santa Margarida, Constância, e que aponta ao futuro.
Este anúncio foi feito num dia que ficara na história do Exército português. Foi testado, pela primeira vez e em exercício de fogo real, um drone de ataque, que internacionalmente tem o nome de ‘loitering munition’. O exercício multinacional de artilharia aconteceu em Santa Margarida e contou com a presença de militares artilheiros de Portugal, França e Espanha.
Tratou-se de um exercício que permitiu juntar as várias aras de artilharia, pesada, de campanha e leve e ainda as novas armas, como o uso de drones. Numa explicação simplista, quando uma peça de artilharia dispara um obus está disparado. Quando é ‘disparado um drone’, há um operador que o conduz, que permite ajustar ou alvo, ou até mudar de alvo.
Eduardo Mendes Ferrão disse que o exército está a “adquirir o que já existe no mercado, mas também desenvolver sistemas totalmente feitos em Portugal, com a indústria e tecnologia nacionais”, mas sublinhou a aposta na inovação e na autonomia tecnológica.
De notar que os drones já existem nas Forças Armadas e no Exército, mas mais na área da vigilância e de planeamento. Hoje foi testado o Hero 30, também conhecido por drone suicida, de fabrico israelita e com alcance de 15 km. Os Raven, americanos, ou os AR3, da portuguesa Takever, já integram os equipamentos militares, mas como referido para ações de vigilância.
O teste do Hero 30 decorreu no âmbito do exercício Strong Impact 2026, o maior treino anual de artilharia, que juntou 417 militares, incluindo de Espanha e França, e incluiu uma sessão de fogos reais com integração de sistemas não tripulados.


Ponto de lançamento do primeiro 'drone suicida' do Exército português
“Aquilo que vemos nos conflitos atuais, mostra que os fogos continuam relevantes, mas têm de ser modernizados”, disse Mendes Ferrão, apontando para uma transformação mais ampla da artilharia e dos sistemas de combate.
Segundo o general, esta modernização inclui também a aquisição de novos obuses, mísseis antiaéreos e sistemas de comando e controlo, bem como o desenvolvimento de capacidades anti drone, cujas primeiras entregas são esperadas a partir do próximo ano.
General Eduardo Mendes Ferrão, CEME

“Hoje, numa guerra digitalizada, precisamos de sistemas de comando e controlo que permitam trabalhar de forma integrada com as outras armas e com os nossos aliados”, afirmou.
Além da componente tecnológica, o chefe do Exército destacou como principal desafio a formação de militares, alertando para a necessidade de adaptação rápida às novas exigências operacionais.
General Eduardo Mendes Ferrão, CEME

“O grande desafio são as pessoas, pela necessidade de garantir não apenas quantidade, mas sobretudo qualidade operacional, por isso estamos a apostar fortemente na formação e no treino adaptados às novas capacidades. Ao mesmo tempo, temos de mudar rapidamente processos, doutrinas e procedimentos para integrar estes sistemas e operá-los com eficácia”, disse o general.
O Exército já dispõe de uma unidade dedicada a sistemas aéreos não tripulados, mas prevê agora expandir o uso de drones a diferentes escalões, desde micro drones para unidades no terreno até sistemas mais complexos operados por equipas especializadas. Ou seja, haverá uma unidade especializada nos drones de maior dimensão, já considerados quase como aviões, e deverá acontecer uma generalização do uso de drones de pequena dimensão por todas as unidades do exército.
General Eduardo Mendes Ferrão, CEME

O exercício incluiu ainda o uso de drones de vigilância desenvolvidos por empresas portuguesas, no âmbito de parcerias com a indústria nacional para o desenvolvimento de novas capacidades militares.
Num contexto internacional marcado por conflitos, o Chefe de Estado Maior do Exército afirmou que a integração de drones, sistemas anti drone e novas plataformas de artilharia é “essencial para garantir a prontidão operacional e a interoperabilidade com aliados” da NATO.
O diretor do exercício 'Strong Impact', coronel Nelson Rego, destacou o caráter pioneiro da iniciativa.
“Somos um dos primeiros países da NATO a adquirir drones de ataque e hoje foi a primeira vez que testámos este sistema, o que nos dá uma vantagem competitiva”, afirmou.
Segundo o oficial, estes sistemas representam “uma alteração drástica” nos procedimentos e doutrina, permitindo ao comandante acompanhar e decidir sobre o alvo até ao último momento.
Coronel Nelson Rego

C/Lusa
Vídeo publicado pelo Exército português nas redes sociais
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