Depois da passagem da tempestade Kristin e do balanço daquilo que foi o socorro às populações, o comandante Sub-regional do Médio Tejo da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, David Lobato, alertou para a necessidade urgente de reforçar recursos humanos e infraestruturas.
"Se não fizermos os investimentos necessários no nível da proteção civil, nos seus recursos humanos e em equipamentos, vamos continuar a ter dificuldades em acudir à população, porque sem pessoas não conseguimos trabalhar", afirmou o comandante, sublinhando que o socorro nas aldeias isoladas de Mação ou Ourém tem de ser "igual ao que a população tem na cidade de Lisboa".
Num balanço feito sobre o período 28 de janeiro a 20 de fevereiro, em que a sub-região ativou o Plano Especial de Cheias da Bacia do Tejo, que chegou a nível vermelho a 5 de fevereiro, e em que esta mesma sub-região enfrentou a passagem da Tempestade Kristin, a situação considerada anómala exigiu a mobilização de 10.274 operacionais e 3.618 veículos.
A severidade com que a tempestade Kristin afetou o norte da sub-região veio confirmar a necessidade de acelerar a aquisição de equipamentos já identificados como prioritários, nomeadamente sistemas de comunicação por satélite (Starlink), para fazer face a uma quebra de todas as comunicações. Por outro lado, a aquisição de tendas logísticas, cruciais num cenário de muitas casas destelhadas ou necessidade de acolhimento temporário de pessoas.
O concelho de Ourém foi o mais atingido, de acordo com a Proteção Civil, com 62 desalojados, seguido por Tomar e Ferreira do Zêzere, que estão entre os municípios com maior número de ocorrências e danos estruturais.
Em números avançados por David Lobato, para responder às diversas situações de emergência, no que diz respeito a danos em habitações e edifícios públicos, o comando sub-regional disponibilizou 17.600 metros de lonas impermeáveis e 7.200 telhas. Os concelhos de Ourém (5.250 metros de lona), Ferreira do Zêzere (3.325 metros) e Tomar (2.400 telhas) foram os pontos que concentraram o maior esforço de reconstrução imediata.
Em declarações aos jornalistas, David Lobato estabeleceu um paralelo com o combate aos fogos rurais para explicar a complexidade da operação.
"Estamos sempre acostumados, infelizmente, aos incêndios, mas isto não foi um incêndio. O incêndio passa, as comunicações e a eletricidade continuam. Aqui não foi assim. As pessoas ficaram sem casas e as árvores obstruíram totalmente os caminhos", lembrou, elogiando o facto de, em 48 horas, as vias principais terem sido desimpedidas para permitir a passagem do socorro.
Quanto à tipologia de ocorrências, na resposta às cheias e à tempestade, os operacionais foram para o terreno para ações de resgate aquático de pessoas e animais até à estabilização de taludes e movimentos de massa.
A operação, este ano, contou também com a vigilância aérea da Bacia do Tejo e o apoio de um pelotão de fuzileiros com botes e drones.
David Lobato foi claro quando disse que aconteceu este ano é um “novo normal” face às alterações climáticas e a eficácia futura dependerá de uma aposta contínua em tecnologia e no reforço de recursos humanos, nomeadamente dos serviços municipais para não dependerem apenas de um único coordenador.
"Para prevenir, tem de se ter pessoas no terreno a fazer sensibilização. Não pode ser apenas uma pessoa a coordenar territórios desertificados e aldeias dispersas num período de tempo tão alargado”, defendeu.
David Lobato, comandante sub-regional Médio Tejo ANEPC

Passado o tempo da emergência e do socorro e apoio às populações, é tempo de balanços, mas para esta sub-região do Médio Tejo é tempo de pensar no verão e no problema dos incêndios. É que uma parte da floresta ficou com milhares de caminhos florestais completamente obstruídos pelas árvores que foram tombadas ou partidas pelos ventos da Kristin.
De acordo com os responsáveis da Proteção Civil de Ourém são mais de 100 km de estradões que é preciso desimpedir, já em Ferreira do Zêzere aponta-se a outros tantos. Juntam-se ainda outros concelhos menos afetados, mas que têm esse problema muito presente.
David Lobato nem fala na matéria que existe no meio da floresta, fala apenas na desobstrução de caminhos de acesso às matas.
O Instituto de Conservação da Natureza e da Floresta (ICNF) está a começar a preparar-se para um período duro na desobstrução de caminhos e rotas florestais, mas há responsáveis da Proteção Civil destes concelhos mais afetados dizem que se não forem para o terreno as máquinas processadoras de madeira, que fazem o corte, limpeza e preparação dos troncos, tudo será mais difícil. É que a quantidade de árvores que está no chão podem “chover operadores de moto-serras”.
E também as autarquias e responsáveis da Proteção Civil começam a ficar com preocupações sérias sobre os meses mais quentes do ano.
David Lobato, comandante sub-regional Médio Tejo ANEPC

David Lobato, comandante, João Pitacas, 2.º Comandante, Proteção Civil Médio Tejo
David Lobato destacou, pela positiva, os concelhos de Mação e Sardoal, com as faixas de gestão de combustível, que evitaram muitos cortes nas estradas dos dois concelhos. E depois, sobre Sardoal, que tem muitos Condomínios de Aldeia, que evitaram a queda de árvores (pinheiros, sobretudo) para as casas.