O projeto de António Ventura e Duarte Belo percorre os municípios da região e desafia o público a olhar de forma diferente para o território que habita.
A exposição "Na Paisagem do Médio Tejo – A Fotografia como Mediação Cultural", patente no Centro Cultural Elvino Pereira, em Mação, até 31 de agosto, é muito mais do que uma mostra de fotografias. Trata-se de um projeto de itinerância e de mediação cultural que pretende levar os habitantes da região a refletirem sobre o território onde vivem, utilizando a fotografia como instrumento de conhecimento, identidade e cidadania.
Promovida pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e desenvolvida pela associação Paisagem Adjacente, a iniciativa reúne os trabalhos dos fotógrafos António Ventura e Duarte Belo, dois autores com percursos distintos, mas unidos pelo objetivo de despertar um novo olhar sobre a paisagem.
Para António Ventura, professor de fotografia e um dos coordenadores do projeto, o conceito de paisagem vai muito além da ideia de uma imagem bonita.
"A paisagem não é um postal ilustrado. É uma forma de olhar para o território que incorpora aquilo que somos, aquilo que fazemos e a forma como utilizamos esse território."
Segundo o fotógrafo, o quotidiano faz com que muitas vezes as pessoas deixem de reparar nas mudanças que acontecem à sua volta.
"Passamos todos os dias pelos mesmos lugares e deixamos de ter consciência da forma como estamos a construir as nossas paisagens. A fotografia ajuda precisamente a trazer essas questões para a discussão pública."
Fotografia para provocar reflexão

António Ventura explica que a exposição pretende contrariar a ideia de que a paisagem é apenas aquilo que é belo.
"A paisagem nem sempre é necessariamente bela. Muitas vezes somos nós próprios os responsáveis por ela não ser tão bela como poderia ser."
Para o autor, a paisagem é um conceito cultural, moldado pela história, pela economia, pelas opções urbanísticas e pela relação das comunidades com o espaço onde vivem.
Foi precisamente essa leitura que procurou desenvolver através da fotografia.
Enquanto Duarte Belo ficou responsável pelas vilas e cidades do Médio Tejo, António Ventura decidiu fotografar o território entre esses núcleos urbanos.
A solução surgiu ao olhar para o mapa ferroviário da região.
"Percebi que o Médio Tejo é atravessado por linhas ferroviárias em diferentes direções. Sentei-me no comboio e fotografei aquilo que ia vendo pela janela."
O percurso incluiu a Linha da Beira Baixa, a Linha do Norte e o Ramal de Tomar, transformando o comboio num verdadeiro observatório da paisagem.
As imagens captadas ao longo dessas viagens foram depois organizadas pela curadora Giulia Biccario, procurando recriar a sensação cinematográfica de quem atravessa o território de comboio.
"O próprio comboio faz parte da fotografia", explica António Ventura, referindo os reflexos, a velocidade e o movimento que ficaram registados nas imagens.
O olhar sobre as cidades do quotidiano

Se António Ventura fotografou o território em movimento, Duarte Belo decidiu centrar-se nos espaços onde vive a maioria da população.
O arquiteto e fotógrafo, autor de um arquivo com cerca de 2,5 milhões de fotografias de Portugal, na maioria, procurou fugir da abordagem mais habitual.
"Não quis fotografar apenas o património monumental ou turístico. O que procurei foi mostrar o espaço urbano onde as pessoas vivem todos os dias."
Ruas, praças, edifícios comuns e espaços do quotidiano ocupam lugar central na exposição.
Segundo Duarte Belo, esse é precisamente o desafio lançado aos visitantes.
"Gostava que as pessoas olhassem para as cidades e vilas onde vivem de uma forma diferente e desenvolvessem um olhar mais crítico sobre a qualidade do espaço urbano."
Apesar de reconhecer que cada povoação possui características próprias, sobretudo devido à geografia e à forma como cresceu, considera existir uma identidade comum ao território.
"Cada vila ou cidade tem a sua personalidade, mas existe uma identidade construída pelos materiais, pela história e pela forma como o território foi sendo ocupado."
Um arquivo construído ao longo de quatro décadas
Fotógrafo há mais de quarenta anos, Duarte Belo continua a regressar regularmente aos mesmos locais para documentar as transformações do território.
"Gosto de voltar aos sítios onde já fotografei e perceber o que mudou, se está melhor ou pior."
Embora reconheça que existe hoje uma maior preocupação com a recuperação do património e com a qualificação do espaço urbano, considera que ainda há um longo caminho a percorrer.
"Há mais consciência do que havia há algumas décadas. Mas continuamos, muitas vezes, a fazer mais mal do que bem."
A fotografia para lá do telemóvel
Durante a conversa com a Antena Livre, António Ventura abordou ainda a democratização da fotografia provocada pelos telemóveis.
Apesar de reconhecer que hoje praticamente todos fotografam, considera que isso não significa necessariamente fazer fotografia.
"A fotografia é um ato de escolha. Não basta apontar um telemóvel e carregar no botão."
O antigo professor da licenciatura em Fotografia do Instituto Politécnico de Tomar explica que uma boa fotografia resulta de decisões conscientes sobre enquadramento, luz, distância e composição.
"As câmaras fazem hoje imagens excelentes, mas muitas vezes aquilo que vemos na fotografia não corresponde ao sentimento que tivemos quando olhámos para aquele lugar."
Ainda assim, acredita que existe cada vez mais interesse em aprender.
Nesse sentido, o projeto integra visitas guiadas, oficinas de fotografia e ações de mediação cultural dirigidas a escolas, universidades seniores, fotógrafos amadores e profissionais..
Um projeto para percorrer o Médio Tejo

Depois de passar por Tomar e Torres Novas, a exposição chegou agora a Mação e continuará a circular por outros municípios da região.
Além da mostra, foi também editado um catálogo que está a ser distribuído por bibliotecas municipais, bibliotecas escolares e museus, prolongando o alcance do projeto.
Para António Ventura, trata-se de uma iniciativa inédita no Médio Tejo.
"É a primeira vez que se desenvolve um projeto desta dimensão em que a fotografia assume este papel de mediação cultural, ajudando as pessoas a compreender melhor o território onde vivem."
Mais do que mostrar fotografias, "Na Paisagem do Médio Tejo" procura despertar um olhar diferente sobre uma região que todos percorrem diariamente, mas que nem sempre observam com atenção. É um convite à descoberta da identidade do Médio Tejo através da fotografia e à reflexão sobre a forma como as comunidades moldam, preservam e transformam a paisagem que habitam.