A ceramista Sandra Magano Gaspar recebeu esta quarta-feira, em Abrantes, a distinção de Empreendedora 50+ da Região Centro 2026. O prémio reconhece o percurso da fundadora da Magano Ceramics, que, aos 53 anos, decidiu transformar várias décadas de ligação à cerâmica num projeto empresarial por conta própria.
A cerimónia decorreu no Tagusvalley – Parque de Ciência e Tecnologia e terminou com uma visita à oficina da ceramista, em Abrantes.
Promovida desde 2019 pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, a iniciativa distingue pessoas que iniciaram uma atividade empresarial depois dos 50 anos e que apresentam percursos considerados inspiradores.
A sétima edição envolveu 25 entidades parceiras, entre associações empresariais, comunidades intermunicipais, parques de ciência e tecnologia, Instituto do Emprego e Formação Profissional, Portugal Inovação Social e Turismo Centro de Portugal.

Em entrevista à Antena Livre, Sandra Magano Gaspar contou que decidiu concorrer depois de receber uma mensagem de uma amiga a chamar-lhe a atenção para a iniciativa.
Depois de apresentar a candidatura, foi contactada pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo para fornecer mais informações. Cerca de dois meses e meio mais tarde, recebeu a confirmação de que tinha sido escolhida.
«Não estava de todo à espera. Foi muito agradável e uma surpresa muito boa», afirmou.
A ceramista confessou que só durante a cerimónia ganhou consciência da dimensão regional da distinção.
«Hoje percebi que isto é algo grande, maior do que eu. Espero conseguir estar à altura do reconhecimento da minha carreira», disse.
Sandra Magano Gaspar, ceramista

Sandra Magano Gaspar tem cerca de 30 anos de trabalho ligado à cerâmica. Durante 12 anos, exerceu funções no Centro Social do Pessoal do Município de Abrantes, onde ensinou cerâmica a crianças em idade escolar.
Colaborou também com a Universidade da Terceira Idade de Abrantes e com o Centro de Recuperação e Integração de Abrantes.
Aos 53 anos, decidiu avançar com uma atividade profissional por conta própria, dedicada à produção artesanal de peças de cerâmica, olaria de roda e cerâmica figurativa.
Criou a marca Magano Ceramics e instalou em Abrantes uma oficina e espaço expositivo, onde também promove aulas e workshops. Participa ainda em feiras e exposições e desenvolve peças utilitárias e artísticas em colaboração com entidades locais.
Sandra Magano Gaspar considera que a distinção representa o culminar de um percurso construído com persistência.
«É o resultado de muito esforço, trabalho, resiliência e também de muitos momentos menos bons. Procuro transformar esses momentos numa catapulta, num degrau para encontrar algo melhor», declarou.
Questionada sobre o conselho que daria à mulher que começou este percurso há várias décadas, respondeu: «Acredita em ti, porque vale a pena».
«Se não acreditarmos nas nossas capacidades e naquilo que desejamos verdadeiramente, ninguém vai acreditar. Somos o nosso próprio motor», acrescentou.
A ceramista afirmou que o prémio não alterou o significado das peças existentes na oficina, mas mudou a forma como passou a olhar para o próprio percurso.
«As peças continuam a ser as mesmas. Eu é que me ressignifiquei e me valorizei», explicou.
Sandra Magano Gaspar considera que esse reconhecimento não representa egocentrismo, mas antes a consciência do trabalho realizado e da capacidade de cada pessoa fazer a diferença.
«Não temos de ser grandes artistas nem grandes empresários. Temos de ser fiéis a nós próprios. É muito bonito dizer isto, mas é muito difícil fazê-lo», reconheceu.
Sandra Magano Gaspar, ceramista

A vencedora espera ainda que o seu percurso demonstre que o empreendedorismo não está limitado aos grandes investimentos ou aos projetos tecnológicos.
«Também tinha essa ideia. Depois percebi que tenho uma carreira construída por mim, devagar, dia após dia, trabalho após trabalho e investimento após investimento. São investimentos pequenos, mas tem sido um percurso recompensador», afirmou.
Cinco mil euros para associações de Abrantes
O Prémio Empreendedor 50+ inclui a atribuição de cinco mil euros a duas instituições de natureza social ou cultural.
Por escolha de Sandra Magano Gaspar, o Grupo de Teatro Palha de Abrantes recebe quatro mil euros. O Orfeão de Abrantes, indicado pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, recebe mil euros.
A ceramista explicou que a escolha do grupo de teatro surgiu naturalmente, devido à sua ligação àquela arte.
«Tenho dois amores: a cerâmica e o teatro. Naturalmente, tinha de escolher o Grupo de Teatro Palha de Abrantes», afirmou.
Sandra Magano destacou o trabalho da associação, as dificuldades enfrentadas e o investimento recente numa deslocação a Moçambique.
«É uma associação que trabalha, que se empenha e que mostra o que faz. Merece isto e muito mais», salientou.
A ceramista sublinhou também o facto de os três projetos distinguidos serem liderados por mulheres: a Magano Ceramics, o Grupo de Teatro Palha de Abrantes e o Orfeão de Abrantes.
A presidente do Grupo de Teatro Palha de Abrantes, Maria Fonseca, considerou a distinção de Sandra Magano Gaspar «muito merecida», destacando um percurso feito de criatividade, dedicação e persistência.
«Tem sido um caminho nem sempre fácil, por vezes árduo, mas, passo a passo, tem conseguido», afirmou.
Maria Fonseca, presidente Grupo Teatro Palha de Abrantes


Maria Fonseca agradeceu também o reconhecimento atribuído ao grupo de teatro e ao trabalho desenvolvido nos últimos anos em Abrantes e fora do país.
A presidente do Orfeão de Abrantes, Elisabete Pereira, destacou a importância do movimento associativo na vida cultural e social do concelho e do Médio Tejo.
O apoio assume um significado particular numa altura em que o Orfeão se aproxima da celebração de 100 anos de existência.
Elisabete Pereira, presidente Orfeão de Abrantes


«Este prémio é o reflexo da dedicação, do talento e do compromisso de todos os que, ao longo dos anos, deram vida ao Orfeão de Abrantes», afirmou.
Empreendedorismo não tem idade
Na cerimónia, o presidente da Câmara de Abrantes e da CIM Médio Tejo, Manuel Jorge Valamatos, defendeu que seria um erro associar o empreendedorismo apenas às gerações mais jovens.
«Depois dos 50 há conhecimento, experiência, competências acumuladas e, muitas vezes, uma perceção mais clara daquilo que se quer fazer», afirmou.
Para o autarca, essa experiência representa um capital que os territórios devem aproveitar, criando condições para que as pessoas continuem a investir, arriscar e construir projetos numa fase mais madura da vida.
Manuel Jorge Valamatos, presidente CM Abrantes e CIM Médio Tejo

Valamatos destacou ainda o significado da distinção para Abrantes, por reconhecer um projeto com identidade própria, ligado à criatividade e ao saber-fazer local.
O vice-presidente da CCDR Centro, Licínio Carvalho, enquadrou a iniciativa na estratégia regional de promoção do envelhecimento ativo e de combate ao idadismo.
Segundo o responsável, as pessoas com 50 ou mais anos representam atualmente cerca de 45% da população residente em Portugal. Dentro de uma década, essa proporção deverá atingir os 50%.
«A longevidade não deve ser considerada apenas uma questão de despesa pública, mas um ativo económico e social estratégico», sustentou.
Licínio Carvalho, vice-presidente CCDR Centro

O Prémio Empreendedor 50+ pretende promover o espírito empresarial entre a população mais velha, reconhecer histórias de superação e sensibilizar para a necessidade de criar incentivos ao empreendedorismo sénior.
Licínio Carvalho, vice-presidente CCDR Centro

Licínio Carvalho considerou que o percurso de Sandra Magano Gaspar demonstra que «nunca é tarde para sonhar mais alto, reinventar caminhos e transformar uma paixão num projeto de vida».
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