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SANTARÉM: Projeto ambiental permitiu recuperar seis quilómetros de linhas de água em 26 intervenções

20/10/2026 às 21:20
DR: Águas de Santarém

Santarém reabilitou 26 troços de linhas de água, num total de 6.000 metros, abrangendo 70% das freguesias do concelho, através do projeto "Reabilitar Troço a Troço", iniciativa que a autarquia considera pioneira na recuperação dos ecossistemas ribeirinhos.

Em declarações à Lusa, a chefe da Divisão de Ambiente e Sustentabilidade da Câmara de Santarém, Maria João Cardoso, afirmou que o projeto, criado em 2010, colocou o concelho "na linha da frente das políticas públicas ambientais", antecipando exigências que só recentemente passaram a integrar a agenda europeia.

"Temos um projeto com 16 anos que já estava a implementar aquilo que hoje está traduzido no regulamento europeu do restauro da natureza", disse.

Segundo a responsável, ao longo de 16 anos, o município já recuperou 26 troços de linhas de água, correspondendo a cerca de 6.000 metros lineares, e implementou o projeto em mais de 70% das freguesias do concelho.

A mais recente ação decorreu na Ribeira do Mergulhão, uma linha de água urbana integrada na bacia hidrográfica da Ribeira das Fontainhas, sujeita a diversas pressões associadas à atividade humana.

Segundo Maria João Cardoso, o principal fator diferenciador da iniciativa é o envolvimento direto das populações na recuperação das linhas de água.

"O envolvimento das pessoas na reabilitação dos rios é a componente principal do projeto", sublinhou a responsável, defendendo que o objetivo passa não só pela recuperação física destes espaços, mas também por aproximar novamente as pessoas dos ecossistemas ribeirinhos.

"Nós queremos inverter o que se tem passado nas últimas décadas, que é afastar o ser humano das linhas de água", afirmou, considerando que muitas intervenções urbanísticas foram historicamente pensadas de costas voltadas para rios e ribeiras, contribuindo para a sua degradação e para o afastamento da população.

O projeto assenta na aplicação de técnicas de engenharia natural destinadas a combater a erosão e a estabilizar margens, recorrendo à plantação de árvores e arbustos autóctones, estacaria de salgueiro, entrançados vegetais e outras soluções baseadas na natureza.

Paralelamente, uma equipa multidisciplinar da autarquia monitoriza a evolução dos habitats e das espécies presentes antes e depois das intervenções.

"Os resultados são fantásticos", afirmou Maria João Cardoso, sustentando que o projeto tem conseguido cumprir a sua missão de conservar espécies e restaurar habitats degradados.

O projeto já recebeu reconhecimento nacional, através de um prémio da plataforma "ODSlocal", e foi também selecionado para uma "short list" dos prémios europeus da iniciativa New European Bauhaus.

Paralelamente às ações de reabilitação, a autarquia tem vindo a instalar painéis informativos designados "BioRhios", que identificam as espécies existentes em cada troço intervencionado e permitem aos visitantes aceder a informação adicional através de códigos QR.

Estes equipamentos integrarão futuramente a "Rota de Reabilitação de Rios", um projeto municipal destinado a divulgar a biodiversidade associada aos cursos de água do concelho.

Maria João Cardoso salientou ainda que algumas das espécies identificadas nos locais reabilitados possuem "estatutos de conservação relevantes", apontando como exemplos a boga-arqueada-de-Lisboa, espécie em perigo e o lagarto-de-água, considerado vulnerável.

Para a responsável, a conservação destas espécies e os resultados positivos do projeto demonstram que os municípios podem desempenhar um papel determinante na aplicação das estratégias ambientais europeias.

"As linhas de água não têm limites administrativos", afirmou, defendendo uma articulação entre políticas locais, nacionais e europeias para acelerar a recuperação dos ecossistemas degradados.

A próxima intervenção está prevista para 07 de novembro, na Ribeira da Belida, afluente da Ribeira de Cabanas, elevando para 27 o número de troços abrangidos pelo projeto até ao final do ano. 

Maria João Cardoso defendeu ainda um reforço das políticas de recuperação ecológica das linhas de água, considerando que a degradação dos habitats ocorre a um ritmo mais rápido do que a sua recuperação e que a proteção destes ecossistemas deve assumir-se como uma prioridade das estratégias de desenvolvimento sustentável.

"Temos de começar a colocar na agenda de prioridades um sentido de longo prazo", afirmou, sustentando que a preservação da biodiversidade e dos recursos hídricos constitui um bem comum essencial para a qualidade de vida das populações.

 

Lusa

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