A Associação Vidas Cruzadas é uma das 32 instituições vencedoras do Prémio BPI Fundação “la Caixa” Infância 2026. O apoio de 45.676 euros destina-se a um projeto de promoção da regulação emocional, das competências parentais e de um ambiente escolar mais positivo, envolvendo crianças, famílias e profissionais das escolas.
O projeto representa um investimento global de 60.889 euros, financiado em 75% pela Fundação “la Caixa”. Os restantes 25%, cerca de 15 mil euros, terão de ser assegurados pela associação e pelos parceiros envolvidos.
A intervenção decorrerá durante 12 meses e deverá abranger 134 participantes, entre crianças e jovens dos 9 aos 16 anos, pais, cuidadores, professores e técnicos escolares. O prémio foi entregue esta quinta-feira, 1 de outubro.
A Antena Livre falou com Vânia Grácio, presidente da Associação Vidas Cruzadas, sobre a distinção, os objetivos do novo projeto e a possibilidade de alargar a intervenção a outros concelhos do Médio Tejo.
Entrevista por Jerónimo Belo Jorge
Como recebeu a Associação Vidas Cruzadas a notícia da aprovação da candidatura?
Foi um momento muito gratificante. Já tínhamos apresentado uma candidatura a este prémio em 2024, para executar um projeto em 2025, e decidimos voltar a concorrer com um projeto diferente.
Estávamos com alguma expectativa, mas também com algum receio, porque já tínhamos recebido o Prémio Infância em 2024 e não sabíamos se poderíamos voltar a ser selecionados. Foi, por isso, com muito agrado que recebemos a informação de que, entre 170 instituições candidatas, ficámos entre as 32 aprovadas.
Qual é o valor do financiamento e durante quanto tempo será executado o projeto?
O Prémio Infância permite apresentar projetos com a duração de um ou dois anos. Submetemos uma candidatura para 12 meses, que será executada em 2026 e 2027.
A nossa candidatura apresenta um investimento de 60.889,77 euros e recebemos um financiamento de 45.676,75 euros, correspondente a 75% do orçamento. É o financiamento máximo previsto.
Existe uma componente de 25%, cerca de 15 mil euros, que terá de ser suportada pela associação ou assegurada através das parcerias que estabelecermos.
Que projeto apresentou a associação para ficar entre as candidaturas selecionadas?
A candidatura resulta do trabalho que desenvolvemos há quase 20 anos no território. Trabalhamos na área da infância e juventude e mantemos uma articulação próxima com a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, o Tribunal, a Segurança Social, as escolas e outros parceiros da comunidade.
Ao longo dos últimos anos, temos observado um agravamento dos comportamentos disruptivos, dificuldades de regulação emocional e fragilidades nas competências parentais e educativas. Também sentimos que as escolas enfrentam dificuldades para gerir estes comportamentos dentro da sala de aula e no restante contexto escolar.
Entendemos que estava na altura de criarmos um projeto mais estruturado, capaz de apoiar as escolas, os seus profissionais e as famílias, mas também de intervir diretamente com as crianças em contexto de sala de aula.
Queremos desenvolver dinâmicas que ajudem os alunos a regular as emoções e promovam o sucesso escolar e um ambiente mais agradável. Isso será importante não apenas para as crianças que apresentam comportamentos disruptivos, mas também para os colegas que são afetados por esses comportamentos.
Os agrupamentos escolares já estavam envolvidos na preparação da candidatura?
Já tínhamos mantido algumas conversas e realizado reuniões no final do ano letivo. Esses contactos ajudaram-nos a desenhar o projeto.
Agora vamos voltar a contactar as escolas e estruturar as ações de forma mais consistente. Pretendemos abranger professores do primeiro, segundo e terceiro ciclos, técnicos escolares, pais e cuidadores de crianças e jovens com idades entre os 9 e os 16 anos.
Pretendemos abranger professores do primeiro, segundo e terceiro ciclos, técnicos escolares, pais e cuidadores de crianças e jovens
Que atividades estão previstas?
Uma das componentes será a capacitação dos profissionais, com formação e grupos de supervisão técnica. Queremos analisar as situações que nos forem comunicadas e ajudar os professores a encontrar estratégias para intervir em casos concretos.
Vamos também recuperar uma experiência que funcionou muito bem no projeto anterior: os grupos de pais. Pretendemos trabalhar com as famílias das crianças e jovens identificados, mas também envolver outras famílias.
Outra componente será a produção de recursos técnicos que possam ficar disponíveis para profissionais e escolas que não participem diretamente no projeto.
Haverá ainda uma intervenção com os alunos em contexto de sala de aula, através de uma ação denominada “Faz-te à Vida”. Voltaremos a trabalhar com Catarina Louçada, que participou no projeto anterior e tem uma vasta experiência na intervenção com crianças e jovens.
Quando começa o trabalho no terreno?
Ainda estamos na fase protocolar e aguardamos o envio do protocolo para assinatura. Ao mesmo tempo, já começámos a delinear as etapas seguintes. É um projeto que será colocado no terreno a curto prazo.
Estamos a falar de uma intervenção destinada a cerca de 134 participantes, entre crianças e jovens, pais, cuidadores e profissionais das escolas.
Queremos desenvolver dinâmicas que ajudem os alunos a regular as emoções e promovam o sucesso escolar
Esta aprovação coloca a Associação Vidas Cruzadas num novo patamar? Poderá existir um alargamento da intervenção a outros concelhos?
Essa é a pergunta de um milhão de euros. A associação tem a sua intervenção focada no concelho de Abrantes, mas não fechamos a porta a outras possibilidades.
Devido ao trabalho desenvolvido com o Tribunal, já acompanhamos muitos processos provenientes de concelhos limítrofes, como Sardoal, Mação e Constância. Estamos habituados a trabalhar para além de Abrantes.
No projeto anterior, o “Blue Up”, também financiado pela Fundação “la Caixa”, estabelecemos uma parceria com a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, que já manifestou interesse em continuar a apoiar-nos. Nesse projeto, trabalhámos com toda ou grande parte da região e queremos prosseguir esse caminho.
Estamos disponíveis para trabalhar em conjunto e em rede. As crianças não existem isoladamente: vivem integradas num meio que influencia o seu bem-estar. Por isso, não faria sentido desenvolvermos esta intervenção de outra forma.