Seis meses após a tempestade Kristin e as cheias no Tejo, a Câmara de Mação considera ultrapassada a fase mais crítica da recuperação, mas critica os atrasos na reposição das telecomunicações e defende maior investimento na prevenção.
Em declarações à Lusa, o presidente da Câmara de Mação, no distrito de Santarém, disse hoje que o concelho regressou, de forma geral, à normalidade, embora persistam intervenções por concluir em infraestruturas, edifícios municipais e redes de comunicações.
“Sim, a fase mais difícil creio que está ultrapassada. Ainda temos alguns problemas para resolver e temos que ir resolvendo aos poucos”, afirmou José Fernando Martins.
Segundo o autarca, o principal constrangimento continua a verificar-se nas telecomunicações, com postes derrubados, cabos espalhados pelo chão e falhas persistentes de Internet, comunicações móveis e telefones fixos, situação que continua a afetar populações e empresas.
“Aquilo que mais impacta na paisagem e na vida das pessoas são ainda as comunicações. Ainda temos muitos postes partidos e muitos fios espalhados pelo chão”, afirmou, criticando a demora na reposição das redes.
José Fernando Martins indicou que a rede elétrica está praticamente restabelecida, embora subsistam algumas linhas provisórias e postes por substituir, enquanto prosseguem trabalhos de recuperação em antigas escolas, sedes de associações, edifícios municipais, estradas, taludes e fachadas de imóveis degradados.
Na floresta, uma das áreas mais afetadas pela tempestade, sobretudo na zona norte do concelho, permanecem milhares de árvores caídas em propriedades privadas, apesar de os caminhos florestais e as faixas de gestão de combustível já terem sido limpos, mantendo-se a preocupação com o risco de incêndio num concelho frequentemente afetado por grandes fogos florestais.
O autarca estimou em cerca de 5,8 milhões de euros os prejuízos provocados pelas intempéries em património municipal, juntas de freguesia e associações, considerando insuficiente o adiantamento de cerca de 600 mil euros recebido pelo município.
Ainda de acordo com José Fernando Martins, os apoios às habitações permanentes chegaram à generalidade das famílias elegíveis, embora algumas segundas habitações tenham ficado excluídas das linhas de financiamento.
O autarca apontou também a falta de empreiteiros e de mão-de-obra especializada como um dos principais entraves à recuperação.
“Ninguém estava preparado para aquilo que nos aconteceu”, afirmou José Fernando Martins, sustentando que os acontecimentos de janeiro reforçaram a necessidade de investir mais na prevenção, na proteção civil e em infraestruturas capazes de minimizar os impactos de futuros fenómenos meteorológicos extremos.
Entre as medidas apontadas, destacou sistemas alternativos de energia e comunicações para evitar o isolamento das populações e uma substituição progressiva das redes aéreas por infraestruturas subterrâneas nas zonas mais vulneráveis.
Como exemplo de prevenção já implementada, o presidente da Câmara de Mação salientou que a rede de faixas de gestão de combustível existente no concelho facilitou a rápida desobstrução das estradas durante a tempestade, permitindo restabelecer os acessos às aldeias e assegurar a circulação dos meios de socorro ainda no próprio dia.
José Fernando Martins defendeu igualmente que esta adaptação deve envolver os municípios, a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e o próprio país, lembrando que fenómenos desta natureza “não conhecem fronteiras” e exigem respostas articuladas.
O presidente da autarquia reconheceu, contudo, que “não está tudo resolvido”, mas garantiu que o município continuará a trabalhar na recuperação, destacando a solidariedade e a capacidade de entreajuda demonstradas pela comunidade durante os dias mais difíceis.
“Conheço as pessoas de Mação e sabia que iam ajudar. Fizeram-no por responsabilidade e porque sentiram necessidade de colaborar com o concelho”, afirmou.
Vários temporais, com destaque para as depressões Kristin, Leonardo e Marta, atingiram o território continental em três semanas a partir do final de janeiro, causando pelo menos 19 mortos, mais de metades deles durante trabalhos de recuperação, várias centenas de feridos, desalojados e deslocados, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.
Mais de 35 mil habitações foram afetadas no todo do país, um número superior a um milhão de pessoas ficaram sem eletricidade, meio milhão de clientes sem telecomunicações, mais de 18 mil sinistros ou ocorrências de emergência foram registadas até ao fim da primeira quinzena de fevereiro e foram apresentadas mais de 200 mil participações de sinistros.
Os prejuízos estimados são superiores a 5,3 mil milhões de euros.
O Governo decretou que 90 municípios nas zonas afetadas pela depressão Kristin estavam em situação de calamidade, uma declaração que implica uma série de apoios e de medidas de exceção, estendendo posteriormente a situação a todo o território desde que os danos se devam às tempestades.
Na sequência das tempestades foi anunciado, no final de abril, o programa PTRR - Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, com um envelope financeiro global de 22,6 mil milhões de euros para executar 96 medidas, até 2035, para recuperação económica do país depois das consequências do mau tempo.
Lusa