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Ana Lains em palco com 120 cantadeiras de Arouca a revelar tema novo para durar 100 anos

22/09/2026 às 14:37

A cantora Ana Laíns atuará quinta-feira em Arouca com 120 cantadeiras de várias idades, apresentando nesse concerto um tema inédito concebido em residência artística com mulheres que ainda cantam no campo e composto “para durar 100 ou 200 anos”.

O espetáculo marca o arranque da 82.ª edição da Feira das Colheitas, que, esperando cerca de 300.000 visitantes entre quinta-feira e domingo, é o evento mais emblemático do referido concelho do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto, celebrando a componente agrícola do território com iniciativas como desfiles de gado, cortejos de trajes e carroças, mostras de artesanato e produtos regionais, e concursos de broa e vinho verde.

Sendo uma das tradições de Arouca o “botar cantas”, expressão utilizada para descrever o canto das lavradeiras que a ele recorriam a título individual ou em grupo como forma de distração e entretenimento enquanto trabalhavam nos campos, o espetáculo partiu da iniciativa da própria Ana Laíns, que escolheu esse concelho como o que irá representar o distrito de Aveiro no seu próximo álbum.

O disco visa assinalar os 25 anos de carreira da cantora, cumpridos em 2024, e reunirá 20 canções inéditas, todas concebidas a partir de uma residência artística em cada um dos 20 distritos e regiões autónomas do país. O objetivo é que o álbum constitua “um mapeamento da música portuguesa de cariz tradicional que ainda subsiste na atualidade”, com base em temas cuja essência histórica será sujeita a arranjos contemporâneos que também lhes permitam “catapultar-se para o próximo século”.

É nesse contexto que Ana Laíns reconhece ao espetáculo de Arouca especial simbolismo: “Vai juntar-se ali o melhor de dois mundos. Por um lado, vou apresentar a canção que representa o distrito de Aveiro, porque acho que é mesmo em Arouca que há o melhor canto polifónico da região; e, por outro, vou fazê-lo com as crianças e jovens que estão a aprender as cantas na escola e que irão transmitir esta cultura às próximas gerações, para que nunca desapareça”.

A cantora defende, aliás, que Arouca tem “o cancioneiro tradicional mais rico de Portugal” e é o município “com mais grupos de cantadeiras no país”, o que explica que a residência artística aí desenvolvida não se tenha limitado a resultar numa composição nova, antes evoluindo também para um espetáculo com cerca de 120 vozes ao vivo.

O alinhamento do concerto irá assim abranger três componentes: temas do cancioneiro arouquense como “Eu vou-me aqui assentar” e “À sombra do arvoredo”; canções icónicas da traição portuguesa como “Senhora do Almortão” e “Milho Verde”; e a composição inédita “Vertigem”, que nasceu da residência com 20 cantadeiras de Arouca e integrará depois o futuro álbum “Identidade(s)”.

“Essa canção é inspirada na Rainha Santa Mafalda e no poder do feminino”, antecipa Ana Laíns à Lusa, contando que o tema sobre a monarca associada ao Mosteiro de Arouca tem letra e música de Sara Yasmine, vocalista dos Retimbrar, e começou a ser trabalhado em agosto, com ensaios todos os fins de semana – inclusive para preparação do dueto com a convidada local, Daniela Almeida.

“No essencial, o espetáculo será um mega coro, constituído por 10 a 12 grupos de cantadeiras de Arouca, que é um caso muito sério de canto polifónico no país”, realça Ana Laíns. “E é delicioso chegar à conclusão de que a comunidade ainda tem muito viva esta tradição, com crianças, jovens e escolas que lhe dão continuidade”, refere.

Quanto ao novo álbum, a cantora espera poder terminar as 20 residências artísticas até final de 2026 e começar no ano seguinte a divulgar gradualmente alguns dos temas inéditos que delas resultaram, mas afirma que “o disco completo só sairá quando tiver que ser”.

“Estamos a fazer música boa, com gente que tem um conhecimento profundo das nossas raízes e isto é um trabalho muito complexo, que exige grande honestidade intelectual”, justifica. “Não o vamos apressar. É trabalho que tem que ficar bem porque é para perdurar”.

Lusa

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