A sub-região do Médio Tejo entra no período mais crítico do verão com milhares de árvores derrubadas pela tempestade Kristin ainda por remover, mais carga combustível acumulada nas florestas e equipas no terreno “sem mãos a medir”.
“Há uma alteração muito significativa da carga combustível no território e isso aumenta naturalmente a preocupação para os próximos meses”, afirmou à Lusa o presidente da Associação de Agricultores do Ribatejo Norte, entidade que mantém sete equipas de sapadores florestais no terreno ao longo de todo o ano.
Segundo Luís Damas, quatro meses depois da tempestade, os trabalhos de desobstrução de caminhos florestais, remoção de árvores tombadas e criação de faixas de contenção continuam em vários pontos de Abrantes, Barquinha, Constância, Sardoal e Mação, no distrito de Santarém, numa altura em que o prazo nacional para a limpeza de terrenos foi prolongado um mês, até 30 de junho, em todo o território nacional.
“O território ficou diferente. Há locais onde o combustível que estava suspenso passou a estar no chão e isso cria novas dificuldades, quer no acesso, quer no comportamento potencial de um incêndio”, referiu Luís Damas, apontando para um verão “mais exigente” do ponto de vista operacional.
O responsável, que também preside à Federação Nacional de Associações de Proprietários Florestais (FNAPF), salientou que, apesar do trabalho já realizado, “há ainda muitos caminhos secundários por desobstruir” e zonas onde a remoção de material lenhoso “vai demorar meses ou até anos”, sobretudo em áreas de difícil acesso.
Também o presidente da Câmara de Abrantes e da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Médio Tejo, Manuel Jorge Valamatos, reconheceu à Lusa que o risco “aumentou significativamente” após as tempestades, não apenas em Abrantes, mas noutros concelhos da região.
“Temos concelhos como Ourém, Tomar ou Ferreira do Zêzere ainda com níveis de preocupação maiores, porque existem muitas árvores caídas e muita carga combustível acumulada”, afirmou.
Segundo Valamatos, a prioridade passou pela desobstrução dos principais caminhos florestais e pela proteção das zonas habitadas, embora continuem em curso intervenções em vias secundárias e propriedades privadas.
Em causa está “uma corrida contra o tempo e todas as estruturas no terreno são importantes”.
O segundo comandante sub-regional de Proteção Civil do Médio Tejo, João Pitacas, alertou igualmente para o facto de as tempestades não terem retirado combustível da floresta, mas alterado a sua disposição no território: “Neste momento temos vastas áreas em que a copa das árvores está no chão. O combustível que estava suspenso passou a estar concentrado no solo.”
Esta nova realidade poderá dificultar operações futuras, sobretudo em cenários de incêndio prolongado e rescaldo, devido à coexistência de combustíveis finos, médios e grossos em grandes massas acumuladas.
Agora, acrescentou João Pitacas, “há ainda muito trabalho de desobstrução da rede viária florestal em vários municípios do Médio Tejo e é um trabalho que leva tempo”.
No terreno, os sapadores florestais descrevem uma pressão crescente perante a aproximação do verão e com as temperaturas altas já a fazerem-se sentir.
“Não há mãos a medir. Há muito trabalho para fazer”, afirmou Ricardo Lavrador, chefe de uma das sete equipas da associação de agricultores, depois de um dia dedicado à abertura de faixas de contenção e corte de vegetação junto ao quartel militar de Abrantes e ao Parque Urbano da cidade.
Com cinco anos de experiência como sapador, Ricardo Lavrador recordou que o cenário encontrado após a tempestade foi o mais difícil que já enfrentou.
“Andámos por Ourém e Ferreira do Zêzere e aquilo estava tudo destruído. Árvores inteiras caídas sobre casas. Foi muito duro”, contou.
Também João Lourenço, chefe de uma equipa de sapadores florestais há quase uma década, admitiu que “vai ser um ano mais complicado”.
“O combustível ficou todo no terreno. O que estava em pé caiu, foi cortado e ficou acumulado ao lado dos caminhos”, explicou. As equipas têm estado dedicadas nos últimos meses à desobstrução de estradões florestais no norte do concelho de Abrantes e nos municípios da área de influência da associação de agricultores.
Segundo o sapador, continuam a existir vias florestais condicionadas e locais perigosos para intervenção, obrigando à definição de prioridades.
“Temos de escolher as zonas de maior risco e os acessos mais importantes. Não é possível chegar a todo o lado”, afirmou.
O prazo para limpeza de terrenos foi prolongado pelo Governo até 30 de junho em todo o país, depois de associações do setor terem alertado para dificuldades na remoção de material lenhoso, falta de mão-de-obra e aumento dos custos dos trabalhos florestais.
De acordo com o Comando Integrado de Prevenção e Operações (CIPO), foram identificados mais de 12 mil quilómetros de caminhos florestais que necessitavam de intervenção prioritária nas regiões Centro e Lisboa e Vale do Tejo, tendo sido desobstruídos, até meados de maio, cerca de 10 mil quilómetros.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, apelou entretanto à colaboração de proprietários, autarquias e cidadãos na prevenção dos incêndios rurais, alertando para a existência de “muito material combustível” ainda acumulado nas florestas antes do período de maior risco.
O apelo é partilhado no terreno pelos próprios sapadores florestais, envolvidos há vários meses num trabalho de desobstrução e limpeza que “parece não ter fim”.
“Nós fazemos a nossa parte todos os dias, mas as pessoas também têm de perceber o risco que existe este ano”, alertou João Lourenço.
Lusa