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Abrantes: Meninos da Floresta fecham verão em festa e com procura a encher atividades (c/áudio e fotos)

7/09/2026 às 10:15

Brincar na rua, mexer na terra, construir fortes, cuidar da horta e passar os dias sem telemóveis. É parte da receita dos “Meninos da Floresta”, projeto desenvolvido nas Barreiras do Tejo, em Abrantes, que encerrou as férias de verão com um festival aberto à comunidade. Maria Heleno, responsável pela associação, faz um balanço muito positivo de um verão em que várias semanas atingiram o limite de 35 crianças e chegaram a existir listas de espera.

O Festival na Floresta realizou-se no dia 4 de setembro, na antiga Escola Primária Dr. Raul Figueiredo, transformando o espaço numa festa preparada também pelas próprias crianças para mostrar às famílias e à comunidade o trabalho desenvolvido durante as férias.

Oficinas, atividades na natureza, artistas convidados, mercado de trocas, música, comida e brincadeiras fizeram parte de uma tarde que assinalou o final do programa de verão.

“É uma festa feita por eles, para as famílias, para outras crianças, para a nossa comunidade”, explicou Maria Heleno, em declarações à Antena Livre.

Mais do que encerrar as férias, o festival serviu para abrir as portas do projeto a quem ainda não conhece o espaço.

“É dia de comemorarmos todos juntos tudo aquilo que vivemos, todos os momentos que passámos, todos os meninos que passaram por aqui”, explicou a responsável, acrescentando que a iniciativa permite também que outras pessoas possam “ver com os próprios olhos” aquilo que é feito pelos Meninos da Floresta.

O balanço do verão confirma, segundo Maria Heleno, o crescimento da procura.

Durante as férias escolares, o projeto estabeleceu um limite de 35 crianças por semana e foram poucas as semanas em que esse número não foi atingido.

“Foram muito poucas as semanas em que não estivemos cheias e com crianças em espera”, revelou, considerando que “a procura é ótima” e que o projeto está a correr “muito bem”.

Há, inclusivamente, crianças que regressam durante praticamente todo o verão, ainda que alternando algumas semanas.

Durante o período letivo, a realidade é diferente. Os Meninos da Floresta mantêm um programa afterschool, mas com grupos mais reduzidos.

A principal dificuldade está no transporte das crianças entre as escolas e as instalações do projeto, nas Barreiras do Tejo. Como a atividade começa depois das 15h30, a deslocação torna-se um obstáculo para algumas famílias.

Para Maria Heleno, a filosofia dos Meninos da Floresta não passa propriamente por encontrar uma forma de “ocupar” as crianças depois da escola.

“Eu acho que é precisamente o contrário. Acho que os pais vêm à procura dessa desocupação dos tempos livres das crianças”, explicou.

Durante o período letivo, depois de um dia inteiro na escola, a intenção é proporcionar tempo verdadeiramente livre.

“É tempo livre para brincarem, para descomprimirem, para fazerem o que entendem.”

O espaço exterior assume, por isso, particular importância. As crianças podem correr, trepar, gritar, sujar-se e explorar o espaço com uma autonomia que, segundo Maria Heleno, é intencional.

“É que sejam crianças, que tenham esse espaço e essa liberdade para serem crianças, porque crianças fazem barulho, gritam, trepam, caem, correm.”

Existe, ainda assim, uma regra simples relativamente à autonomia: “Não temos que os ver sempre, mas temos que os ouvir”. Quando são chamados, têm de responder.

Nas férias de verão, por se tratar de dias e semanas completas, existe alguma programação. A segunda-feira é reservada à integração e exploração livre do espaço e, nos restantes dias, é normalmente proposta uma atividade diferente.

Desporto, artes e atividades culturais fazem parte do programa, mas participar não é obrigatório.

“Nós apresentamos a atividade e as crianças não são obrigadas a participar. Participam se tiverem interesse”, explicou Maria Heleno, defendendo que é importante respeitar o facto de nem todas as crianças gostarem das mesmas coisas.

E, no final, aquilo que muitas querem mesmo fazer é simplesmente brincar.

Futebol, jogos das escondidas e da apanhada, saltar à corda, construir fortes com paletes ou improvisar barragens estão entre as atividades que surgem espontaneamente.

Há também a cozinha de lama, particularmente popular entre os mais pequenos.

“Adoram pôr as mãos na terra, adoram fazer bolos de lama, adoram sair sujos”, contou Maria Heleno. Numa das últimas semanas, depois de esvaziada uma piscina, a brincadeira terminou mesmo numa luta de lama.

Uma situação que, segundo a responsável, já não causa a estranheza que poderia provocar inicialmente entre alguns pais. As famílias percebem que as crianças estão a brincar e a ter contacto com a natureza.

Há uma vida sem telemóvel

Um dos princípios mais marcantes do projeto é a ausência dos telemóveis e de outros dispositivos digitais durante as atividades.

A adaptação nem sempre é imediata.

Maria Heleno reconhece que algumas crianças habituadas a passar muito tempo diante dos ecrãs sentem falta desse estímulo e chegam a dizer que estão aborrecidas.

A resposta dos responsáveis é deliberadamente simples: “Estás aborrecido? Que bom.”

A partir desse aborrecimento, explica, podem nascer outras formas de brincar e ocupar o tempo.

Maria Heleno vê também de forma positiva as limitações que têm vindo a ser introduzidas à utilização de telemóveis nas escolas, sobretudo porque os intervalos devem voltar a ser momentos de convívio e socialização.

“Eu acho que nem oito nem oitenta, mas tudo tem que ser feito com algum controlo e dentro do seu tempo”, defende.

Liberdade não significa ausência de responsabilidades. No início de cada semana são distribuídas tarefas. Há uma equipa responsável pela horta, outra que ajuda a arrumar a sala e crianças encarregadas de colaborar na preparação das refeições, incluindo ir buscar tomate e alface à horta para as saladas.

Para Maria Heleno, estas pequenas responsabilidades ajudam as crianças a perceber que fazem parte de uma comunidade.

“Sentem que têm um lugar neste nosso grupo e nesta comunidade e que há um papel para cada um”, salientou.

Maria Heleno, Meninos da Floresta

 

A componente ambiental atravessa igualmente o projeto. Maria Heleno, com formação na área ambiental, destaca atividades de reutilização de materiais, separação de resíduos e oficinas de upcycling, procurando manter uma ligação permanente entre as crianças e a natureza.

E considera que as novas gerações chegam já com uma consciência ambiental diferente, adquirida tanto na escola como em casa.

Com o Festival na Floresta terminou agora o programa das férias de verão. Segue-se o regresso às aulas e a retoma do programa afterschool, mantendo a mesma ideia que está na base do projeto: dar às crianças espaço e tempo para voltarem simplesmente a brincar.

Nota: As fotos cedidas nesta reportagem foram cedidas pela organização "Meninos da Floresta"

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