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Incêndios/Mação: O testemunho de um jornalista em noite de desespero em Casas da Ribeira (COM ÁUDIO)

2019-07-22

Esta poderia ter sido uma notícia emotiva. Podia ter um registo áudio de gritos e aflição. Por opção jornalística, e humana, deixei de lado qualquer tipo de sensacionalismos.

Antes da meia noite, e depois de um jantar apressado na logística da Proteção Civil de Mação, em Cardigos, dei uma volta pelas zonas mais complicadas da tarde e da noite.

Juntamente com o vereador Vasco Marques, da Câmara Municipal de Mação, saímos de Cardigos na companhia de um grupo de jovens, que munidos de viaturas com kit's de combate a incêndios, ajudam as populações.

A ideia era passar pelas zonas ardidas e perceber se era preciso alguma ajuda. Depois, chegar à frente de fogo.

Saímos de Cardigos, passámos pela Roda e por Casalinho em direção à Chaveira e Casais de S. Bento. Trânsito de muitas viaturas de bombeiros e GNR. Muito fumo e algumas árvores a tombar para as estradas.

A frente de fogo estava, às 11 e pouco da noite, muito ativa mas ainda longe das aldeias. Estas estavam, para já, a salvo.

Demos a volta e entrámos por Casas da Ribeira, de Cardigos. Foi ali que se detetou uma chama viva. O primeiro pensamento foi que seria um monte de lenha que estaria a arder, pois o fogo já por ali tinha passado e a aldeia tinha os habitantes todos recolhidos.

Carros parados e percebeu-se que estava era a arder o telhado de um barracão. De imediato os jovens deram corpo ao voluntarismo, ligaram as mangueiras e as moto-bombas e começaram a mandar água para apagar as chamas do telhado.

Nem vivalma naquela aldeia que havia sido fustigada pelo fogo. O vereador tentou contactar algumas pessoas da aldeia para perceber se o barracão tinha alguma coisa de valor.

Como o telhado estava a colapsar, resolveram arrombar as portas de chapa. Quando se abriram, percebemos que estava um carro em chamas. Dois mil litros de água e nada apagou o lume.

Entretanto, juntam-se algumas pessoas em conversa e passa um GIPS da GNR. Os militares tentam, também, apagar as chamas, mas foi impossível. “Só espuma ou pó químico”, atira um dos operacionais.

Já em cima da meia-noite vimos um homem de t'shirt branca a correr, aos berros, literalmente.

É o dono do carro”, diz um dos habitantes de Casas da Ribeira. “Ele vai lá tentar tirar o carro”.

Os operacionais da GNR impedem-no de ir para as chamas. Não havia nada a fazer.

O homem, desesperado, tentou por todos os meios fugir aos operacionais para tentar tirar o carro (um Opel Corsa) que estava totalmente a arder.

Dois operacionais da GNR levam-no quase de rastos. “Ouça, o carro está perdido, não queremos que se queime. O senhor não vai lá fazer nada”, gritou em ordem de comando um dos operacionais do grupo que passava por ali para ir para a frente de fogo.

A mulher daquele homem desesperado, cheia de lágrimas, explica que tinham andado fora e pouco antes das 23 horas tinham guardado o carro na garagem. “Parecia tudo calmo e apagado”.

Olha para a garagem em chamas e leva as mãos ao rosto em sinal de desespero. Mas olha para o marido e vai a casa buscar um calmante.

A explicação é simples, perderam as matas e assim, do nada, perderam o carro e roçadoras e outras ferramentas agrícolas.

Depois do depósito de combustível do carro ter “explodido”, os mesmo jovens, que tinham ido reabastecer os depósitos do kit, descarregam mais 2 mil litros de água no carro e na garagem e apagam o fogo.

O que terá acontecido, segundo os operacionais da GNR e também segundo o vereador Vasco Marques, é que terá ficado o telhado, ou uma trave, a arder em morto e fez chama aquela hora. “Isto é perigoso”, diz o vereador da Câmara de Mação, e explica: “Está tudo cansado e a dormir e não vem aqui ninguém. Não sabemos o que está ali dentro guardado. Mesmo com tudo ardido à volta podia haver aqui perigo porque ninguém estava a ver o que se passava”.

E o vereador tinha toda a razão. Nem com o ruído das moto-bombas a população, seguramente cansada de 24 horas de desespero, apareceu. Só a coluna de GIP's da GNR despertou alguma curiosidade.

Poderia ter optado por registar o desespero, tentar obter uma declaração, mas não. Preferi contar a história desta forma, fugindo ao sensacionalismo de ter em antena pessoas a chorar.

Quase às duas da manhã deixamos Casas da Ribeira quase na mesma tranquilidade com que a encontrámos antes da meia noite.

 

Jerónimo Belo Jorge

 

 

2019-07-22