Abílio Dias Alves tem 85 anos. Nasceu em Água das Casas, Fontes (Abrantes) em 1931, aprendeu o ofício de pedreiro e rumou para Lisboa. Ali concorreu à Carris, onde foi motorista durante 32 anos. “Mas nunca fui namorado de Lisboa.” Reformou-se em 1988 e fixou-se na sua terra, pela qual sempre havia lutado. Há uma enorme lista de “melhoramentos” (ver lista anexa) que conseguiu com a sua liderança. Insiste, “não fui eu, fomos nós”, mas diz que esteve sempre “na linha da frente”. Hoje, deu lugar aos mais novos, já só “ajuda”. Tem pertencido à Assembleia de Freguesia e já foi dois mandatos Secretário da Junta das Fontes.
Vivia em Lisboa. Porque se meteu a fazer estas coisas?
Para ver a terra melhorar. Só isso. Todos estes trabalhos, e todos lutam pelo mesmo, é porque, se não se fizessem estas coisas, isto já tinha acabado. E assim, não. Dantes, viviam cá umas quinhentas ou seiscentas pessoas. Agora, vivem cá dez ou quinze pessoas, mas aos fins-de-semana isto enche-se de gente, mesmo malta nova. É perto [de Lisboa], uma hora e tal de viagem. Muitos ficam aqui de férias. Gostam disto, porque há um bom ambiente entre todos, é sossegado e tem boas condições de acesso à água. Os mais novos andam em liberdade… Mas se não fosse o que temos feito, não vinha cá ninguém. Foi esta ideia. Porque nunca tive aqui nada a ganhar dinheiro, nunca tive cá um estabelecimento [comercial]. Não há aqui uma taberna, um café. Se não criássemos nada, não havia atracção nenhuma. E assim, as famílias reconstroem as casas… Já vêm netos e bisnetos de gente que nasceu aqui.
Como é que se faz para que as pessoas trabalhem, participem?
No princípio, era só preciso dizer “tal dia vamos fazer aquilo” e a malta aparecia. Hoje, diz-se “tal dia é a festa” e quem aparece trabalha. O que está aí feito, grande parte foi trabalho voluntário. O dinheiro era das festas e dos peditórios que se faziam. Nunca íamos para além do que [dinheiro] que tínhamos. Só uma vez é que pedimos um empréstimo – a nós próprios!, cinco contos a cada um – mas depois pagámos o que tínhamos pedido. Tem sido sempre assim. Ainda este ano gastámos três mil euros a arranjar um telhado e umas coisitas.
Mas há muitas terras, até maiores, sem este nível de realizações.
Há terras em que num ano é uma equipa a fazer as festas, no outro é outra e os do ano anterior já não querem fazer parte. Aqui… Bem, eu estive sempre na linha da frente, mas atrás de mim estava a equipa toda. Eu não era nenhum herói, eu só aguentava em ir sempre à frente. Agora… é esta gente mais nova, que continua o trabalho. Eu é mais para estar aqui a “emparar”, porque não há quem esteja aqui de semana.
Sentiu-se sempre apoiado?
Até hoje. Só aí há um [habitante] que nunca quis entrar, mas ficou de lado porque quis, ninguém o pôs de lado. Eu já dirigia a Comissão de Melhoramentos. Quando se fez a Associação, puseram-me lá porque era sério, honesto e lutador. E nunca houve desvios de dinheiro, nunca houve dúvidas. Posso perder eu, mas a associação não perde. Isso é muito importante. Eu conseguia aglutinar a malta toda. É sempre assim. Nunca houve uma comissão de seis, sete ou oito pessoas. Há os corpos gerentes, mas a trabalhar são sempre muitos, que não têm lá o nome.
E houve sempre ajuda da Câmara e da Junta de Freguesia. Pode não ser tudo o que a gente pede, mas têm ajudado.
Um sistema local de defesa contra incêndios?!
Está a funcionar. Quando houve o incêndio [2005], não tivemos um único bombeiro em Água das Casas. Nós é que conseguimos evitar que as casas ardessem. Depois, propus que se montasse um sistema para defender as casas. Comprámos um motor, ligado a um tanque, e um conjunto de mangueiras, tudo apoiado com os nossos motores. Toda a aldeia está defendida do fogo. Não é para substituir os bombeiros, é para nos defendermos quando não temos bombeiros.
O que falta ainda conseguir?
Melhorar as instalações de apoio junto à barragem e ver o que se pode fazer na levada do Rabaçal. Que já tem mais de seiscentos anos. A Água das Casas já existe desde 1360, pelo menos. Esta levada tem valor histórico, além disso quando chove dá cabo do caminho. Temos de ver o que se pode fazer. Além disso, é preciso ir mantendo o que está feito. Se não fossem as Festas, não aguentávamos isto. De inverno, dois ou três cafés que se vendem [na associação], não chega para pagar a água e a luz. E foi assim que se foram fazendo as coisas. De resto…
Olhando para trás, como vê o trabalho feito?
Às vezes, fico admirado como foi possível fazer tanto. (Risos) Mas foi lentamente, nem demos por isso. Foi-se fazendo. Julgo que não fizemos nada que fosse dinheiro perdido. Pessoalmente, sinto-me realizado. Não me sinto maior que os outros. Nós conseguimos, em conjunto. E está tudo a funcionar, menos o posto médico.
Como vê Água das Casas daqui a 50 anos?
Não sei. Mas penso que não seja abandonada. Vai haver reformados que voltam e os novos vão querer continuar a vir cá. Porque tem condições de vida, para quem queira viver sossegado.
Alves Jana
[Na despedida]
Escreva o que entender. Mas não ponha elogios. Alguns acham que precisam de nome. O nome faz-se ao longo da vida. O nome é o que está à vista.
Lista dos melhoramentos
liderados pelo Ti Abílio
- Reparação da estrada do Cimo da Barroqueira a Água das Casas;
- Asfaltamento da estrada Brescovo-Água das Casas;
- Instalação da água em fontenários;
- Construção do cemitério;
- Instalação do correio e telefones públicos;
- Criação do posto médico;
- Construção das instalações da associação (dez anos);
- Construção da igreja ou capela;
- Asfaltamento da estrada Água das Casas-Vale de Açor;
- Instalação da luz eléctrica;
- Instalação da água ao domicílio;
- Reparação da estrada Matagosa-Água das Casas;
- Captação de água em Rabaçal;
- Colaboração no arranjo do largo da associação;
- Tapete de alcatrão na estrada Água das Casas-Cruzeiro;
- Alargamento e regularização das ruas da aldeia;
- Asfaltamento das ruas de Água das Casas, com colaboração da associação;
- Melhoramento da iluminação pública;
- Construção de um sistema de defesa contra incêndios;
- Construção do parque de merendas do Rabaçal;
- Construção de uma jangada para banhos, na albufeira;
- Melhoria dos acessos à albufeira;
- Parque de merendas junto à albufeira.