Rita Soares é a diretora da Unidade de Saúde Familiar (USF) de Abrantes, que abriu as portas a 30 de Maio passado. Médica pela Universidade Nova de Lisboa, residia em Abrantes e trabalhava em Santarém quando foi desafiada a chefiar esta USF.
O que é esta USF para quem a constrói por dentro?
É um sonho tornado realidade, a concretização de vários anos de trabalho para encontrar a equipa certa e para prestar o melhor serviço à população. Tudo começou há alguns anos quando a Dra. Maria do Céu e a Dra. Sofia Theriaga, diretora do ACES, me desafiaram a vir para Abrantes, para colmatar esta carência. Em Santarém estava já numa USF, de tipo B, ou seja, com benefícios no salário, que perdia vindo para cá. Mesmo assim, decidi aceitar o desafio.
Foi difícil chegar cá?
Foi. Primeiro, que me deixassem sair de Santarém, porque a carência é generalizada. O primeiro pedido de mobilidade foi recusado, só ao segundo consegui. O mesmo com a Dra. Joana, para vir de Lisboa. O Dr. Nuno já foi por concurso. Além disso, encontrar colegas mais seniores, que estivesses dispostos a entrar num processo desafiante, com outro tipo de horário, que exige trabalho na organização, pois a dinâmica da equipa tem de ser construída pelos próprios membros, em vez de cada um cumprir as regras da organização [local]. Mas a equipa está radiante, muito motivada, e isso reflete-se nos utentes que já conseguiram ter médico de família.
Quais são, agora, os maiores desafios?
Tivemos muitos desafios prévios, antes de abrirmos, com os pedidos de material, com a organização da funcionalidade, exigiu muito trabalho de todos. Mas as pessoas já estavam desejosas de começar a trabalhar e agora estamos numa fase… de lua de mel. (risos) Estamos a fazer o que nos move.
Há problemas de contexto? Nomeadamente de doentes que não tinham médico de família há anos…
Não sei se tem havido problemas, mas vejo que os doentes têm de ser “educados” neste sentido: há programas definidos pela Direção-Geral de Saúde, que define o que deve ser feito nos vários programas, de doença e de prevenção, mas os doentes, por causa da falta de médicos, estão habituados a tomarem a sua saúde nas mãos e fazerem o melhor que podem. Por isso, vêm pedir este ou aquele exame, que não é o que está definido para aquele caso, porque não é o mais indicado. Ainda não houve choques, mas já ouvi rumores de que não queremos passar exames. Não é verdade, é porque não se justificam. Há programas desenhados e nós, como profissionais, temos de os adequar ao caso individual de cada doente e explicar-lhe o que é o melhor para si.
Com o trabalho de equipa médico-enfermeiro, o estatuto da enfermagem sai aqui reforçado?
Não sei… A enfermagem, a trabalhar sozinha, também sente um grande destaque. Quem ganha mais é mesmo o doente, porque tem as duas componentes. Em vez de um profissional de saúde, tem dois, que se articulam.
Já se fala, aqui, em medicina pelo telefone. E em videoconferência?
É uma coisa interessantíssima, até para nós consultarmos especialistas. Com utentes… Não temos câmara. Mas temos o acesso por telefone, a que as pessoas podem recorrer. Eu utilizo muito o e-mail com os meus utentes, para contactos que não exigem consulta. É um meio facilitador sobretudo para quem trabalha.
A medicina tem uma componente científica e técnica. Mas também uma componente organizacional. Que desafios novos esta modalidade de organização coloca aos médicos?
Nesta fase da USF ainda não há essa pressão. Mas quando se passa a uma USF tipo B, aí há uma contratualização por objectivos – que têm de ser atingidos para se terem certos incentivos financeiros. Por isso, há, por vezes, a tentação de olhar mais para o computador que para o doente, ou seja, para os indicadores que é preciso atingir que para o que os doentes querem. Por exemplo, em USF modelo A temos de atingir uma taxa de rastreio de cancro de colo do útero de 60%; em modelo B se calhar é de 90%, embora certos doentes não queiram fazer esse rastreio, e estão no seu direito. Nós temos o papel de informar a pessoa, não de a obrigar. Mas, como disse, esse ainda não é um problema nosso. A solução passa pela confiança entre o doente e o profissional, que leva a pessoa a perceber que é um bem para a sua saúde fazer uma mamografia, uma citologia, não podemos é obrigar.
Daqui a cinco anos, em 2021, a vitória do vosso trabalho foi conseguida se…
Se tivermos passado a USF modelo B, sinal de que estamos a trabalhar dentro das orientações propostas, o que leva cinco ou seis anos, e se tivermos 75% dos utentes “muito satisfeitos” com o nosso trabalho. Este é, para nós, um objectivo a três anos.
O panorama da saúde da população jovem parece ameaçado: álcool, droga, obesidade, sedentarismo, dependência do telemóvel/computador, jogos on line, dietas loucas, depressão, superprotecção, dependência de ansiolíticos, stress por excesso de actividades, surdez precoce pelos fones nos ouvidos… além das possíveis epidemias e dos ressurgimento de velhas doenças. Para onde vamos em termos de saúde? Que há a fazer?
Muita prevenção. Muito trabalho com os pais desde que nascem. É na educação para competências parentais que está o futuro dos mais pequenos. Temos de apostar em convocar os adolescentes, que é uma faixa etária que foge muito dos cuidados primários. “Não preciso” “Não estou doente”… E às vezes chegam só pelos pais, já num estadio complicado. Há aí um trabalho da saúde escolar, mas estamos cá para os receber, pois tratamos as pessoas do nascimento até à morte.
E a terceira idade tem bastante peso.
Acima do país e acima do Médio Tejo. Mas encontramos pessoas com muita idade e bastante saudáveis. E já têm algum acompanhamento.
Que recomendações gostaria de fazer aos utentes desta USF?
Que tenham alguma paciência com esta fase inicial, em que estamos a afinar o funcionamento. E que façam uma boa utilização das consultas: não venham a uma consulta só para pedir receituário, há um espaço próprio para isso.
Alves Jana