O último barco picareto construído pelo mestre calafate Manuel Pires Fontes, de Ortiga, no concelho de Mação, vai integrar o acervo do Museu de Marinha, culminando um processo de preservação desta embarcação tradicional iniciado há quase duas décadas.
O anúncio foi feito pela Associação Os Amigos da Estação de Ortiga.
“Este é o momento mais alto de um processo iniciado em 2007 e que culmina agora com a entrega da embarcação ao Museu de Marinha”, disse à Lusa o presidente da associação, Sérgio Durão.
A cerimónia de doação e incorporação do barco picareto, batizado Adamastor, realiza-se na segunda-feira, às 11:00, na Cordoaria Nacional, em Lisboa, sendo a embarcação oferecida pela associação de Ortiga, no distrito de Santarém.
O picareto é uma embarcação tradicional associada à pesca e à vida das comunidades ribeirinhas daquele troço do Tejo, tendo particular importância em Ortiga, onde várias gerações de famílias complementaram o trabalho agrícola com a pesca.
Sérgio Durão recordou que o picareto era “um companheiro” dos pescadores e importante na subsistência das famílias, destacando a relação afetiva com os barcos, ao ponto de, segundo relatou, os antigos pescadores não entrarem calçados nas embarcações.
Construído em 2009 por Manuel Pires Fontes, conhecido por “Ti Fontes”, quando o mestre calafate tinha mais de 80 anos, o Adamastor foi encomendado pela associação para preservar uma técnica tradicional de construção naval em desaparecimento.
“Este é o último barco em tamanho original construído” pelo mestre, afirmou Sérgio Durão, considerando a sua entrada no museu um reconhecimento de Ortiga e da cultura ribeirinha do Médio Tejo, onde estas embarcações foram utilizadas durante gerações.
O presidente da Assembleia Geral da associação, José Carlos Durão, explicou à Lusa que o projeto nasceu quando ainda não existia o atual Núcleo Museológico de Ortiga e levou a coletividade a desafiar Ti Fontes a voltar a construir duas embarcações segundo os métodos tradicionais.
Manuel Fontes construiu primeiro o Príncipe do Tejo, em 2008, uma embarcação aberta destinada ao transporte de pessoas e bens entre margens, e, no ano seguinte, o Adamastor, picareto fechado associado à pesca e que será agora entregue ao Museu de Marinha.
A madeira utilizada foi obtida na região, parte dela oferecida pela população, tendo o mestre construído as embarcações num estaleiro improvisado, num processo documentado pela associação em fotografia e vídeo.
O Adamastor praticamente não navegou. Foi colocado na água apenas uma vez, durante três ou quatro horas, numa homenagem a Ti Fontes em 2010, sendo depois retirado e guardado para assegurar a sua preservação.
Para José Carlos Durão, a incorporação do Adamastor no Museu de Marinha representa “o reconhecimento de uma arte singular, de uma tradição única” e permite “preservar o património ao mais alto nível”.
Manuel Pires Fontes nasceu em Ortiga em 1926, aprendeu com o pai o ofício de carpinteiro e calafate e construiu mais de 300 picaretos. Pescador e conhecedor do Tejo, foi o último mestre construtor destas embarcações em Ortiga e morreu em 2017, aos 90 anos.
A preservação desta memória esteve também na origem do Núcleo Museológico de Ortiga, inaugurado em 2020 na antiga escola primária, com espólio ligado à pesca, à vida ribeirinha e à construção dos picaretos.
Apesar de existirem registos, medidas e documentação sobre o processo construtivo, José Carlos Durão considerou “difícil” que volte a ser produzido um picareto nas mesmas condições tradicionais, por ter desaparecido o conhecimento prático dos mestres calafates.
“Desta forma, termina aqui”, afirmou, referindo-se à construção segundo as técnicas utilizadas por Ti Fontes.
Criado em 1863, por D. Luís, o Museu de Marinha está instalado desde 1962 no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, e reúne testemunhos da relação dos portugueses com o mar, incluindo um acervo dedicado à pesca e às embarcações tradicionais.
Lusa