A Central Hidroelétrica de Castelo de Bode começou a ser construída em 1946. Começou a encher em 1950 e a 21 de janeiro de 1951 houve uma grande festa com a presença do Marechal Carmona e de Oliveira Salazar e milhares de pessoas. Deslocaram ao sítio onde estamos, hoje, a gravar esta entrevista, 75 anos depois. E em 1951 vieram para inauguração da grande barragem, era assim que era chamada e designada nos jornais de 1951, a barragem do Castelo de Bode.
É uma barragem que faz a produção de energia elétrica, na altura da construção expropriaram 3.500 hectares de terrenos, mil prédios urbanos e 250 indústrias agrícolas.
A construção custou 600 mil contos (aproximadamente 2,99 milhões de euros).
Se a albufeira tem nos dias de hoje um enorme potencial turístico e económico, por outro lado, garante o abastecimento de água a quase um terço da população portuguesa, onde se inclui naturalmente a Grande Lisboa. E há ainda a própria barragem, com uma travessia entre as margens do rio, que é um ponto turístico. As pessoas continuam a passar pelo coroamento, pelo paredão, a tirar fotografias, a ver a Albufeira e depois a barragem e o Zêzere a jusante.
João Baltazar é o diretor de Operações e Manutenção de Ativos da EDP, concessionária da Barragem de Castelo de Bode, e recebeu o Jornal de Abrantes para esta entrevista.
Entrevista por Jerónimo Belo Jorge
Falamos aqui, em primeiro lugar, uma Barragem que é um centro de produção de eletricidade?
Relativamente à central, que é a parte que responde à produção de eletricidade, ela é composta por três grupos geradores, rigorosamente iguais.
Há pouco referiu a inauguração, no ano de 1951, que foi quando arrancou o primeiro destes três grupos, e um ano depois estávamos a finalizar o arranque do terceiro grupo. Cada um dos grupos tem uma capacidade de 53 megawatts, portanto, no total, esta central tem uma capacidade aproximada de 160 megawatts. Em termos de produtividade anual, naturalmente depende muito daquilo que é um ano seco ou húmido, é muito dependente da matéria-prima que é a água. Em termos médios, produz cerca de 300 gigawatts hora, e para as pessoas terem uma ideia do que é que isso corresponde, é mais ou menos o consumo de 230 mil habitantes.
Hoje fala-se muito no solar, no eólico, parece que se esqueceu um bocadinho, as fontes hídricas. No entanto, continuam a ser a base de produção de energia elétrica de Portugal?
Sim, tem uma base, no total, é cerca de 10% do consumo em Portugal, em termos médios, mais uma vez, é por via da produção hídrica. Quando se fala de outras tecnologias, temos que ver isto sempre de uma forma complementar, ou seja, essas tecnologias, quer a solar, quer a eólica, têm uma vantagem inequívoca, que é simultânea com a hídrica, que são energias renováveis. A energia hídrica tem uma vantagem competitiva, digamos assim, que é uma energia despachável. Ou seja, é possível ligar e desligar a produção conforme aquilo que são as necessidades de abastecimento.

Quem passa aqui na estrada não percebe se a central está sempre ou não a trabalhar. Há períodos de trabalho ou está a produzir em contínuo?
Depende de muitos fatores. Qualquer centro produtor em Portugal e Espanha tem que ofertar aquilo que é a sua capacidade de produção no mercado ibérico de eletricidade.
Nesse mesmo mercado existem os produtores, que são vendedores, e existem compradores, que são os comercializadores de energia. E para cada período temporal existe um encontro entre oferta e procura, que vai determinar se uma central está a trabalhar ou está parada. Portanto, obviamente, em períodos de maior influência de água, é muito provável que a central esteja a trabalhar, ao invés, quando esse caudal não acontece, o funcionamento é muito mais pontual.
Tivemos há três anos um verão muito seco mesmo. Há, nestes casos, limitações de produção por via das cotas estarem muito baixas?
Exato, e são preocupações plenamente oportunas, e obviamente a EDP esteve lado a lado com essas decisões.
Efetivamente foi um ano muito desafiante. Foi necessário fazer aqui uma gestão muito difícil, entre aquilo que seriam as necessidades de reserva de água a montante, mas também existem necessidades a jusante. E para isso há um papel determinante da Agência Portuguesa de Ambiente, que fez aqui esta ponte, nesta gestão muito difícil. De facto foi muito bem conseguida, porque não só continuámos a garantir a reserva de água, como falou há pouco, importantíssima para o abastecimento da Lisboa, como também a necessidade muito pontual de produção de energia elétrica, porque também havia déficit de produção hídrica nesse período. Bem como também aquilo que foram os lançamentos para a jusante, para garantir também alguma continuidade fluvial, nomeadamente em complemento ao rio Tejo.
Ou seja, quem passa aqui, não conhecendo o funcionamento, não percebe que há aqui muito trabalho de planeamento e de gestão, que não é só ligar ou desligar o botão de produzir eletricidade?
Precisamente. E só esse processo de ligar e desligar tem complexidade associada, portanto é evidente que estamos aqui com um mural de 75 anos. A física de produção de energia elétrica mantém-se, mas houve um processo muito grande de modernização dos equipamentos. Apesar disso parecer simples, tem a sua complexidade. Mas todo o planeamento, toda esta lógica de primeiro um encontro nesse mercado ibérico de eletricidade, por sua vez a própria REN, enquanto operadora da rede de transporte, também tem necessidades pontuais, pode mandar arrancar a central, depois há estas contingências da seca, a contingência também dos caudais elevados, portanto é tudo aqui um conjunto de fatores, que obviamente estão suportados num conjunto de regras. As regras de exploração dão uma linha de orientação, mas depois naturalmente com várias entidades, nomeadamente a Autoridade, a Agência Portuguesa de Ambiente, há ajustes a esses planos que estão estabelecidos.

Estamos no inverno, vem uma tempestade grande (Ingrid), a cota ainda está confortável, mas há essa preocupação, principalmente por eventuais descargas, sabendo que depois a água do Castelo de Bode entra Tejo. E o Tejo tem também a montante, um conjunto de hídricas portuguesas e espanholas. Portanto, há o planeamento e a gestão dos imprevistos?
Neste momento temos uma cota bastante confortável, aliás há uma cota da albufeira que difere entre o verão e o inverno, naturalmente no inverno ela é mais baixa, precisamente para podermos acomodar maiores afluências. Naturalmente que é um aspeto muito importante, não só a monitorização da cota atual, mas também com as previsões daquilo que são as afluências. Uma coisa é sabermos aquilo que chove, e outra coisa é aquilo que se traduz nas afluências.
E nos últimos anos tem havido um desenvolvimento bastante significativo nesta matéria, ainda não é uma ciência absoluta, mas apoia de sobremaneira toda esta gestão. Como eu disse há pouco, existem normas que estão muito bem estabelecidas, naturalmente ao longo destes anos e com base nas experiências de fenómenos de grande afluência foram sendo ajustadas, mas essa é a nossa linha de atuação.
Quer aqui localmente na central, quer pelo facto desta central ser telecomandada a partir de um centro que está neste momento situado no Porto, juntamente com todas as outras barragens de EDP, há aqui uma monitorização sempre contínua daquilo que são as afluências e tudo aquilo que é depois o momento em que se determina que se comece a preparar primeiramente os descarregamentos e depois a efetivá-los.
E isto sempre, e é importante que as pessoas saibam, mais uma vez, mesmo tendo na base regras bem estabelecidas, há depois um alinhamento de grande coordenação, quer com a APA, quer com a Proteção Civil, porque é evidente que temos de fazer toda essa gestão.
Vou utilizar uma metáfora: há alguns anos as pessoas de Constância vinham aqui bater à porta, para saber quando e quais os valores das descargas. Isto ainda acontece?
Usando a metáfora, não temos tido pessoas a bater à porta. De forma geral a população começa a ficar cada vez mais atenta, até porque estes avisos de tempestade que falou há pouco são difundidos, portanto, há aqui uma perceção geral muito mais próxima destes fenómenos atmosféricos, como sabemos, por vir das alterações climáticas, tendem a ser cada vez mais intensos.
Durante anos falamos, talvez pouco das hídricas. A 28 de abril do ano passado voltámos a ter as barragens, e concretamente o Castelo de Bode, na ordem do dia por via do apagão e por via de ter sido aqui, digamos, o ponto de arranque de todo o sistema. Foi um dia, foram dias, muito difíceis?
Pode-se dizer que foi um grande desafio. É evidente que a Central tecnicamente está preparada para apostar esse serviço, mas...
... uma coisa são os exercícios e as simulações, outra coisa é acontecer na realidade’
E aí vem ao de cima aquilo que são as competências das pessoas que operam as máquinas, que estão preparadas para desempenhar esse serviço, mas que precisam de pessoas altamente competentes. Eu próprio estive, tive a oportunidade de acompanhar aqui o desempenho da equipa da central de Castelo de Bode e naturalmente também com o apoio de outros colegas, na reposição que foi fundamental para o restabelecimento de energia ao país, que começou exatamente por aqui. E naturalmente também teve aqui um papel absolutamente extraordinário das equipas, das empresas que fazem a gestão da rede nacional de transporte e da rede de distribuição.
Têm a noção do tráfego que passa aqui por cima?
Não, não temos essa contabilização, mas foi também obviamente uma das conquistas deste empreendimento, foi exatamente a possibilidade de passar entre os dois concelhos. Há períodos de grande afluência pelo menos ao coroamento. É realmente uma paisagem lindíssima, é uma obra muito imponente, só sei que é um lugar muito querido quer das pessoas da região, quer com muitos visitantes.
Deixe-me fazer-lhe uma outra pergunta que tem a ver com o turismo. Há implicações no tráfego de barcos com a própria barragem? Há uma zona limite, mas... é respeitada?
Não há qualquer influência. A área de segurança está devidamente balizada e não temos tido episódios de pessoas inconscientes que queiram ultrapassar, porque não existe um perigo iminente. Mas existem, obviamente, riscos. A Barragem está delimitada e, portanto por nunca a devem ultrapassar.
Uma última pergunta. Se a central estiver parada quanto tempo é que demora, após carregar no botão, a termos eletricidade a sair aqui?
No máximo em 10 minutos.
Entrevista a João Baltazar, diretor de Operações e Manutenção de Ativos da EDP
