A Comissão de Moradores de Árgea mantém a oposição à instalação da unidade de produção de biometano prevista para aquela localidade do concelho de Torres Novas e admite recorrer aos tribunais caso o projeto venha a receber luz verde. Os moradores garantem que não estão contra a produção de biometano, mas consideram que a localização escolhida coloca a unidade demasiado próxima das populações.
O projeto, promovido pela empresa Gás da Terra, prevê uma unidade industrial para valorização de resíduos orgânicos e efluentes pecuários, com capacidade para tratar cerca de 98 mil toneladas por ano, perto de 270 toneladas por dia, e produzir aproximadamente 6,5 milhões de metros cúbicos de biometano.
À Antena Livre, Ricardo Simões, da Comissão de Moradores de Árgea, deixa claro que a contestação não é dirigida às energias renováveis ou à tecnologia utilizada, mas ao local escolhido para instalar a unidade.
«Nós não somos contra o biometano e as energias renováveis (...) somos contra fundamentalmente a localização da unidade.»
Segundo os moradores, existem habitações a pouco mais de 200 metros da área prevista para o projeto, além de várias localidades nas proximidades e da própria cidade do Entroncamento. A proximidade às populações, o tráfego de veículos pesados, os eventuais odores, as emissões atmosféricas e os possíveis impactos nos recursos hídricos estão entre as principais preocupações apresentadas pela comissão. A proximidade às habitações e os constrangimentos rodoviários foram também levantados noutras intervenções públicas sobre o projeto.
Ricardo Simões chama particularmente a atenção para o volume de resíduos que terá de chegar diariamente à unidade e para as condições das estradas existentes.
«Estamos a falar de uma instalação que vai precisar de 270 toneladas de resíduos por dia (...) os acessos são difíceis, as estradas são estreitas.»
O projeto tem origem num Pedido de Informação Prévia aprovado pela Câmara de Torres Novas em maio de 2025, mas a localização tornou-se entretanto alvo de forte contestação social e política. Em junho deste ano, a Assembleia Municipal aprovou por unanimidade três moções contra a instalação da unidade em Árgea.
Também a Câmara de Torres Novas, já com José Trincão Marques na presidência, considerou que o projeto atualmente em avaliação não tem enquadramento no Plano Diretor Municipal para a localização proposta, apontando ainda problemas relacionados com as acessibilidades.
O processo passou por consulta pública no âmbito da avaliação de impacte ambiental, que registou uma forte participação. A Comissão de Moradores espera agora que a decisão ambiental inviabilize a localização.
«A nossa expectativa é que o estudo de impacto ambiental venha chumbado ou com condicionantes.»
Mas a contestação poderá não terminar com a decisão ambiental. Ricardo Simões garante que, caso o projeto obtenha uma decisão favorável que permita prosseguir com a instalação em Árgea, a comissão admite recorrer à Justiça.
«Caso a decisão não nos seja favorável, [estamos] a pensar recorrer aos tribunais e impugnar a decisão.»
Ricardo Simões, comissão oradores Árgea
A mobilização contra a localização da unidade tem incluído petições, abaixo-assinados, ações públicas e contactos com autarquias e outras entidades. A contestação recebeu também o apoio da Quercus, que pediu uma Declaração de Impacte Ambiental desfavorável, apontando preocupações relacionadas com os recursos hídricos, saúde pública e ordenamento do território.
A Comissão de Moradores garante que vai continuar a promover iniciativas enquanto não existir uma decisão definitiva sobre o projeto, defendendo que uma unidade desta dimensão deve ficar afastada das zonas habitacionais.