Breve enciclopédia dos dois mandatos do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com um nome por letra, de A a Z.
A – ANTÓNIO COSTA
Primeiro-ministro, seu antigo aluno, que chefiou três governos do PS (dois com apoio dos partidos mais à esquerda no parlamento, BE, PCP e PEV), com quem coabitou 2.947 dias, formando uma dupla que, nas suas palavras, marcou "um ciclo na história portuguesa". Sobre esse período, comentou, mais tarde: "Éramos felizes e não sabíamos". No fim dos seus mandatos, na sua última deslocação ao estrangeiro, reencontraram-se para um "adeus institucional" em Bruxelas, onde António Costa exerce o cargo de presidente do Conselho Europeu.
B – BANHOS
Hábito que já tinha antes de ser Presidente e manteve nos dez anos em funções, nos mais variados lugares do país e do estrangeiro, desde a Baía de Cascais, junto à sua casa, às praias da Areia Branca, perto de Díli, Coconuts, em Luanda, e de Copacabana, no Rio de Janeiro. Nadou até no Lago Paranoá, em Brasília, o que o Presidente do Brasil, Lula da Silva, desaconselhou a repetir, por causa dos jacarés. Percorreu as praias fluviais do interior de Portugal atingido pelos fogos. No Algarve, trocou a Quinta do Lago pela Praia de Monte Gordo e ficou célebre um momento na Praia do Alvor em que foi em socorro de duas jovens banhistas.
C – COVID-19
Doença respiratória contagiosa causada pelo coronavírus SARS-CoV-2 que se tornou pandémica em março de 2020 e causou mais de 20 mil mortes em Portugal até 2022. Por causa da pandemia, que alterou substancialmente a sua agenda, o Presidente da República declarou 15 vezes o estado de emergência em Portugal, falou sucessivas vezes ao país e participou em 26 reuniões periódicas com especialistas em saúde e responsáveis políticos no Infarmed, em Lisboa, de cujas conclusões foi várias vezes o porta-voz. "Se não tem havido a pandemia, eu não me candidatava [a um segundo mandato]", viria a dizer, em 2022.
D – DISSOLUÇÃO
Poder constitucional que usou três vezes, igualando o antigo Presidente Ramalho Eanes. Decretou a primeira dissolução da Assembleia da República em dezembro de 2021, na sequência do chumbo do Orçamento do Estado apresentado pelo Governo do PS. A segunda foi desencadeada logo após António Costa se demitir de primeiro-ministro, por causa de uma investigação judicial, num quadro parlamentar de maioria absoluta do PS, e decretada em janeiro de 2024. A terceira foi em março de 2025, quando o Governo PSD/CDS-PP caiu no parlamento pela rejeição de uma moção de confiança apresentada no contexto de uma polémica sobre uma empresa da família do primeiro-ministro, Luís Montenegro.
E – ENCONTROS NO PALÁCIO
Programas que lançou ao assumir chefia do Estado, em 2016, com 13 edições até 2026, que levaram a Belém dezenas de escritores, cientistas, jornalistas, desportistas, artistas plásticos, músicos, personalidades ligadas ao mar e personalidades femininas para falar com turmas de alunos de escolas de vários pontos do país, em sessões de cerca de uma hora, às quais assistiu sempre que possível, sentado na última fila da sala, incentivando os jovens a aproveitarem aquela "oportunidade única" de diálogo com figuras nacionais.
F – FUTEBOL
Desporto a que mais se associou nos seus mandatos, com presença assídua nos jogos da seleção nacional de futebol masculino e comentários na zona de entrevistas rápidas. No estrangeiro, foi ver jogos em França – onde festejou em 10 de julho de 2016 a vitória de Portugal no Campeonato da Europa, com um golo de Éder, no prolongamento, contra a equipa anfitriã – e também na Rússia, na Hungria, no Qatar, em Espanha, no Luxemburgo e na Alemanha. No primeiro ano de mandato entregou ao "seu" Sporting Clube de Braga a segunda Taça de Portugal da história do clube, 50 anos depois da primeira.
G – GÉMEAS:
Nome pelo qual ficou conhecido o caso de duas crianças luso-brasileiras com atrofia muscular espinal tratadas no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, com um medicamento que era dos mais caros do mercado, divulgado por reportagens da TVI em novembro 2023. O chefe de Estado confirmou que o seu filho, Nuno Rebelo de Sousa, o tinha contactado por email sobre este caso, ao qual afirmou ter dado o despacho "mais neutral", e acabou a criticá-lo em público, referindo que estavam de relações cortadas. O tema permaneceu na agenda mediática até 2025 através de uma comissão parlamentar de inquérito constituída por imposição do partido Chega.
H – HÉRNIA
Condição patológica que motivou três cirurgias no decurso dos seus dez anos como Presidente. Em 2017 foi operado de urgência a uma hérnia umbilical no Hospital Curry Cabral, em Lisboa; em 2021 foi operado a duas hérnias inguinais no Hospital Forças Armadas, em Lisboa; e em 2025 a uma hérnia abdominal no Hospital de São João, no Porto. Foi ainda submetido a um cateterismo cardíaco, em 2019, e teve dois episódios de breve hospitalização por indisposição, em 2018 e 2023, um dos quais atribuiu à mistura de "um moscatel quente" com Fortimel, suplemento nutricional que consome habitualmente.
I – INCÊNDIOS
Catástrofes que em junho e em outubro de 2017 fizeram, no seu conjunto, mais de cem mortos na região centro de Portugal e que marcaram a sua presidência. Passou dias no terreno, exigiu ação urgente ao Governo, sugeriu mudanças de equipas e comunicou que se houvesse uma nova tragédia semelhante "isso seria, só por si, impeditivo de uma recandidatura" sua a um segundo mandato.
J – JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE (JMJ):
Encontro católico em que participou duas vezes, a primeira em janeiro de 2019, na Cidade do Panamá, onde celebrou o anúncio aí feito pelo Papa Francisco de que a próxima edição seria em Lisboa, num vídeo que ficou famoso: "Esperávamos, desejávamos, conseguimos". O Presidente, católico, revelou ter "uma grande vontade" de se recandidatar também por causa desse acontecimento. Em agosto de 2023, acompanhou o Papa na JMJ de Lisboa, que qualificou como "um grande sucesso para Portugal".
L – LIVROS
Bem cultural que promoveu com presenças constantes nas feiras do livro de Lisboa e do Porto, todos os anos, e com uma Festa do Livro no Palácio de Belém, uma iniciativa sua, em colaboração com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), que segundo a Presidência da República teve 170 mil visitantes no conjunto das oito edições, do verão de 2016 ao verão de 2025 – com um interregno em 2020 e 2021 devido à covid-19. Nos jardins do palácio, além de bancas para venda de livros e sessões de autógrafos de autores, houve debates, cinema, música e atividades para crianças, com entrada gratuita. "Apostei na leitura e essa foi uma aposta ganha", declarou, no fim da última edição.
M – MAR'SELFIE'
Palavra que entrou no dicionário durante os seus mandatos, um neologismo que surgiu das incontáveis 'selfies' que Marcelo Rebelo de Sousa tirou enquanto Presidente, a pedido das pessoas ou por sua sugestão, a sós ou em grupo, em quase todos os lugares por onde passou: com militares portugueses em Cabul, refugiados na Grécia, no bairro Jamaica, no Seixal, com emigrantes em Andorra e por todo o mundo, na Mesquita Central de Lisboa durante o Ramadão, com turmas de alunos e equipas de desportistas, na praça central do Centro Comercial Colombo, na Ovibeja ou na Web Summit. Uma das suas últimas 'selfies' foi com os membros do segundo Governo PSD/CDS-PP chefiado por Luís Montenegro, na residência oficial do primeiro-ministro.
N – NOITE:
Período que escolheu para anunciar o seu primeiro veto, perto da meia-noite, ao fim de três meses no cargo, a um diploma do parlamento sobre gestação de substituição – apenas um exemplo da sua maior atividade em horários tardios por comparação com os seus antecessores, que incluiu longas caminhadas noturnas. Na noite de 07 de novembro de 2023, dia da demissão de António Costa de primeiro-ministro, fez um enigmático passeio a pé, em Belém, acompanhado por repórteres de televisões, até ao Beco do Chão Salgado, em que recordou a execução pública dos Távoras, no século XVIII, por alegada tentativa de morte do rei D. José I.
O – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU):
Organização fundada em 1945, a que Portugal aderiu em 1955, da qual viu o seu amigo de juventude e antigo primeiro-ministro António Guterres ser eleito secretário-geral no seu primeiro ano como Presidente, 2016, com funções iniciadas em 01 de janeiro de 2017, e reconduzido até ao fim de 2026 – mandatos quase totalmente coincidentes com os seus. Na política externa, Marcelo foi um defensor do multilateralismo, da ação e das prioridades de Guterres e do papel da ONU, onde discursou em 2016, 2018, 2019, 2021, 2023 e 2025 no debate geral anual entre líderes dos seus 193 países membros.
P – PARIS:
Cidade onde estreou, em 2016, um formato inédito de comemorações do 10 de Junho junto de emigrantes e lusodescendentes no estrangeiro – para além da cerimónia em território nacional – em parceria com o então primeiro-ministro, António Costa. Dessas comemorações ficou o registo dos dois abrigados sob o mesmo guarda-chuva na festa da Rádio Alfa. O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas foi depois comemorado no Brasil, nos Estados Unidos da América, Cabo Verde, Reino Unido e África do Sul. O modelo prosseguiu, nos últimos anos, com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, na Suíça e na Alemanha.
Q – QUATROCENTOS
Número aproximado de testemunhos de abusos sexuais contra crianças na Igreja Católica Portuguesa recolhidos por uma comissão independente, que numa primeira reação disse que não o surpreendia e não lhe parecia "particularmente elevado", tendo em conta o universo temporal abrangido, o número de católicos portugueses e os casos noutros países – comentário que suscitou críticas imediatas da esquerda à direita e gerou polémica. O Presidente negou ter desvalorizado as queixas e acabou por desculpar-se perante as vítimas de abusos sexuais, "se porventura entenderam, uma que seja das vítimas, que está ofendida".
R – RECANDIDATURA:
Decisão que inicialmente remeteu para o verão de 2020 e foi adiando até ao fim desse ano, prolongando a dúvida, embora houvesse uma expectativa generalizada de que iria concorrer a um segundo mandato. Foi abordando o tema, apontando prós e contras. Em 07 de dezembro, a 48 dias das eleições presidenciais, anunciou finalmente que se recandidatava a Presidente da República porque nunca sairia a meio de uma "caminhada exigente e penosa" e prometeu unir os portugueses para vencer a crise provocada pela pandemia de covid-19. Foi o anúncio mais tardio de uma recandidatura presidencial, feito numa pastelaria perto do Palácio de Belém, onde cinco anos antes tinha tido a sua sede de campanha.
S – SEM-ABRIGO
Causa que assumiu desde o primeiro inverno do seu mandato, com ações de sensibilização e apoio às pessoas nessa situação. Esteve nas ruas durante a noite, visitou centros de acolhimento, distribuiu refeições, ajudou a vender a revista Cais e promoveu reuniões de trabalho com associações, autarcas e governantes para pressionar a atuação do poder político nesta matéria. Em 2017, definiu como meta a erradicação deste problema até 2023. No entanto, com o surgimento da pandemia de covid-19, afastou a possibilidade de se cumprir esse objetivo.
T – TRUMP
Presidente dos Estados Unidos da América cujos mandatos, entre 2017 e 2021, e a partir de 2025, atravessaram os seus. Marcelo encontrou-se com Donald Trump em 2018, na Casa Branca, em Washington – e cumprimentou-o à chegada com um vigoroso aperto de mão, com puxão –, mas distanciou-se dele e criticou-o sistematicamente pelas posições protecionistas e isolacionistas, em relação às migrações e ao clima, e mais recentemente pela aproximação à Rússia e distanciamento do espaço europeu. Considerou mesmo que Trump tem funcionado como "um ativo soviético ou russo".
U – UCRÂNIA
País onde esteve em agosto de 2024, durante dois dias, a convite do Presidente Volodymyr Zelensky, por ocasião do 32.º aniversário da independência deste país, com passagens por Kiev, Bucha, Moshchun, Irpin e Horenka, em sinal de apoio aos ucranianos na guerra contra a Federação Russa, um conflito na Europa que se estendeu pelos últimos quatro anos da sua presidência e que perdura. Em 24 de fevereiro de 2022, quando forças russas invadiram território ucraniano, Marcelo Rebelo de Sousa condenou a "violação ostensiva e flagrante do direito internacional" e realçou a disponibilidade de Portugal para uma participação "muito significativa" de meios militares em missões da NATO "numa função de dissuasão".
V – VIAGENS
Deslocações que fez ao estrangeiro enquanto Presidente. Foram 175 no total – entre as quais 21 visitas de Estado –, contabilizando todas as deslocações, desagregadas por país, incluindo para eventos desportivos e culturais, posses e cerimónias fúnebres, cimeiras e reuniões internacionais e visitas a forças nacionais destacadas. Foi recebido, entre outros, pela rainha do Reino Unido Isabel II, no Palácio de Buckingham, e teve um encontro com o líder histórico cubano Fidel Castro, em Havana. A primeira visita de Estado foi a Moçambique, país a que chama "segunda pátria", onde o seu pai, Baltazar Rebelo de Sousa, foi governador-geral (1968-1970) no período colonial. Os seus primeiros destinos nos dois mandatos foram o Vaticano e Espanha, por esta ordem, no mesmo dia.
X – XENOFOBIA
Fenómeno social para o qual alertou desde que iniciou funções e contra o qual discursou dezenas de vezes, associando-o ao crescimento global dos populismos, radicalismos e hipernacionalismos. Declarou "guerra sem fim e sem quartel" a todas as formas de discriminação, apelou à tolerância, advertiu para não se deixar espaço às contestações inorgânicas, associou a onda anti-imigração ao predomínio da emoção sobre a razão e afirmou que "não há portugueses puros".
Z – ZERO
Número de vezes que promete falar de política no futuro, como ex-Presidente da República. Marcelo, que fez comentário político quase toda a vida, confessou que alguns amigos seus duvidam que seja capaz de ficar em silêncio, acreditam que vai ser "sol de pouca dura" e "até queriam fazer apostas de jantares e de almoços" sobre isso, mas manifestou-se convicto de que essa resolução "vai durar".
Lusa