Há cerca de um ano, dez dos 14 comandantes dos corpos de bombeiros da sub-região do Médio Tejo manifestaram, em Carta Aberta, a sua preocupação com a anunciada intenção de alteração do modelo organizativo da Proteção Civil. A carta, enviada a várias entidades, incluindo ao ministro da Administração Interna, expressa as preocupações sobre a eventual alteração ao modelo organizativo da Proteção Civil, defendendo as mais valias do modelo vigente.
Agora, como o tema ainda continua em cima da mesa, os 10 comandantes voltaram a relembrar a carta enviada e afirmam “não conseguir compreender o porquê de se continuar a insistir em «nivelar por baixo» o sistema de proteção e socorro em Portugal continental (isto tendo por base algumas referências ao que «correu mal» em alguns territórios, ou do próprio funcionamento da Autoridade Nacional de Proteção Civil)”.
Isso mesmo foi explicado à Antena Livre por Jorge Gama, comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova da Barquinha, um dos subscritores da carta aberta. Justificou que “com esta tentativa e estas notícias que vêm a público, de acabar com os comandos sub-regionais, nas conversas que vamos tendo, é porque em alguns sítios o sistema não funciona. Então, nós achamos que estamos a nivelar por baixo”. Adiantou que, se funciona nuns e não funciona noutros sítios, - “no caso do Médio Tejo funciona e há muitas sub-regiões onde isto funciona, partimos do princípio que onde não funciona ou funciona menos bem, o problema não será do sistema, será das pessoas. Se querem que nós tenhamos agora um retrocesso nesta situação, estão a nivelar por baixo, porque nós sentimos melhorias significativas quando passámos para as sub-regiões”.
Jorge Gama, comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova da Barquinha
Questionam os comandantes acerca da razão de “não explorar e analisar onde possa ter corrido bem, o porquê de ter corrido dessa forma, e o que pode ser feito para replicar por outros locais do país onde poderá ter corrido menos bem”.
Esta é uma posição defendida igualmente por Nuno Morgado, comandante dos Bombeiros Municipais de Sardoal e também subscritor da carta. A respeito da razão do tema voltar à ordem do dia, disse que “se tornou oportuno voltarmos a assumir este tema, até porque têm vindo a público algumas notícias, veiculadas em alguns órgãos de comunicação social, provindos de informações que vêm dos responsáveis políticos da área da proteção civil, em que, primeiramente, irão ouvir os corpos de bombeiros, mas quem ouve as suas palavras entende que essa decisão já está tomada. Parece-nos a nós que a mesma poderá ser extemporânea, mesmo que seja falado que será depois do verão, e aquilo que nós tentamos mostrar nesta carta, que é a nossa opinião, do conjunto que assumiu essa ideia também, precisamente há um ano, é de que, mais do que criticar onde, eventualmente, as coisas terão corrido menos bem, em alguns locais do país, porque não agarrar nos locais onde poderá ter corrido bem, ver o porquê de ter corrido dessa forma, ver a forma de trabalhar nesses locais e, porque não, tentar adotar essa estratégia, ou essa tipologia de trabalho, nesses locais, para tentar replicar estas situações”.
Nuno Morgado, comandante dos Bombeiros Municipais de Sardoal
Por outro lado, e acerca das acusações de falhas de comando e coordenação, os comandantes também referem que “importa reforçar que onde algo corre ou correu mal, ou as pessoas/comandos não cumpriram/desempenharam corretamente as suas funções”, que algumas entidades que se dizem representativas do setor, “tenham a coragem de fazer as referências pelos nomes e locais”.
Escrevem que “os visados, por certo, não terão qualquer problema em assumir tal responsabilidade das decisões que foram, ou não, tomadas. Agora, não podemos compreender, de todo, como alguns elementos de comando de corpos de bombeiros, espalhados pelo País, aceitam que alguém tente imputar culpas únicas «ao homem de azul», quando sabem que são eles próprios a assumir a quase totalidade das decisões e responsabilidades técnico-operacionais pelo que foi,ou não foi, feito nos territórios e nas ocorrências. Na realidade, todas estas críticas, nesses casos e a serem verdade, deveriam ser assumidas por eles, ou, porventura ao serem falsas ou infundadas, virem a público criticar quem os criticou a eles (designadamente os ditos "representantes")... Ainda mais, sabendo que essas críticas apenas têm como objetivo "deitar abaixo" o sistema atual, para que eles próprios (os ditos "representantes"), com o eventual suporte dos atuais responsáveis governativos, possam criar e ocupar um "novo" sistema”.
A este respeito, Jorge Gama afirmou que“ todas as críticas nos grandes teatros de operações que são importadas à estrutura da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, são injustas. Isto porque quem está no terreno sabe que os comandos operacionais no terreno são compostos na maioria por comandantes de bombeiros, todas as células que compõem um posto de comando estão a ser operacionalizadas por comandantes de bombeiros. Portanto, achamos altamente injusto que se diga, quando alguma coisa corre menos bem, que a culpa é do elemento da ANEPC, da farda azul que lá está, que apenas é um coordenador da equipa de posto de comando”.
Já Nuno Morgado assumiu que “não consigo estar parado a ouvir algumas das afirmações que são proferidas por algumas das entidades públicas, de entre elas o próprio Governo, de uma forma mais recatada, ou através, por exemplo, da Liga dos Bombeiros Portugueses, em que os mesmos fazem essas referências aos locais onde correu menos bem, onde houve problemas, e assumindo isto como sendo uma única responsabilidade por parte daquilo que são os responsáveis da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, como sendo eles os únicos responsáveis por tudo aquilo que tem estado a acontecer, ou que aconteceu no passado, designadamente no passado verão de 2025. Eu assumo as minhas responsabilidades. Cada vez que sou eu que estou responsável por alguma ação, seja ela através das salas de comando e controlo da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, as salas do Comando Sub-Regional, quer seja na assunção de funções de comandante das Operações de Socorro, oficial de Operações, coordenador de Equipas de Posto de Comando... eu não consigo passar ao lado daquilo que são as responsabilidades que me estão acometidas por lei, e eu assumo-as. E e é isso que nós queremos aqui mostrar. Eu não consigo aceitar que haja críticas demasiado focalizadas nos elementos da Autoridade, - por certo houve problemas - mas não consigo acreditar que são eles os únicos responsáveis e que ninguém venha por trás também assumir essa responsabilidade”.
Pedro Jana, comandante dos Bombeiros Voluntários de Mação, contactado pela Antena Livre, não quis esclarecer se teria ou não mudado de ideias, mas confirmou, no entanto, que “desta vez, nem sequer fui ouvido”.
Quanto à posição de Marco Gomes, comandante dos Bombeiros Voluntários de Constância, até à hora em que publicamos, não conseguimos apurar nem entrar em contacto.
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