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Reportagem: Em Cem Soldos, muitos vêm pelos Bons Sons e ficam pela aldeia

6/08/2026 às 18:52
Fortos: Antena Livre/Marina Gonçalves

As ruas estreitas de Cem Soldos começaram a encher-se hoje de visitantes que procuram no Festival Bons Sons algo mais do que música.

Longe das multidões compactas e dos extensos recintos vedados característicos dos grandes festivais de verão, o Bons Sons volta a transformar a aldeia de Cem Soldos numa espécie de comunidade temporária, onde moradores, voluntários e festivaleiros convivem nas mesmas ruas e praças durante quatro dias.

Entre as bancas da feira instalada no centro da aldeia está Maria João Henriques, que acompanha mais uma edição do Festival Bons Sons.

Presença habitual no festival desde 2017, a feirante tem assistido ao crescimento do evento sem que este tenha perdido, na sua opinião, as características que o tornaram distinto no panorama dos festivais portugueses.

Ao longo do dia, entre a azáfama do seu espaço de venda e o movimento constante de festivaleiros, a feirante observa sucessivas gerações a ocupar as ruas da aldeia.

Pais com filhos pequenos, grupos de amigos e visitantes habituais cruzam-se num ambiente que continua a ser um dos mais “inclusivos e familiares” que encontra nos eventos onde participa.

"Estamos aqui nas ruazinhas da aldeia. Acho que isso faz toda a diferença", afirmou, destacando também a experiência de assistir à transformação temporária de uma aldeia com 700 habitantes “num centro cultural” que atrai visitantes de várias regiões do país.

Para Maria João Henriques, é precisamente essa integração do território que ajuda a distinguir o evento de muitos outros festivais: “As pessoas andam sempre de um lado para o outro entre os concertos e as atividades, mas continuamos a sentir que estamos numa aldeia. As pessoas convivem todas no mesmo espaço e isso faz diferença”.

Logo pela manhã, as ruas estreitas da aldeia transformam-se em corredores de circulação lenta, onde a passagem entre concertos é interrompida por conversas, compras em bancas ou simples paragens à sombra nas zonas de descanso espalhadas pelo percurso.

Foi precisamente essa atmosfera que trouxe este ano a Cem Soldos o casal Leonel e Sofia, oriundo de Ovar, que decidiu estrear-se no festival acompanhado pelos filhos.

Apesar da curiosidade em relação ao cartaz, o casal garante que a principal motivação para a viagem foi a experiência proporcionada pelo festival.

"Não é o cartaz que nos move. É o festival em si, o espírito do festival e a envolvência", explicou Leonel à Lusa.

Nas primeiras horas de permanência em Cem Soldos, os dois visitantes garantem ter encontrado aquilo que procuravam: “Um ambiente descontraído, seguro e adequado para famílias com crianças”.

O campismo, as atividades destinadas aos mais novos e a possibilidade de circularem com relativa liberdade foram alguns dos aspetos mais valorizados pelo casal.

"Há concertos e atividades para crianças e isso interessa-nos muito. Eles têm liberdade, andam à vontade e está tudo certo", resumiu.

A integração da aldeia na organização do festival foi outro dos aspetos que mais chamou a atenção ao casal. À chegada, recordou Leonel, encontraram crianças da própria localidade a ajudar visitantes com indicações sobre os vários espaços do recinto.

Também a aposta exclusiva na música portuguesa é vista como um fator distintivo. Apesar de conhecerem apenas alguns dos artistas do cartaz, Leonel e Sofia consideram que o modelo permite descobrir novos projetos musicais e valorizar a produção nacional.

Para o casal, é precisamente essa combinação entre “identidade portuguesa” e “ambiente comunitário” que distingue o Bons Sons de muitos outros festivais de verão.

"Chegámos ontem à noite, mas sentimo-nos em casa. Não tens aqui a massificação dos festivais de verão”, referiu Leonel.

A mesma ideia é partilhada por Rafael, de Coimbra, que regressou este ano ao Bons Sons após uma primeira visita há cerca de quatro anos.

Embora admita que o cartaz seja um dos atrativos, garante que a decisão de comprar bilhete foi tomada antes mesmo de serem conhecidos os artistas da edição deste ano.

"Comprámos o bilhete um bocado às cegas. Viemos pelo festival em si, a música depois é o complemento", afirmou.

Na sua opinião, a dimensão reduzida do recinto e a "proximidade entre visitantes" contribuem para uma experiência mais confortável do que aquela proporcionada pelos grandes festivais de verão.

"Não andas a correr atrás de concertos e artistas, como naqueles festivais grandalhões. Aqui consegues gerir o dia de forma tranquila", afirmou.

Ao seu lado, Andreina vive este ano a primeira experiência no Bons Sons e diz que as expectativas foram rapidamente ultrapassadas.

"Está a superar. Estou apaixonada", afirmou à Lusa.

A visitante destaca sobretudo a forma como a população local acolhe quem chega a Cem Soldos.

"É bonito ver como as pessoas de cá cedem o seu espaço, as suas casas e as suas ruas. Nota-se que há muita coordenação e faz-nos sentir que não estamos a invadir, mas que estamos a ser recebidos pela aldeia", afirmou.

Para Andreina, é precisamente essa relação entre comunidade e festival que distingue o Bons Sons de eventos realizados em grandes recintos urbanos.

"O facto de ser na aldeia é diferente. É único", resumiu.

Entre debates sobre liberdade de criação artística, diversidade no espaço público, futuro das comunidades e cultura, a programação estende-se igualmente às áreas da reflexão e da cidadania, mantendo uma das características que distinguem o Bons Sons de outros festivais centrados exclusivamente na oferta musical.

Enquanto os concertos se preparam para ganhar intensidade ao longo dos próximos dias, em Cem Soldos a experiência parece já ter começado. Entre as ruas da aldeia, onde moradores e visitantes partilham os mesmos espaços, repete-se uma ideia comum aos festivaleiros ouvidos pela Lusa: mais do que vir pelos artistas, muitos chegam para viver um modelo de festival diferente daquele que encontram nos grandes eventos de verão.

Júlio Rendeiro, da agência Lusa

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