A associação ambientalista Quercus manifesta preocupação com a instalação de dois centros de dados de grande dimensão no concelho de Abrantes e alerta para os impactos cumulativos dos projetos ao nível do consumo de energia e água, ocupação do solo e ambiente. A associação exige estudos de impacto ambiental antes do avanço dos empreendimentos e chama a atenção para a situação de escassez hídrica na bacia do Tejo.
A Quercus veio esta quarta-feira manifestar preocupação depois de a Câmara Municipal de Abrantes ter dado parecer favorável, por unanimidade, ao Pedido de Informação Prévia (PIP) para a instalação de um segundo grande centro de dados no concelho, promovido pelo grupo Hyperion.
Segundo a associação ambientalista, o projeto previsto para a zona da rotunda de Alvega terá cerca de 151 mil metros quadrados de área de implantação e 287 mil metros quadrados de área de construção, estando anunciada uma ligação elétrica de 200 MVA ao futuro posto de corte do Pego.
O empreendimento foi classificado como Projeto de Interesse Nacional (PIN), estatuto que permite acelerar procedimentos.
Para a Quercus, trata-se de um projeto de dimensão excessiva para o território onde se pretende instalar, com potenciais impactos ambientais, hídricos e territoriais. A associação defende, por isso, a realização de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) como condição prévia para um eventual licenciamento.
Dois projetos fazem aumentar preocupação
A Quercus recorda que Abrantes tem já em desenvolvimento outro centro de dados de grande dimensão, promovido pela empresa EDC PORT ONE e previsto para os terrenos da antiga RPP Solar, próximos da Central do Pego.
A coexistência dos dois projetos, ambos dependentes de ligações à rede elétrica na zona do Pego, leva a associação a alertar para a necessidade de avaliar os seus impactos cumulativos, nomeadamente sobre os recursos naturais, solos agrícolas e florestais, paisagem e ordenamento do território.
É ao nível energético que a Quercus apresenta alguns dos números mais expressivos. De acordo com os cálculos da associação, os valores anunciados correspondem a 20 MW para o projeto de Alvega e 300 MW para o EDC PORT ONE do Pego.
A organização ambientalista reconhece que se trata de potência máxima disponível e que isso não significa que os equipamentos funcionem permanentemente à capacidade total.
Ainda assim, calcula que, num cenário de utilização média de apenas 30% da potência instalada, os dois projetos possam atingir um consumo conjunto de cerca de 841 GWh por ano, aproximadamente 5,7 vezes o consumo anual de eletricidade de todo o concelho de Abrantes em 2024, que a Quercus situa nos 148,8 GWh.
Num cenário de funcionamento à plena capacidade, o consumo poderia aproximar-se dos 2,8 TWh anuais, quase 19 vezes o atual consumo anual do concelho.
Escassez de água no Tejo preocupa ambientalistas

A água é outra das principais preocupações levantadas pela Quercus. A associação aponta para o diagnóstico da Agência Portuguesa do Ambiente relativo à Bacia Hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste para o período 2028-2033, que indica um índice de escassez hídrica de 40% no rio Tejo.
É neste contexto, sublinha a associação, que se pretende instalar uma nova infraestrutura industrial potencialmente intensiva no consumo de água.
A Quercus pretende também uma análise independente dos efeitos dos projetos sobre o rio Tejo, recordando que, segundo os dados que cita, cerca de 60% das massas de água superficiais e 40% das subterrâneas se encontram ainda abaixo do Bom estado.
Entre os aspetos que considera necessário estudar estão igualmente o potencial efeito de “ilha de calor”, a qualidade da água captada para consumo humano e os possíveis impactos sobre a fauna e flora fluviais e ribeirinhas, particularmente em cenários de seca severa e ondas de calor.
Quercus exige avaliação conjunta dos dois centros de dados

A associação critica ainda o Plano Nacional de Centros de Dados, considerando-o “demasiado otimista” perante os riscos ambientais e territoriais associados ao rápido crescimento deste tipo de projetos.
A Quercus aponta os exemplos da Irlanda e dos Países Baixos, onde, refere, os impactos dos centros de dados na rede elétrica, território, comunidades e ecossistemas têm levado a uma maior reflexão sobre a expansão destas infraestruturas.
Para Abrantes, os ambientalistas exigem não apenas um Estudo de Impacte Ambiental do projeto da Hyperion, mas também uma avaliação cumulativa dos dois mega centros de dados, abrangendo recursos hídricos, rede elétrica regional, aumento da temperatura local, áreas agrícolas e florestais e poluição hídrica e sonora.
A Quercus defende ainda que a APA e a CCDR-LVT não emitam parecer favorável enquanto não estiverem esclarecidas as condicionantes existentes, bem como uma reavaliação da dimensão territorial da Zona Livre Tecnológica de Abrantes.
A associação reclama também prazos alargados de consulta pública e sessões presenciais de esclarecimento em Alvega e na Concavada, para permitir a participação das populações diretamente afetadas.
Por último, exige mecanismos que garantam benefícios concretos para as comunidades locais associados à instalação dos centros de dados, defendendo que essa partilha seja assegurada antes do licenciamento e da implementação dos projetos no terreno.