ESPECIAL COVID-19

Reportagem| “Somos Vizinhos”: O caminho da união começa na entreajuda

2020-05-31
Créditos: Pedro David
Créditos: Pedro David

Apresentam-se como vizinhos e a chave de entrada neste grupo é a entreajuda. Criado em abril deste ano, o propósito foi desde logo claro: ajudar as pessoas que, em tempos de pandemia da Covid-19, fossem consideradas de risco ou precisassem de adquirir bens essenciais. Ao longo deste caminho, a solidariedade tornou-se em união.

Residente na aldeia de Casais de Revelhos, em Abrantes, há 15 anos, Clementina Lopes é a autora deste projeto que distribuiu esperança, sorrisos e máscaras comunitárias pela população.

“A minha ideia sempre foi a de haver máscaras para toda a gente. E, com o problema do Covid, algumas pessoas perguntaram-me se eu estava a fazer máscaras. E como tinha criado o grupo ‘Somos Vizinhos’, no Facebook, decidi perguntar se alguém tinha tecidos que pudesse dar para eu fazer máscaras para dar à população. Todas as máscaras que fiz foi sempre para dar, nunca para vender”.

E assim a vontade de ajudar de Clementina passou de boca em boca e gerou uma onda de solidariedade, com várias pessoas e entidades a quererem contribuir e com o foco a ser a produção de máscaras comunitárias.

Assim, havia que arranjar material para trabalhar. Foi aí que entrou o Rancho Folclórico e Etnográfico de Casais de Revelhos, com tecido 100% algodão que é usado para confecionar as blusas das mulheres.

Materiais utilizados para a confeção das máscaras comunitárias (Créditos: Ana Lúcia Pires)

“Tínhamos muitos em stock e fomos vendo o que é que não nos ia fazer falta para já, como este ano já sabemos que vamos estar parados em termos de atuações e não vai ser preciso confecionar trajes novos, e demos tecidos, umas três ou quatro vezes”, explica-nos Ana Lúcia Pires, a presidente do Rancho de Casais de Revelhos, que aproveitou a oportunidade para também ajudar os sócios e elementos deste grupo etnográfico que estão espalhados pelo país e que têm ligação à aldeia, com a oferta de uma máscara.

Juntaram-se a esta ação a Sociedade Recreativa Pró Casais de Revelhos e a União de Freguesias de Abrantes e Alferrarede com o fornecimento de material para as máscaras, como por exemplo o filtro TNT e, em duas semanas, cerca de 10 pessoas desde os 20 aos 50 anos costuraram 600 máscaras que, tendo presentes as regras da Direção-Geral da Saúde e acompanhadas por um folheto de sensibilização, foram entregues à população.

A cada cidadão foi entregue uma máscara acompanhada de uma mensagem de sensibilização e correto uso das máscaras (Créditos: Ana Lúcia Pires)

“Algumas destas pessoas tinham o seu trabalho e depois à noite ajudavam naquilo que conseguiam, cada pessoa em sua casa. Cinco pessoas com máquina de costura, outras a cortar TNT, outras a embalar, era uma equipa em que cada qual tinha a sua função”, lembra Clementina, a responsável pela ideia mas a primeira a admitir que “o mérito não é meu, é de todos”.

E esta foi não só uma missão de solidariedade como também uma nova experiência enriquecedora para quem se envolveu, quer pelas reações positivas da comunidade quer pela aprendizagem de algo novo.

Foi o caso de Ana Lúcia que quis ir um pouco mais além e arriscou pôr mãos à obra, ao comprar a sua primeira máquina de costura.

“Eu fiquei muito entusiasmada quando vi o apelo da Clementina. Lancei logo a ideia aos meus pais de comprarmos uma máquina de costura, porque já era uma ideia que tínhamos há algum tempo e decidi eu mesmo aventurar-me e sem qualquer experiência de costuras com máquinas. Logo me fui desenrascando e ainda costurei algumas mascarazitas”, conta-nos.

Mas a parte mais emocionante ainda estava para chegar: a entrega das máscaras.

Distribuídas pelos quatro cantos da aldeia, as mãos que fizeram as máscaras serviam agora para as entregar, acompanhadas por um sorriso no olhar e pelo abraço invisível que a situação exigia.

“Foi incrível. As pessoas todas queriam ajudar-nos. Nós fomos sempre dizendo que as máscaras eram gratuitas, que não queríamos nada, era uma oferta, houve pessoas que choraram, que se queriam agarrar a nós, tirar fotografias, foi uma emoção. No final, estávamos todas de coração cheio”, recorda Clementina.

A mesma sensação teve Ana Lúcia que admite ter-se sentido realizada: “Eu senti-me muito feliz porque eu gosto muito de ajudar. Fiquei um pouco emocionada com algumas pessoas que também ficaram, inclusive, uma senhora com quem tive uma conversa especial, que disse ‘mas eu vou buscar dinheiro, quanto é que vocês querem’ e insistia e que queria dar alguma coisa e eu respondi que a melhor coisa que me podia dar era um sorriso e um agradecimento. Ela ficou tão emocionada que eu acabei por ficar também”.

E não foi caso único este da vontade da população em retribuir o gesto dos ‘Vizinhos’, tanto que acabaram mesmo por angariar algum dinheiro que teve como destino, uma vez mais, a solidariedade: o grupo doou o valor arrecadado ao CRIA – Centro de Recuperação e Integração de Abrantes, uma das IPSS’s do concelho de Abrantes, como forma de ajudar nesta altura em que a instituição, “como tantas outras, passa por dificuldades, especialmente agora muito mais”.

São estes gestos e atitudes que nos tornam mais fortes. O CRIA agradece, muito Obrigado.

Publicado por Centro de Recuperação e Integração de Abrantes em Quarta-feira, 20 de maio de 2020

 Agradecimento do CRIA ao grupo 'Somos Vizinhos'

Quanto ao grupo ‘Somos Vizinhos’, aquilo que ganharam foi a união da população, numa aldeia em que apesar da proximidade muitos não se conhecem.

“Acabou por unir pessoas que poderíamos pensar que era impensável acontecer, mas aconteceu”, realça Ana Lúcia.

Já Clementina mostra-se disponível para continuar este caminho agora iniciado, que conta à data com cerca de 200 pessoas no grupo e que tem as portas abertas para “quem quiser aparecer, quem tenha outras ideias”, com a certeza de que “tudo aquilo em que a gente possa ajudar, estaremos cá para isso”, e com o olhar posto num possível projeto consolidado num futuro que há-de vir.

Ana Rita Cristóvão

2020-05-31