Quando deixou a profissão de uma vida, ligada aos computadores e aos números, Rui Daniel recuperou uma paixão que vinha da infância. Hoje dedica-se à criação artesanal de peças em couro, integra o projeto Art’Of, em Sardoal, e apresenta o seu trabalho nas Festas do Concelho.
Em entrevista à Antena Livre, o artesão explicou que este novo percurso começou de forma natural, quando precisou de um objeto feito em sola.
“Fiz um, depois fiz dois. Apareceu um amigo que quis outra peça e, a partir daí, fui fazendo cada vez mais coisas e mais complexas”, contou.
A passagem para o trabalho manual trouxe-lhe também uma nova forma de realização pessoal.
“O trabalho manual dá-nos prazer, dá-nos gosto e deixa-nos bem-dispostos”, afirmou.
O contacto de Rui Daniel com o couro começou quando tinha cerca de 10 ou 11 anos, na Arrifana, onde cresceu rodeado por profissionais ligados ao trabalho da pele.
“Havia muitos correeiros e pessoas a fazer sapatos. Hoje já ninguém tem essa memória, mas existiam”, recordou.
A ligação familiar também contribuiu para esse conhecimento inicial, uma vez que o avô chegou a trabalhar como sapateiro. Rui Daniel começou por observar, experimentar e aprender a distinguir os diferentes tipos de matéria-prima.
“Não há muita gente que trabalhe estas matérias e muito menos com o estilo que conhecemos de quando éramos novos. Foi aí que comecei a desenvolver a minha própria técnica”, explicou.
A aprendizagem foi essencialmente autodidata, já que, segundo refere, existe pouca formação disponível nesta área.
Os primeiros trabalhos eram pequenos, tanto pelo receio de desperdiçar uma matéria-prima dispendiosa como pela necessidade de aperfeiçoar as técnicas.

Com o tempo, surgiram peças maiores e mais complexas, como sacos, pastas e mochilas. Algumas podem exigir cinco ou seis dias de trabalho.
“Há três ou quatro modelos originais que faço regularmente, mas depois cada pessoa pede um pormenor diferente”, explicou.
Essa relação direta com o cliente permite adaptar cada peça às necessidades atuais, desde o tamanho de um computador até à localização de um compartimento para guardar os óculos.
“São materiais e técnicas antigas, mas o uso é contemporâneo. O que faço é adaptar a peça à utilização de cada pessoa”, salientou.
Todo o processo é manual, incluindo o desenho, o corte e a costura. Para Rui Daniel, a qualidade final começa precisamente na forma como o material é cortado.
“O que faz o produto é o corte. A forma como se corta influencia tudo o resto: como se cola, como se cose e como a peça funciona”, explicou.
Rui Daniel faz questão de trabalhar apenas com matéria-prima portuguesa e de preservar uma identidade estética nacional.
O artesão considera que os clientes procuram cada vez mais informação sobre a origem do couro, as técnicas utilizadas e o impacto ambiental do produto.
“Faço questão de só utilizar matéria-prima portuguesa. O cliente quer saber de onde vem, como é tratada e que custo ambiental tem”, afirmou.
Apesar de produzir em pequena escala, diz não ter encontrado dificuldades no abastecimento e elogia a qualidade das peles disponíveis em Portugal.
“O nosso país ainda tem matéria-prima muito boa. Somos bons exportadores e temos qualidade reconhecida”, destacou.
O trabalho também desperta o interesse dos visitantes estrangeiros, que procuram comparar as técnicas portuguesas com as existentes nos respetivos países. Segundo Rui Daniel, a estética nacional apresenta semelhanças com o design italiano, embora considere a matéria-prima portuguesa superior.
Rui Daniel trabalha num ateliê integrado no Art’Of, em Sardoal, que pode ser visitado mediante marcação. Além de observarem o processo de criação, os visitantes podem ter um primeiro contacto com o couro e esclarecer dúvidas sobre materiais e técnicas.
A presença nas Festas do Concelho pretende divulgar as peças, abrir as portas a futuras visitas e mostrar o trabalho desenvolvido naquele espaço de criação.
Para o artesão, trabalhar próximo de outros criadores é também um estímulo para desenvolver novas ideias.
“Aquilo que mais contribui para a criatividade é estarmos perto de pessoas criativas. Quando existem muitas ideias e vontades, acabam por surgir ainda mais. É um ambiente extremamente saudável”, concluiu.