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CRÓNICA: «Aristóteles e os seus pensamentos» por Luís Barbosa

2020-08-24
Luís Barbosa
Luís Barbosa

SALPICOS DE CULTURA.....

 

«Aristóteles e os seus pensamentos»

Volto de novo ao vosso contacto, regressando, como sempre, com a expectativa de que estes textos sirvam para aligeirar as tensões que as coisas da vida vão sempre provocando. Se o consigo ou não, só vós, podeis dizer. Hoje, gostava de partilhar convosco um pequenino acontecimento quotidiano que, embora trivial, não deixou de me fazer pensar. Estava eu sentado na mesa de um pequeno café de bairro a meio da manhã, bebendo um café, quando ouvi voz conhecida, que num timbre bem amigável, se me dirigiu cumprimentando. Embora estando de máscara na cara, não foi difícil reconhecer quem era.

O meu antigo professor de Filosofia sorriu, e passados breves momentos dedicados a pôr a escrita em dia, no que respeita às nossas vicissitudes profissionais umas, e mais pessoais outras, tornou-se inevitável falar um pouco não só do que no momento nos envolve mas também, daquilo que ainda pensamos poder vir a fazer. De mim dei-lhe conta que continuo muito interessado nas coisas da cultura, e dele ouvi que se movimenta no sentido de aprofundar conhecimentos já adquiridos, mas que revisita por achar que tal o ajuda a consolidar as suas actuais atitudes pessoais, profissionais e até políticas.

Lembrei-me então das suas aulas sobre Aristóteles, e trouxe de novo à minha memória as posições que, mais tarde, já na qualidade de colega de profissão o vi tomar a favor do ensino da Filosofia, no concelho científico da universidade onde ambos então leccionávamos. A conversa foi rápida e decorreu normalmente até que em dado momento ouvi dele algo que me surpreendeu um pouco. Foi quando, em jeito de reflexão bem sentida me disse: - “sabes Luís, passados estes anos, e feito o percurso que já fiz, sinto que por vezes mais não fazemos que dizer sempre as coisas que outros já disseram embora o façamos de maneira diferente. Por isso resolvi revisitar Aristóteles, e estou a fazê-lo como se estivesse a lê-lo pela primeira vez”.

Não pude calar a surpresa, não porque considere que revisitar um autor passado não seja um bom exercício, mas porque quem tal mo dizia era, e é, considerado um autêntico livro aberto sobre Aristóteles. A surpresa maior foi quando me referiu que o que estava agora a ler com muito cuidado era a História que Aristóteles escreveu sobre os animais, e em particular o que deixou expresso sobre o “Princípio da Continuidade”. Aristóteles é de facto considerado por muitos como o fundador da Biologia, e a forma como dissertou sobre o princípio acima referido é aceite como uma das alavancas fundamentais da indagação científica.

Ainda não tive oportunidade de telefonar ao meu agora colega e amigo, mas facto é que, depois deste encontro, também eu resolvi revisitar Aristóteles. Não para a ele ficar agarrado, mas para que, a partir dele, me possa sentir mais habilitado para dissertar sobre as questões da cultura.

Despeço-me com amizade,

Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)

 

2020-08-24