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CRÓNICA: «Damásio e as questões da mente e da consciência», por Luís Barbosa

2020-12-16
Luis Barbosa
Luis Barbosa

SALPICOS DE CULTURA....

Damásio e as questões da mente e da consciência”

A publicação do livro de Damásio titulado, Sentir & Saber, apanhou-me desprevenido. Não porque tenha necessidade de ter para com o autor alguma reserva, mas porque pensava Damásio mais recolhido, já que das duas últimas vezes que o ouvi na televisão, fiquei com a ideia que estraria a dedicar muito do seu tempo a rever conceções e propósitos que avançou noutras obras.

Bem, que fique claro que não quero dizer com o que expressei anteriormente que estou convencido que o autor tenha dito ou escrito algo sem sentido. Bem pelo contrário, se há cientista que me merece um imenso respeito, ele é certamente António Damásio. Porém, das suas últimas intervenções, pareceu-me que face aos novos avanços científicos ele próprio parecia estar a ter necessidade de ser cauteloso e meditativo.

Curioso é que a leitura da obra editada este ano, pelo Círculo de Leitores na coleção Temas e Debates, e com o subtítulo “A Caminho da Consciência”, começa justamente por mostrar que o momento que Damásio vive, é de cautelas. Não porque tenha chegado à conclusão que aquilo que disse e escreveu tenha constituído algo de inútil, mas porque sentiu o que logo nas primeiras frases da introdução deixa expresso a páginas 17/18:

O formato do livro que se prepara para ler tem uma origem curiosa e deve muito a um privilégio de que há muito gozo e uma repetida frustração. O privilégio consiste no facto de ter sempre contado com espaço abundante para explicar ideias complexas, empregando o vasto número de páginas de um típico livro de ensaio. A frustração tem origem nas conversas que ao longo dos anos tenho tido com numerosos leitores que me deram a saber que certas ideias, às quais dediquei entusiasmo e que tanto queria dar a conhecer e a apreciar, se perderam no meio de longas apresentações, mal sendo notadas, e muito menos saboreadas.”

Achei curiosa esta confissão do autor, e sigo-lhe os passos no que respeita à frustração sentida. Porém, tenho para mim que, verdade se diga, este é um preço que se paga quando no domínio do conhecimento científico se desvendam horizontes, e Damásio não só desvendou novas paisagens, como abriu portas por onde outros puderam já entrar e fazer significativas descobertas.

Porém, uma das questões que as obras de Damásio me deixaram sempre a pensar foi o facto de ter sentido que a questão do “Ser” era algo em que tropeçava sistematicamente. Por isso fiquei contente quando, a páginas 19 da obra pude ler que: “O presente livro centra-se em perguntas decisivas para a compreensão do ser humano e do seu lugar na história da vida.”, deixando dito também que: “As respostas a essas perguntas não são fáceis, mas a ciência e a reflexão filosófica podem ajudar a sua abordagem”.

Quem ler a obra de Damásio verá que o autor se queixa que os seus leitores não terão compreendido bem algumas das questões que se prendem com “a relação entre as inteligências e as mentes”, também com a capacidade de sentir, deixando mesmo expressa a pergunta: “Como conseguimos sentir prazer e dor, bem-estar e doença, felicidade e tristeza?”, e por fim verifica ainda que é necessário esclarecer o que pensa sobre a questão da consciência, fazendo então uma nova interrogação: “Como é que o cérebro constrói experiências mentais que associamos inequivocamente ao nosso ser, a nós próprios?

Bem, não é neste texto que vou desenvolver as temáticas que o autor aborda e que me são também muito caras. Por isso, o que penso mais razoável fazer é deixar expressa a opinião que a obra parece-me ser mais um inestimável contributo que Damásio deixa para a construção do saber científico. Mas aqui, como é óbvio, cada um dirá, melhor que eu, de sua justiça.

Despeço-me com amizade,

Luís Barbosa*

*Investigador em psicologia e ciências da educação
SALPICOS DE CULTURA, uma parceria com a Associação Internacional de Estudos Sobre a Mente e o Pensamento (AIEMP)

 

2020-12-16