ESPECIAL COVID-19

Mação: A viagem ao projeto virtual “Rocha F-155” (C/ÁUDIO)

2021-04-20

Domingo à tarde o largo da Feira, em Mação, estava calmo, sem grandes movimentos. O Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo estava de portas abertas no âmbito da comemoração do Dia dos Monumentos e Sítios. E se tinha a exposição permanente com as peças de arte pré-histórica para mostrar aos visitantes, a grande novidade era a visita em realidade virtual às gravuras rupestres do rio Tejo que ficaram debaixo de água em 1971, quando foi construída a Barragem do Fratel. Esta “secção” de realidade virtual foi apresentada em 6 de abril, na reabertura do Museu depois do confinamento geral.

Sara Garcês e Margarida Morais esperavam os visitantes para poderem “colocar” os visitantes no leito do Tejo, por um lado, e mostrar a exposição “Do gesto à arte”, por outro.

Experimentar

O primeiro passo é, então, experimentar a realidade virtual.

Assim que colocamos os óculos que nos “fecham” a visão da sala real que nos remete para a sala virtual podem vir à memória fragmentos do filme “Revelação” protagonizado por Demi Moore e Michael Douglas em 1994. Só que aqui, em Mação, não temos o Arkamax com os enormes corredores e gavetas com informação da empresa de novas tecnologias que quer lançar um CD-ROM com alta velocidade.

No Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo ficamos noutro ponto da região.

Agarramos no comando que nos envia o feixe de luz com o qual podemos aceder ao menu que a experiência nos proporciona.

Assim que acionamos, com o “feixe de luz” o projeto “Rocha F-155” [permitam-me usar este nome] o bordeaux da sala do Museu de Mação transforma-se na margem do rio Tejo. Se olharmos em redor [para nos ambientarmos] percebemos que estamos numa zona de rochas, com a encosta da margem mais acima. Se rodarmos a cabeça à esquerda ou direita temos as águas do Tejo e se rodarmos o corpo poderemos olhar [e apreciar] a outra margem. A Margarida Morais e a Sara Garcês explicam que o objetivo do projeto é mesmo ficarmos integrados na paisagem.

Depois vamos em busca da tal “Rocha F-155”. Quando a localizamos, ao olharmos quase para os nossos pés, sem os vermos, percebemos claramente que estão ali as gravuras gravadas pelos antepassados.

E caso não consigamos identificar aquilo que está gravado na rocha podemos sempre utilizar a ajuda [na Arkamax era o 'anjo'] do realce das imagens.

Começamos pelo Neolítico, o período mais antigo, e temos representações antropomórficas e zoomórficas. Com o “azul fluorescente” do realce podemos identificar as gravuras. Se nos baixarmos podemos fazer a aproximação visual como se estivéssemos no local exato das gravuras.

No quadro que nos surge no canto superior direito da nossa “visão” podemos subir para a idade do bronze. E aí, junto aos pés, multiplicam-se as gravuras da pedra. Muitos círculos e espirais. Outra idade e outra forma de ver o mundo

Margarida Morais explica que provavelmente seria uma forma destes habitantes da região representarem o mundo que os rodeava e, de alguma forma, uma primeira abordagem de arte.

E depois poderemos tirar o realce das gravuras rupestres e dar um salto no tempo da idade do bronze até 1971. Porquê este ano, porque foi a data em que foi concluída a construção da Barragem do Fratel e a consequente submersão das gravuras. Sara Garcês diz que a barragem pode ter deixado debaixo de água mais de 7 mil gravuras rupestres que acredita estarem preservadas pelas águas do Tejo.

Este é um dos momentos desta visita. Ao apontarmos o feixe de luz para 1971 percebemos que as águas [virtuais, é certo] do Tejo inundam as margens e submergem as gravuras. Aliás, naquele mundo ficamos com água pelos joelhos [mais ou menos é a perceção que temos] embora na realidade as gravuras tenham um metro e meio ou mais de água em cima.

Podemos sempre olhar em redor, para a paisagem, antes de pedirmos ajuda do realce para nos “pintar” as gravuras e percebermos [ou tentar, pelo menos] como será a realidade nos dias de hoje.

E pronto. A visita é rápida, mas leva-nos para um outro mundo.Um mundo virtual e histórico.

Depois tiramos os óculos e regressamos à sala do Museu para iniciar a visita à exposição permanente “do gesto à arte”. Com as explicações de Margarida Morais percorremos os “gestos que transformam o território”, passando pelos “gestos que transformam materiais em objetos” e depois pelos “gestos que se revelam de forma oculta”.

Todas as peças que podem ser observadas no Museu foram descobertas na região de Mação.

Margarida Morais

Trata-se de uma visita que pode ser feita em cerca de meia hora, podendo o visitante continuar a tarde com as quatro experiências propostas para o exterior: Anta da Foz do Rio Frio; Coreto; Praça Gago Coutinho ou para a Pesqueira.

Visitar o Museu e experimentar a realidade virtual

Manuela Marques e Clara Silva entraram no Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo com o objetivo claro de experimentar a realidade virtual. Manuela revela que conhece o Museu da sua terra enquanto Clara, emigrante em Paris, diz que vai dar conta desta experiência a uma amiga que tem uma agência de viagens por terras gaulesas.
Manuela colocou os óculos e iniciou a experiência, sempre acompanhada por Sara Garcês que, com tablet na mão, ia dando indicações por forma a facilitar a “viagem”.

“Estou em cima de uma rocha muito antiga, com milhares ou milhões de anos”, conta esta maçaense. Depois continua a descrever aquilo que está a ver “um conjunto de figuras representativas daquela época. Algumas em caracol, círculos, umas aves, pessoas...” e à pergunta se ainda não tinha as figuras submersas, Manuela diz que não: “Ainda estou antes de 1971, antes de se construir a Barragem do Fratel”.

“Já vem a água a subir (…) já tenho água pelos joelhos”, explica Manuela Marques que diz que esta é uma boa sugestão, a visita ao Museu.

Manuela Marques

Enquanto Manuela vai fazendo a visita virtual, Clara Silva, nascida em Chão de Codes, emigrante em Paris, mas com casa em Mação diz ter ficado surpreendida com esta visita virtual. Diz que não sabe se o Louvre terá uma experiência destas. E fala no Louvre porque trabalha lá perto.

Clara revela que tem vontade de “vender” esta experiência a uma amiga que, em França, tem uma agência de viagens. Poderia ser uma forma de ajudar a promover a sua terra.
Daquilo que a impressionou, “talvez pela idade, por ser mais velha” foi a experiência virtual porque, clarifica, “os jovens estarão mais habituados a estas novas tecnologias”.
Clara Silva espera que “a pandemia acabe para podermos viajar e para poder haver mais visitas a este Museu. Parabéns a Mação por ter feito uma coisa destas”.

Clara Silva 

O Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo está aberto de semana e ao fim-de-semana por marcação. Pode fazer a experiência de realidade virtual e visitar a exposição permanente e depois fazer as outras experiências no exterior.

No domingo, dia 18, foi a forma de assinalar o Dia dos Monumentos e Sítios com a visita ao “Protejo Rocha F-155”.

Quem sabe a próxima inovação nos possa colocar, como hologramas a viver esses tempos do Neolítico ou da Idade do Bronze.

Jerónimo Belo Jorge

2021-04-20