As sucessivas ondas de calor aceleraram a maturação das uvas e obrigaram a antecipar as vindimas. Isso também aconteceu no Sardoal. Em meados de setembro, quando em anos normais a colheita estaria no início ou a meio, várias explorações já concluíram os trabalhos.
O alerta é deixado por Tiago Alves, enólogo e responsável pela AgroWine Consulting, em entrevista à Antena Livre, à margem das Festas do Concelho de Sardoal.
“A uva desidrata, acaba por perder água, ganha álcool, mas perde qualidade. Tivemos de antecipar as colheitas. Estamos a meio de setembro e já a terminar as vindimas, o que em condições normais não aconteceria”, explicou.
A AgroWine Consulting conta com mais de 20 anos de experiência e acompanha mais de 800 hectares de vinha e olival em três regiões vitivinícolas.
Vinhas de sequeiro mais dependentes do clima
As consequências são mais evidentes nas vinhas tradicionais de sequeiro, que não dispõem de sistemas de rega e dependem diretamente das condições meteorológicas.
Segundo Tiago Alves, o aumento das temperaturas e a redução da disponibilidade de água obrigam os produtores a acompanhar permanentemente a evolução das uvas e a alterar o calendário definido no início da campanha.
“A agricultura é isso. Temos uma estratégia e sabemos onde queremos chegar, mas, conforme as condições evoluem, vamos fazendo correções”, referiu.
O enólogo considera que Portugal e Espanha estão mais preparados do que os países do Norte da Europa para enfrentar episódios de calor e seca, porque os produtores ibéricos já lidam com estas condições há vários anos.
Contudo, reconhece que os fenómenos estão a agravar-se e exigem uma adaptação cada vez mais rápida.

Tiago Alves, enólogo e responsável da AgroWine
“Antigamente falava-se nas vindimas a 20 de setembro. Agora já se fala nelas a 20 de julho. Temos de antecipar os trabalhos para colher a matéria-prima no ponto ótimo”, afirmou.
Antecipação evita vinhos demasiado alcoólicos
A colheita antecipada procura impedir que as uvas acumulem demasiado açúcar, o que resultaria em vinhos com maior teor alcoólico e menor frescura.
Tiago Alves explica que o mercado procura cada vez mais vinhos frutados e com menos álcool, características que exigem uma escolha rigorosa do momento da vindima.
“Não quero vinhos excessivamente alcoólicos. É por isso que antecipamos a vindima. Esta é uma tendência geral da viticultura e da enologia portuguesas”, salientou.
Para o responsável da AgroWine, o objetivo não passa por manter uma data fixa, mas por colher as uvas quando apresentam o melhor equilíbrio entre maturação, acidez, aromas e potencial alcoólico.
As alterações no calendário agrícola já se estendem ao olival. Tiago Alves revelou que uma exploração por si acompanhada começa a colher a azeitona a 21 de setembro, algo que há alguns anos seria considerado invulgar.
Novos vinhos Arinto e Touriga Nacional
A AgroWine está também a preparar dois novos vinhos monovarietais para lançar no próximo ano, integrados na linha Subsolo.
Um será produzido com Arinto, que Tiago Alves considera a “casta rainha” dos vinhos brancos portugueses, e o outro com Touriga Nacional, apontada como a principal referência entre as castas tintas.
As uvas destinadas aos dois vinhos já foram colhidas, fermentadas e desencubadas.
A linha Subsolo foi criada como uma gama de entrada, mantendo o conceito de ligação à terra que caracteriza o projeto. A linha Atmosférico, de gama média e alta, continuará a ser produzida.
Segundo o enólogo, os dois nomes representam os principais fatores que definem cada vinho: as características do solo e as condições atmosféricas de cada ano.
Enoturismo aposta na história da Quinta Valle da Louza
A AgroWine está igualmente a reforçar a aposta no enoturismo através da Quinta Valle da Louza, uma propriedade do século XVIII onde funciona uma adega tradicional.
O projeto procura preservar a traça histórica do espaço e associar a produção de vinho a visitas, provas e experiências ligadas ao território.
Durante julho, a quinta promoveu provas de vinhos ao final das tardes de quinta-feira, iniciativas que, segundo Tiago Alves, registaram uma adesão significativa.
Está agora a ser preparada uma nova atividade para o início de outubro, com o tema “despedida do verão e aconchego do outono”. O programa poderá incluir uma visita à adega e provas de vinhos novos.
“As pessoas não querem apenas abrir a garrafa. Querem perceber de onde vem o vinho, como é produzido e conhecer a história daquela garrafa”, explicou.
Além dos vinhos, a experiência integra outros produtos da exploração, como azeite e mel. Para Tiago Alves, este tipo de oferta pode ajudar a captar visitantes para os territórios do interior e complementar a atividade dos produtores.
“Cada quinta e cada exploração têm a sua história. O enoturismo permite contá-la num momento descontraído e aproximar as pessoas da forma como trabalhamos”, concluiu.