Antena Livre
Deseja receber notificações?
A. MatosCar
PUB

Abrantes: Operação da PJ aconteceu em 2023, MP deduziu acusação a grupo que instalou laboratório de anfetaminas no Tagusvalley

16/06/2026 às 12:09
Acelerador de Empresas do Tagusvalley

No passado sábado, dia 13 de junho, o Jornal de Notícias avançou com uma notícia onde deu conta da existência de um “laboratório de anfetaminas escondido no Tagusvalley” - Parque de Ciência e Tecnologia, em Abrantes.

Na operação da Polícia Judiciária, a que deram o nome «Erva Daninha», participaram cerca de 300 inspetores, 48 peritos e 24 seguranças da PJ, seis magistrados do Ministério Público e três juízes. Foram detidos vários suspeitos de pertencer a um grupo criminoso dedicado à introdução de grandes quantidades de cannabis em vários mercados europeus e africanos, e cumpridos 64 mandados de busca e apreensão de norte a sul do país, na ilha da Madeira, bem como seis mandados de busca em Espanha, um na Bulgária e um outro em Chipre.

Segundo publicou o jornal Expresso, já em maio deste ano, “a investigação iniciou-se no início de 2022, no âmbito da cooperação policial internacional e em estreita colaboração e articulação com as autoridades policiais e judiciárias da Espanha – Polícia Nacional, na sequência da qual foram apreendidos, numa primeira fase, um total de cerca 1.200 quilos de anfetaminas (3-CMC e 3-MMC)”.

No dia 15 de junho, o DCIAP - Departamento Central de Investigação e Ação Penal de Lisboa avançou com um comunicado onde deu conta de que “o Ministério Público, (...) deduziu acusação, no dia 22 de maio de 2026, contra vinte e quatro arguidos, treze dos quais pessoas singulares e onze pessoas coletivas, pela prática dos crimes de associação criminosa para o tráfico, tráfico de estupefaciente agravado, branqueamento de capitais e falsificação de documentos. A investigação criminal permitiu desmantelar uma rede criminosa de cariz internacional, dotada de um elevado poder logístico e financeiro, que se encontrava estabelecida em Portugal desde meados de 2021”.

Ainda de acordo com a acusação, “esta organização operava de forma altamente estratificada e concertada, utilizando o setor farmacêutico e a indústria legal da canábis medicinal como fachada para encobrir as suas atividades ilícitas e garantir uma aparência de legitimidade institucional perante as autoridades nacionais”.

Para além do tráfico de canábis, segundo a acusação, Geert Caers, Reinier de Jong, Benny Falk e Michael Sorensen também montaram, numa empresa com sede no Tagusvalley, em Abrantes, um laboratório industrial para produção de anfetaminas e transformação de cocaína. Droga essa que era exportada para Espanha e para os Países Baixos.

 

O que se passou em Abrantes

Foi em 2022 que os arguidos Geert Caers, Reinier de Jong, Benny Falk e Michael Sorensen criaram a Polyfarchemi e a instalaram no INOV.POINT – Programa de Aceleração do Tagusvalley”, em Abrantes. Pedro Saraiva, diretor executivo do Tagusvalley, explicou que “a empresa se candidatou para produzir polímeros plásticos”.

Em declarações à Antena Livre, Pedro Saraiva afirmou que a empresa até tinha apresentado um projeto com “uma particularidade, até de um fator diferenciador do tipo de polímeros que ia aqui produzir”.

Passados nove meses da sua instalação, “surgiu uma operação da Polícia Judiciária e somos confrontados com a situação. Lamentamos, mas foi o que se passou, efetivamente”.

O diretor executivo do Tagusvalley disse ainda que “uma coisa são os programas de incubação e nos programas de incubação nós temos um trabalho mais próximo com as empresas no desenvolvimento da sua ideia de negócio, no desenvolvimento do seu negócio. As empresas que estão nos aceleradores, já são empresas constituídas, já têm a sua atividade lançada e, portanto, não era necessária a nossa intervenção dentro da própria empresa”.

Contudo, do que se observou na altura, “a empresa e o layout que tinha instalado dentro do nosso pavilhão - o pavilhão é uma pequena nave industrial de cerca de 300 metros quadrados - o layout que estava instalado, os equipamentos, o modo como estava dividido, é um processo adequado àquilo que eles disseram que iam produzir. Portanto, a produção e a exportação de plásticos. Dos equipamentos que lá estavam, eram equipamentos adequados à atividade, o layout do espaço que tinha sido adaptado por eles, era adequado à produção industrial, portanto nada, nada, nada fazia prever de que não estariam a fazer o que disseram que iam fazer, além de que ainda se estavam a preparar, não é? Uma fábrica, uma indústria, não começa de um dia para o outro e quando começa, começa com equipamentos de escala mais pequena. Uma fábrica grande não surge do pé para a mão e é nesse contexto que tudo aconteceu”.

Questionado sobre o que prevê o Regulamento do Tagusvalley para este caso, Pedro Saraiva adiantou que a situação ficou bem patente logo na altura: “deixaram de pagar o aluguer do pavilhão e eles desapareceram. Mesmo quando foi para retirarem o resto que não foi apreendido pela Polícia Judiciária, tentámos entrar em contacto com a gerência e já não conseguimos falar. Depois percebemos, através do RCBE - Registo Central do Beneficiário Efetivo, que estava um gabinete de contabilidade com responsabilidades, algures nos arredores de Lisboa. Mas mesmo com eles não conseguimos interação e retirámos as coisas do interior do pavilhão”.

 

A acusação do Ministério Público

Foi então em 2022 que os arguidos criaram a Polyfarchemi, uma empresa formalmente registada no parque tecnológico, que terá sido criada para servir de fachada a atividades ilícitas. O grupo “adquiriu e constituiu diversas sociedades comerciais, muitas das quais detentoras de licenças oficiais para o cultivo, comércio por grosso, importação e exportação de canábis medicinal”.

Segundo o Ministério Público, “os membros da rede criminosa terão igualmente beneficiado de fragilidades nos mecanismos de supervisão e fiscalização do setor da canábis medicinal, aproveitando limitações na capacidade de controlo das entidades competentes para consolidar a sua atividade e manter uma aparência de legalidade. Essa circunstância terá contribuído para dificultar a deteção atempada dos alegados desvios de produto e das operações fraudulentas, permitindo ao grupo expandir a sua atividade sob a cobertura de empresas devidamente licenciadas”.

Ainda com base na acusação, “o grupo desviava produtos estupefacientes para o mercado negro europeu e realizava exportações fraudulentas com destino a países africanos, nomeadamente para a República Democrática do Congo, Quénia e Guiné-Bissau. A organização dedicava-se igualmente à importação de anfetaminas, que eram posteriormente processadas em laboratórios situados na Europa”.

No comunicado do DCIAP de Lisboa, pode também ler-se que “no decurso das investigações, foi realizada em Portugal a maior apreensão de anfetaminas até então registada no país, envolvendo aproximadamente uma tonelada da referida substância estupefaciente”.

Adianta o DCIAP que “dois dos principais arguidos encontram-se em prisão preventiva, outros dois encontram-se atualmente em parte incerta, tendo sido emitidos os competentes Mandados de Detenção Europeus e Mandados de Detenção Internacionais com vista à sua localização, detenção e extradição para Portugal”.

Na investigação, que continua em curso, o Ministério Público foi coadjuvado pela Polícia Judiciária.

 

Partilhar nas redes sociais:
Partilhar no X
PUB
Capas Jornal de Abrantes
Jornal de Abrantes - junho 2026
Jornal de Abrantes - junho 2026
PUB