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Mau tempo: Empresa faz contas sobre quanto custa ignorar a natureza

17/03/2026 às 08:59

Investimentos de 15 a 25 milhões de euros em programas de restauro ecológico poderiam ter representado uma redução potencial de prejuízos de centenas de milhões de euros nas tempestades deste ano.

A estimativa é da NBI-Natural Business Intelligence, consultora especializada na valorização do capital natural, que explica a importância de se investir na natureza e apresenta valores de “quanto custa” ignorá-la.

Cruzando informações sobre os danos do “comboio de tempestades” de janeiro e fevereiro com estimativas económicas de medidas de restauro ecológico e gestão natural do risco de inundação, a NBI avança que as tempestades terão causado prejuízos de entre 5.000 e 6.000 milhões de euros.

Desse valor, 40 a 55% estará associado a fenómenos hidrológicos, como cheias, o que corresponde a perdas de 2.200 a 3.300 milhões de euros.

No que considera “um cenário conservador”, a NBI estima que cerca de 15% dos danos poderiam ser mitigados com soluções baseadas na natureza, representando uma redução de perdas de entre 330 e 495 milhões de euros. E tal podia ser conseguido com programas de restauro ecológico.

O restauro ecológico em bacias hidrográficas prioritárias poderia exigir investimentos de entre 15 e 25 milhões de euros, que teriam apoios de fundos europeus, nota a empresa, que aponta a perda gradual de planícies naturais de inundação e a fragilidade das infraestruturas e sistemas naturais de proteção costeira face aos ventos ciclónicos.

Ou seja, diz, o país tem vindo a perder capacidade natural de absorver eventos extremos.

Nuno Gaspar de Oliveira, diretor da NBI, estava na Marinha Grande aquando da tempestade Kristin, a mais devastadora.

Em declarações à Lusa, diz que com os terrenos saturados e a velocidade dos ventos haveria sempre danos. Mas podiam ser menores.

Zonas com bolsas de vegetação nativa, como carvalhos e zonas de mato e outras, registaram danos 30 a 40% menores do que zonas só de pinhal ou eucaliptal, exemplifica o especialista.

Lamenta que se esteja agora a calcular danos das tempestades para se reconstruir depois “na mesma lógica”, quando é público que os eventos extremos serão mais frequentes e as paisagens têm de ser mais resilientes.

“Era ótimo que conseguíssemos aprender alguma coisa” com o que aconteceu, diz.

E acrescenta: “Cada investimento que se tenta fazer na natureza aparece logo no vermelho”, como um custo sem retorno.

“A natureza está no ângulo morto da economia”, afirma, alertando que investir na natureza é diferente de gastar na natureza.

Há municípios do interior com trabalho de preservação em que “só se vê a despesa”, mas estão a “produzir coisas importantes, como diminuir a severidade dos incêndios, manter as águas nos aquíferos”, exemplifica.

Segundo Nuno Gaspar de Oliveira, a natureza ajuda a proteger dos incêndios e das tempestades, ajuda na produtividade agrícola, no turismo.

“E não podemos olhar para isto só como um custo”, o benefício não pode vir sempre a zeros, alerta.

Nas palavras do responsável, é preciso criar modelos económicos que tornem viável investir nos territórios, e mostrar que investir é diferente de gastar.

Quando se investe num hospital sabe-se qual será o retorno, mas “não se pode não saber qual é o retorno quando se investe numa frente ribeirinha ou num leito de cheia”.

E com os incêndios é igual. Nuno Gaspar de Oliveira antecipa que se vai falar de que são necessários carros de bombeiros e aviões, mas se alguém disser que é preciso 80 milhões de euros para criar corredores para diminuir o risco de incêndio com outros modelos de vegetação, parece que é “só gastar”.

Ainda esta semana a NBI deve lançar uma aplicação, de acesso livre, que permite a qualquer pessoa no país saber quais as espécies de árvores e arbustos serão mais resistentes e melhor adaptadas para cada local

Lusa

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