Há uma casa em Rio de Moinhos, no concelho de Abrantes, onde as portas escondem histórias de arrepiar, as sombras parecem ganhar vida e até a mulher do lobisomem tem contas a ajustar com o marido.
Chama-se “O Forno das Sombras” e foi uma experiência de teatro imersivo da Bi-Dom Academia Criativa que trocou as cadeiras de uma plateia por corredores escuros, personagens misteriosas, cheiros inesperados e, naturalmente, uma boa dose de humor. Tudo isto com histórias que os avós contavam e que, afinal, ainda não morreram. Uma história do fim de semana, mas que poderia muito bem ser hoje. Vamos lá conhecer o “Forno das Sombras”.

Na noite em que as bruxas saem à rua, os fantasmas regressam do outro mundo e os lobisomens fazem das suas, há quem prefira ficar em casa, sossegado, com as portas bem fechadas. Mas em Rio de Moinhos há precisamente uma casa onde o desafio é entrar. E, depois de entrar, confiar nos três mordomos que prometem conduzir os visitantes pelos caminhos mais sombrios da imaginação popular.
Mauro Moura, José Carlos e Augusto Oliveira são os anfitriões desta aventura. Vestidos e caracterizados a rigor, recebem os visitantes e conduzem-nos por um percurso onde a luz escasseia, o fumo aparece sem pedir licença e, atrás de cada porta, pode estar uma nova surpresa.

Mauro explica que a missão dos mordomos é simples, pelo menos em teoria: conduzir o público de sala em sala, evitando que alguém se perca pelo caminho.
«Está tudo muito escuro, os sítios com muito fumo e é preciso sermos os guias, os olhos deles», conta, entre risos.
E convém mesmo não perder o mordomo de vista. É que, neste espetáculo, ninguém fica confortavelmente sentado numa cadeira à espera que o pano suba. Aqui, o teatro acontece à volta das pessoas, à frente, atrás e, por vezes, demasiado perto para os mais assustadiços.
Histórias de bruxas, costureirinhas e um lobisomem com problemas conjugais
A ideia não nasceu propriamente da vontade de importar o Halloween americano, com as habituais abóboras e fantasias. A Bi-Dom foi mais longe e procurou recuperar as histórias de bruxas, assombrações e acontecimentos inexplicáveis que, durante gerações, fizeram parte do imaginário das aldeias portuguesas. E, neste caso concreto, de Rio de Moinhos.
«Isto é mais Dia das Bruxas», explica Mauro Moura, recordando que o projeto começou a ganhar forma há dois anos, quando a associação realizou uma primeira experiência teatral com histórias populares.
O resultado foi tão positivo que a equipa decidiu repetir a aventura. O problema foi encontrar a casa certa. Não bastava um palco, umas cadeiras e um pano preto. Era necessário um edifício grande, com várias divisões, capaz de acolher diferentes histórias e cenários.
Encontrado o espaço em Rio de Moinhos, começaram a surgir as personagens. Algumas vieram das memórias dos habitantes, outras de lendas conhecidas em várias regiões do país. E houve ainda aquelas que receberam uma ajudinha da imaginação dos criadores.
É o caso da famosa Costureirinha, uma figura que atravessa diferentes versões da tradição oral.


A equipa decidiu juntar três ou quatro dessas versões numa única história. Mas qual será a verdadeira?
Na encenação, uma criança faz precisamente essa pergunta à avó. A resposta não podia ser mais misteriosa: a avó sabe, mas não conta.
E depois há o lobisomem. Ou melhor, a mulher do lobisomem.
Como as histórias destes seres misteriosos também faziam parte das memórias populares da região, a equipa decidiu dar-lhes um tratamento diferente. Em vez de colocar um lobisomem a correr pelos corredores, resolveu chamar a esposa para falar do marido e das suas transformações.

Afinal, até no mundo das criaturas sobrenaturais parece haver problemas conjugais.
Um susto, uma gargalhada e outra porta para abrir
Mas quem pensar que “O Forno das Sombras” é apenas uma sucessão de sustos está enganado. Há também espaço para o humor, para a surpresa e para aquelas situações em que o público não sabe muito bem se deve rir ou fugir.
José Carlos, um dos três mordomos, assume que gosta especialmente dessa componente.
Para o ator, o riso é uma forma de aproximar as pessoas e de as fazer esquecer, ainda que por momentos, os problemas do quotidiano.
E o humor começa muito antes de o público entrar. Durante os ensaios, as brincadeiras entre os participantes ajudam a criar cumplicidade, confiança e espírito de equipa.

Só depois vem o trabalho mais sério: estudar as personagens, acertar os diálogos e encontrar a melhor forma de contar cada história.
Augusto Oliveira tem outra preocupação. É preciso fazer com que os visitantes deixem o mundo exterior à porta e entrem verdadeiramente na atmosfera da peça.
E isso nem sempre acontece de imediato.
Há quem chegue a conversar, quem ainda esteja distraído e até quem se esqueça de silenciar o telemóvel. Cabe aos mordomos, através da voz, dos gestos e até de alguns olhares mais intimidadores, fazer a transição para o ambiente de mistério.
Aos poucos, as conversas desaparecem, os visitantes ficam mais atentos e começa a magia do teatro.
Ou será bruxaria?

Aqui até o cheiro das tripas ajuda a contar a história
Uma das particularidades de “O Forno das Sombras” é o cuidado colocado nos cenários e na caracterização das personagens.
Cada divisão tem uma identidade própria. Há espaços iluminados apenas por velas, outros praticamente mergulhados na escuridão e outros onde os sons e os objetos ajudam a recriar ambientes de outros tempos.

Mauro Moura garante que a intenção é surpreender o público a cada porta que se abre.
Não basta colocar um caldeirão, umas caveiras e uma máquina de fumo. É preciso construir um ambiente convincente, capaz de transportar os visitantes para dentro das histórias.
E, para isso, vale quase tudo.
Até dedos, cabeças de porco e gordura de tripas.
Mauro conta que um dos colaboradores, Júlio, ajudou a preparar vários elementos de cenografia, incluindo materiais destinados a dar um cheiro bem particular a determinados espaços.
Porque, se a organização promete que o público vai ouvir, cheirar, provar e sentir, convém que a experiência seja mesmo completa.

Outro dos contributos veio de Ramiro, conhecido pelas suas velharias, que emprestou diversos objetos antigos utilizados na decoração.
Entre os elementos recuperados estão peças e equipamentos que ajudam a recriar os sons e as memórias de antigamente, incluindo uma velha máquina cujo funcionamento evoca o trabalho das gerações passadas.

São pormenores que fazem a diferença e que transformam cada sala numa pequena viagem ao passado.
Uma aldeia inteira ajuda a assustar os visitantes
O espetáculo não seria possível apenas com os elementos habituais da Bi-Dom Academia Criativa.
A equipa residente conta com cerca de uma dezena de pessoas, mas a produção envolve também atores amadores e habitantes da comunidade, que participam na representação e na preparação dos cenários.

Mauro Moura estima que, contando todos os contributos, entre 30 e 40 pessoas tenham ajudado a colocar “O Forno das Sombras” de pé.
Os participantes locais recebem formação e trabalham lado a lado com os elementos mais experientes da associação.
O objetivo é que, quando o público entrar, não consiga distinguir os atores profissionais dos amadores.
E há outra particularidade: cada grupo de intérpretes tem liberdade para adaptar os textos e moldar as personagens, tornando os diálogos mais naturais e próximos da sua forma de representar.

Para José Carlos, levar o teatro às aldeias é também uma forma de dinamizar as comunidades e proporcionar experiências culturais diferentes.
Não basta entreter. É importante fazer pensar, recuperar memórias e, claro, provocar umas boas gargalhadas.
O maior mistério? Conseguir que o público vá embora
As sessões de “O Forno das Sombras”, agendadas para 31 de outubro e 1 de novembro, despertaram grande interesse, com a maioria das apresentações esgotadas antecipadamente.
E, segundo Mauro Moura, há um fenómeno curioso que se repete nestas experiências: as pessoas entram com algum receio, mas depois nem sempre querem sair.
O responsável brinca com a situação, contando que, por vezes, a equipa termina o espetáculo praticamente a expulsar os visitantes do edifício, tal é a vontade de continuar a descobrir os cenários e a conversar sobre as histórias.
É precisamente essa reação que compensa os meses de preparação.

Mais do que assustar, o objetivo é preservar histórias que correm o risco de desaparecer, aquelas que se contavam à lareira, que passavam de avós para netos e que transformavam qualquer ruído noturno num possível encontro com o sobrenatural.
A Bi-Dom admite que a experiência possa regressar noutras ocasiões, sobretudo em datas como o Halloween ou uma sexta-feira 13. Mas cada nova montagem terá de se adaptar ao edifício e às tradições da localidade que a receber.
Por enquanto, o mistério mora em Rio de Moinhos.
E fica o aviso: quem entrar no “Forno das Sombras” deve seguir os mordomos, preparar-se para o inesperado e não confiar demasiado no que vê, ouve ou cheira.
Quanto ao lobisomem, talvez seja melhor deixá-lo sossegado. A mulher já tem muito para contar sobre ele.
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