A Câmara Municipal de Mação integra a Comissão Organizadora do Ciclo de Homenagens a quatro cardiguenses que se destacaram a nível nacional e internacional no século XIX.
A primeira das homenagens será a Joaquim da Silva Tavares, um jesuíta “de muito prestígio” da Companhia de Jesus. Foi figura cimeira na História das Ciências Naturais na primeira metade do século XX em Portugal, na Europa e na América. Foi também o principal fundador da revista Brotéria, ainda hoje de enorme prestígio científico e cultural.
A Casa do Cidadão, em Cardigos, foi o local escolhido para dar o primeiro passo desta primeira homenagem. O presidente da Câmara de Mação começou por afirmar que “há figuras que pertencem ao lugar onde nasceram e há outras que, tendo partido desse lugar, pela dimensão da sua obra, acabam por pertencer a um país e, em alguns casos, ultrapassam as suas próprias fronteiras. O Padre Joaquim da Silva Tavares é uma dessas figuras”.
José Fernando Martins destacou a vida e obra de Joaquim da Silva Tavares e disse que “não estamos apenas perante uma personalidade da história de Cardigos ou do concelho de Mação. Estamos perante um homem desta terra que conquistou um lugar na história da ciência portuguesa. E é precisamente essa dimensão que queremos recuperar e dar a conhecer”. O autarca referiu que, “em 2026, quando passam 160 anos sobre o seu nascimento, o Município de Mação entendeu que existia uma responsabilidade que não devíamos adiar: preservar a memória deste nosso conterrâneo e, sobretudo, transmiti-la às novas gerações”. Isto porque, como afirmou, “uma terra também se constrói pela forma como conhece, respeita e valoriza aqueles que fizeram parte da sua história”.
Para tal, o ciclo de homenagens vai ter início nos dias 6 e 7 de novembro, com um Simpósio Internacional. O presidente da Câmara falou numa homenagem a “três grandes dimensões”. Explicou José Fernando Martins que “queremos um ciclo de conferências, trazendo até ao nosso concelho diferentes investigadores e personalidades para nos ajudar a conhecer melhor Joaquim da Silva Tavares, o seu pensamento, a sua obra científica, o seu percurso religioso e o contexto histórico em que viveu. Teremos também a publicação de um livro biográfico, para que a sua vida e a sua obra fiquem estudadas, organizadas e acessíveis, não apenas aos investigadores, mas também à população, às nossas escolas e às gerações futuras”. Por último, adiantou, “teremos aquilo que será provavelmente o legado mais visível e duradouro deste projeto: a recuperação da antiga casa de família, transformando-a num espaço de memória dedicado ao Padre Joaquim da Silva Tavares. Queremos devolver vida a uma casa que faz parte das suas raízes. Queremos que aquele espaço conte a história do homem, do sacerdote e do cientista. E queremos que quem ali entrar, possa perceber que, a partir de uma pequena terra do interior de Portugal, foi possível construir um percurso de conhecimento que chegou muito para além das fronteiras do nosso concelho e do nosso país. É também por isso particularmente simbólico que, neste dia, façamos o lançamento da primeira pedra dessa recuperação. (…) Não estamos apenas a colocar a primeira pedra de uma obra, estamos a colocar a primeira pedra de um projeto de memória. Uma memória que queremos recuperar, estudar, preservar e entregar às gerações que vêm depois de nós”.
Nascido a 17 de agosto de 1866, em Casais de S. Bento, na freguesia de Cardigos, “saiu desta terra e levou consigo a curiosidade, a inteligência, a capacidade de trabalho e a vontade de conhecer. Mais de um século depois, é a nossa responsabilidade fazer o caminho inverso. Trazer novamente o Joaquim da Silva Tavares à sua terra. Trazer a sua história, trazer a sua obra, trazer o conhecimento daquilo que representou e fazer com que o seu nome volte a Cardigos”, concluiu José Fernando Martins.

A vereadora com o pelouro da Cultura, Vanda Serra, declarou que “neste mandato, entre 2026 e 2029, este novo executivo da Câmara Municipal de Mação tem planeado fazer um ciclo de quatro homenagens a quatro homens ilustres desta terra, Cardigos. Este ano, em 2026, nos dias de hoje, ao Padre Joaquim da Silva Tavares que completa 160 anos do seu nascimento”. Depois, nos anos seguintes, adiantou, “pretendemos homenagear Joaquim Manso, Padre Henrique Louro e José de Oliveira Tavares Júnior”, relembrando que, “tal como já foram feitas homenagens em Mação ao Francisco Serrano, ao Padre António Pereira de Figueiredo e outros ilustres, queremos agora descentralizar para outros ilustres deste concelho”.
E para que todos possam ficar a conhecer quem foi o padre Joaquim da Silva Tavares, já se iniciaram ateliers com alunos do primeiro ciclo, “com a professora Joana Lopes, que vai dar origem à exposição Leitores do Património: Joaquim da Silva Tavares, um herói da ciência”. Segundo a vereadora, “será uma forma dos mais novos terem contato com figuras ilustres do concelho que, se calhar, todas as crianças, ou eu diria que praticamente nenhuma, conhece este ilustre. E penso que será muito importante estes alunos do primeiro ciclo, tanto de Mação como de Cardigos, terem estes trabalhos”. Vanda Serra também anunciou que, no dia 6 de novembro, iniciamos com o Agrupamento de Escolas Verde Horizonte duas sessões com os professores e também com os alunos do terceiro ciclo e ensino secundário. Ou seja, vamos levar o nome deste ilustre a toda a comunidade escolar para saberem quem é esta pessoa tão importante a nível mundial que temos no nosso concelho”.
Vanda Serra agradeceu “ao professor António Manuel Martins da Silva, que já não está entre nós, que desde sempre, nas suas aulas com a Universidade Sénior de Mação, falou destes ilustres, da sua terra, e deixou a sua vontade para realizar estas homenagens”. Confessou depois que “foi ele a primeira pessoa que me falou destes grandes ilustres da terra dele. Ele era de Vales e gostaria muito de ver estas homenagens. Espero que onde ele esteja, fique feliz por este trabalho que estamos a fazer”.

O anfitrião da sessão de apresentação deste Ciclo de Homenagens foi Nuno Tavares, presidente da Junta de Freguesia de Cardigos, que falou do significado da iniciativa, dizendo que “representa uma importante valorização da história e do património humano de Cardigos, dando a conhecer uma figura de grande dimensão científica e cultural. É também uma oportunidade de homenagear a memória e o legado de Joaquim da Silva Tavares, cuja obra merece ser cada vez mais conhecida”. Agradeceu a quem deu continuidade “ao trabalho desenvolvido ao longo dos anos pelo falecido professor António Manuel da Silva” e disse ser “com enorme satisfação que vemos este legado ser preservado e projetado, honrando Cardigos e as suas figuras maiores”.

Por parte do Museu de Mação, instituição parceira nesta iniciativa, esteve o diretor Luiz Oosterbeek que assumiu estar “muito feliz com esta iniciativa da Câmara, a todos os níveis. Pela importância da personalidade que é homenageada, pelo que ela significou, (…) sobre o que é que é a relação entre ciência, sociedade e humanidades”. Acrescentou que “o homenageado tem essas características e viveu num tempo conturbado, num tempo de transição que teve os seus aspetos também trágicos, do ponto de vista do itinerário pessoal. Tudo isso faz deste evento algo de importante, eu diria não apenas para Mação e para Cardigos”.

Mas foi José Eduardo Franco, diretor do Centro de Estudos Globais, que mais falou sobre a vida e obra de Joaquim da Silva Tavares, figura que “marcou realmente a investigação científica do tempo, foi uma das maiores figuras enquanto cientista da primeira metade do século XX português”. Também explicou a razão para o nome ter caído no esquecimento. “Precisamente, porque ele ficou submergido naquilo que foi o turbilhão daqueles períodos... porque ele viveu em sucessivos períodos de transição, em que ele foi levado pela avalanche dessas mesmas transições, a Primeira República, que depois deu origem à expulsão dos jesuítas, depois veio o Golpe de Estado de 1926, ele próprio andou entre a Espanha e o Brasil…”, disse, lembrando ainda que o padre jesuíta teve “a capacidade de reconhecimento a nível internacional, porque ele foi reconhecido pelas melhores academias científicas desde Londres, passando por Paris, Espanha, México”.

Contudo, como relembrou o presidente da Câmara de Mação, “a nível local, já terá sido uma figura de referência, mas que caiu muito no esquecimento. E terá sido de referência porque tem uma estátua na praça principal de Cardigos”. No entanto, “se perguntarmos à maioria das pessoas de Cardigos de quem é a estátua e quem foi, se calhar não sabe responder. Portanto, temos que reavivar essas memórias temos que saber quem foi a pessoa que está naquela estátua, porque normalmente quando se tem uma estátua, é porque foi relevante”.
Conhecer o padre Joaquim da Silva Tavares é o desafio deixado pela Câmara de Mação para os dias 6 e 7 de novembro, num Simpósio Internacional dedicado a este ilustre cardiguense.
